Dom. Out 17th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Ser finito e ser eterno

Javier Sancho*

 

a) Elaboração

Edite já tinha iniciado o noviciado, quando o P. Provincial lhe pede para continuar os seus estudos filosóficos. Daqui nascerá o que podemos denominar como a sua obra principal, a «Suma» do seu pensamento.

No ano de 1934 retoma o trabalho abandonado ao entrar no Carmelo. Tinha levado consigo o grosso manuscrito de Acto e Potência. Retoma-o agora, mas altera-o radicalmente, quer na estrutura, quer no conteúdo. De facto, a obra será muito enriquecida com outra série de «fontes» e temas que inicialmente não tinha previsto.

A obra mantê-la-á ocupada até 1936. Se temos em conta como é difícil realizar um trabalho como este além do horário do Carmelo, temos de admirar uma vez mais a capacidade intelectual criativa de Edite, bem como a sua concentração.

A partir de 1936, ocupa-se com a possibilidade da publicação desta obra. Essa mesma intenção acompanhá-la-á quando for para a Holanda. As circunstâncias não possibilitaram, de modo algum, a sua publicação. Só verá a luz em 1950, como volume 2 de ESW.

O título completo da obra é muito significativo: Ser finito e ser eterno. Ensaio de uma ascensão ao sentido do ser (Endliches und ewiges Sien. Versuch eines Aufstiegs zum Sinn des Seins). Publicado em espanhol no México pelo Fundo de Cultura Económica em 1994. Aparecerá proximamente em OC III.

Edite completou a obra com dois apêndices: o primeiro titulado «O castelo da alma» (cf. Ficha 59); e o segundo sobre a filosofia existencial de Martin Heidegger (cf. Ficha 60).

 

b) Estrutura da obra

Além de se tratar da principal obra de Edite, é o seu trabalho mais extenso. A riqueza dos conteúdos fica muito bem reflectida na própria distribuição. Repete-se novamente um esquema ascendente, como já vimos noutros escritos dela. A obra está dividida em oito grandes partes:

  1. Introdução: a questão do ser
  2. Acto e potência enquanto modos de ser
  3. Ser essencial e ser real
  4. Essência, substância, forma e matéria
  5. O ente enquanto tal (os transcendentais)
  6. O sentido do ser
  7. Imagem da Trindade na criação
  8. Sentido e fundamento do ser individual

 

c) Conteúdo

Esta obra de Edite pela sua extensão e pelo seu objectivo, é uma obra muito completa por diversos motivos:

– sistematiza o amplo arco do seu pensamento,

– procura favorecer o diálogo entre a filosofia cristã e a filosofia moderna,

– não cria rupturas entre o campo da filosofia, da teologia e da mística.

De facto, um dos seus companheiros e grande amigo, o filósofo francês Alexander Koyré, definiu esta obra como a sua autobiografia intelectual. Poderíamos dizer até que com esta obra Edite inaugura um novo género literário, que poderíamos denominar como «autobiografia filosófica», no sentido de que o seu filosofar segue a mesma trajectória seguida pela sua vida. A autora pretende elaborar uma «filosofia cristã», que será outro dos aspectos originais da obra: as suas fontes não se limitam só ao campo do natural-filosófico, mas continua a sua ascensão até Deus com a ajuda das verdades da revelação, da teologia e da mística.

Na introdução deixa bem claro o seu objectivo: «A obra centrou-se no problema do ser. A comparação entre o pensamento tomista e o pensamento fenomenológico foi o resultado da análise deste problema. E estas duas preocupações, as investigações sobre o sentido do ser e o esforço de fundir o pensamento medieval com o pensamento vivo contemporâneo, não constituem somente a meta pessoal da autora deste livro, mas dominam também a vida filosófica e são consideradas por muitos filósofos como absolutamente necessárias» (SF 14).

O modo de proceder ao longo da obra segue um ritmo ascendente. O primeiro capítulo ou parte tem uma carácter introdutório e de clarificação hermenêutica e metodológica. Aqui começa por nos introduzir na doutrina tomista do acto e da potência, que constituirão uma base fundamental de toda a obra. Afronta, além disso, outra série de questões problemáticas que quer esclarecer desde o início: a relação do ser e do tempo, as dificuldades da expressão linguística e o sentido de uma filosofia cristã, quase como querendo «definir» a sua obra a partir desta terminologia.

Os capítulos 2 a 6, que ocupam mais de metade da obra, estão consagrados ao estudo do «ser». No segundo, terceiro e quarto, centra-se na «terminologia» clássica da filosofia aristotélico-tomista. Ocupa-se respectivamente das noções, significados, aplicações e conclusões dos conceitos de «acto e potência» (cap. 2), ser essencial e real (cap. 3), essência, substância, matéria e forma (cap. 4). Nos capítulos quinto e sexto estuda os transcendentais, e o sentido do ser respectivamente. Neste último capítulo penetra já no campo da revelação, como base de apoio para a investigação ulterior: Deus como o Ser, e o Verbo como criador.

O capítulo sétimo apresenta uma originalidade especial neste contexto. O tema é a imagem da Trindade na criação. Uma criação que abrange o ser do homem em si e na sua unidade estrutural (corpo, alma, espírito), mas também os espíritos puros criados (os anjos), as coisas materiais, e os seres vivos impessoais. Na hora de se aproximar da imagem divina do homem, Santo Agostinho vai ser para ela uma grande ajuda.

O capítulo oitavo e último, aborda um dos temas que sempre preocupou Edite: a questão da individualidade do ser humano. Tema que já é central nos seus primeiros escritos antes da conversão, e que à luz da revelação adquire um sentido mais radical e completo.


Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 134-135.

 

Imagem de Stefan Keller por Pixabay