Qui. Out 28th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Relações homem-mulher

Javier Sancho*

O tema das relações homem-mulher, em Edith Stein, foi emergindo implicitamente ao falar da condição bíblica da mulher como ajuda e mãe. Agora procuramos analisar directamente o tema, que ela mesma procura colocar no sue devido lugar. Para recuperara a presença da mulher na vida será necessário esclarecer a sua posição diante do homem. Para Edith Stein não há dúvida de que os primeiros pais viviam na harmonia da união de amor. Cada um contribuía para essa unidade com o que estava no seu ser. Mas essa harmonia e complementaridade transformou-se em domínio depois da queda. Haverá que esperar a presença de Cristo para compreender exatamente o que significa essa complementaridade: «O Senhor anunciou, sem lugar a equívocos, que o novo Reino de Deus comportava um restabelecimento das relações entre os dois sexos, eliminando as relações condicionadas pelo pecado e as que se opunham à ordem primitiva». Edith fundamenta esta afirmação nos textos de Mt 19, 1-2 e Mc 10, 1-12: À pergunta dos fariseus sobre se ao homem lhe era permitido separar-se da sua mulher, ele responde: “Moisés vo-lo permitiu pela dureza do vosso coração, mas ao princípio não era assim”. Então Jesus cita a passagem da Criação: “eles serão os dois uma só carne”, e estabelece como lei do novo pacto: “o que Deus uniu não o separe o homem”.

Com a vontade de iluminar o sentido das relações entre o homem e a mulher, principalmente a partir da vertente matrimonial, Edith abeira-se das cartas de São Paulo. Ali encontramos o tema amplamente desenvolvido. E vai ser na análise desses textos paulinos onde descobrimos a avidez steiniana para fazer uma leitura crítica da Escritura. Sabe captar até que ponto algumas afirmações são fruto dos costumes e não dos ensinamentos de Jesus. O seu amplo conhecimento da Escritura, neste caso das cartas paulinas, permite-lhe encontrar as soluções na mesma doutrina paulina. Vemo-lo mais de perto.

Um dos principais e mais polémicos textos, onde São Paulo fala da relação entre o homem e a mulher é o da carta 1 Co 11, 3-12:

«Mas quero que o saibais que a cabeça de todo o homem é Cristo, a cabeça da mulher é o homem e a cabeça de Cristo é Deus. Todo o homem que reza ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a própria cabeça. E toda a mulher que reza ou profetiza, tendo a cabeça descoberta, desonra a própria cabeça, porque é como se estivesse rapada. Se uma mulher não se cobrir, corte também os cabelos. E se é vergonha para a mulher ter os cabelos rapados, então que se cubra. O homem não deve cobrir a cabeça, porque é imagem e glória de Deus; a mulher, porém, é a glória do homem. O homem não foi tirado da mulher, mas a mulher do homem; nem o homem foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem. Por isso, a mulher deve trazer sobre a sua cabeça um sinal de sujeição, por causa dos anjos. Não obstante, nem a mulher se compreende sem o homem, nem o homem sem a mulher, aos olhos do Senhor. Pois assim como a mulher foi tirada do homem, assim também o homem existe por meio da mulher, e ambos vêm de Deus».

 

Como tomar estas indicações que nos oferece o Apóstolo? O que nos pretende transmitir? E Edith Stein responde:

  • «Não ofenderemos demasiado o Apóstolo se dissermos que nesta exortação aos Coríntios o divino e o humano, o eterno e o temporal estão estreitamente unidos. O modo de se pentear e o modo de vestir correspondem aos costumes, tal como o próprio Paulo o diz na conclusão: “Se, apesar disto, alguém gosta de discutir, nós não temos tal costume, nem mesmo as Igrejas de Deus” (1 Co 11, 16). A sua decisão sobre o modo como as mulheres de Corinto tinham que arranjar-se para o serviço divino era obrigatória naquela comunidade fundada por ele; mas isso, não significa que teria que ser sempre assim e para todos».

  • «É diverso o modo como devemos interpretar a doutrina sobre os princípios que regulam a relação entre o homem e a mulher, porque ele o expõe enquanto interpretação da ordem divina da Criação e Redenção.

  • Está estabelecido que o homem e a mulher levem juntos uma vida única, como se fossem um só. Mas ao homem, que foi criado primeiro, compete-lhe a direcção desta comunidade de amor. Tem-se todavia a impressão de que esta interpretação paulina não corresponde plenamente à ordem original ou à da Redenção, mas parece influenciada pela ordem da natureza caída, já que propõe uma relação de domínio e de submissão, e admite a mediação do homem entre a mulher e o Redentor. Nem o relato da Criação, nem o Evangelho conhecem esta função mediadora do homem entre a mulher e Deus; por outro lado, esta função é bem conhecida na lei mosaica e no direito romano».

  • «O próprio Apóstolo conhece, além disso, outra ordem, uma vez que nesta mesma carta aos Coríntios, falando sobre o matrimónio e a virgindade, diz: “Pois santifica-se o marido infiel pela mulher(1 Co 7, 14) e “que sabes tu mulher se salvarás o teu marido?” (1 Co 7, 16). Deixa aqui falar a ordem evangélica, pela qual toda a alma foi ganha para a vida por Cristo, e quem se santifica pela união com Cristo, seja homem ou mulher, é chamado a ser mediador».

 

Já estamos a ver como Edith orienta a leitura de São Paulo. Nem cai no erro de aceitar as suas afirmações ao pé da letra, nem se deixa levar pela simples desqualificação do Apóstolo como «machista». Encontra a via intermédia, sabendo distinguir o grão do «joio», encontrando razões objectivas evangélicas no mesmo Paulo, que evidenciam a sua tendência para se deixar levar, nalguns momentos, pelos costumes do seu tempo.

Outro texto que Edith vai analisar, e no qual de um modo mais extenso Paulo apresenta as relações entre o homem e a mulher, é o da carta aos Efésios 5, 22-33:

 “As mulheres (sejam submissas) aos seus maridos como ao Senhor; porque o marido é cabeça da mulher, como Cristo é cabeça da Igreja e Salvador do seu corpo. E como a Igreja está sujeita a Cristo, assim as mulheres se devem submeter em tudo aos seus maridos. Maridos, amai as vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja e se entregou por ela para a santificar, purificando-a por meio do baptismo da água pela palavra, a fim de a apresentar a si mesmo gloriosa, sem mancha nem ruga, nem qualquer coisa semelhante, mas santa e imaculada. Os maridos devem amar as suas mulheres como ao seu próprio corpo. Aquele que ama a sua mulher, ama-se a si mesmo, e nunca ninguém aborrece a sua própria carne, mas alimenta-a e cuida-a como Cristo à Igreja, porque somos membros do seu corpo. Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher e serão os dois uma só carne. Grande mistério é este, mas aplico-o em relação a Cristo e à Igreja. Quanto ao mais, ame cada um a sua mulher, e ame-a como a si mesmo, e a mulher respeite o seu marido».

 

A riqueza deste texto é enorme, fundamentalmente porque o Apóstolo põe-nos aqui diante da simbologia que representa o matrimónio, e que é a norma que há-de guiar as relações entre o homem e a mulher dentro do âmbito matrimonial. Edith Stein sublinha os seguintes elementos:

  • «Este parágrafo diz-nos que a comunidade matrimonial tem que estar sujeita a Cristo. O Senhor apenas sublinhou, nas palavras do Génesis, a indissolubilidade do matrimónio e a união dos dois numa só carne; aqui o Apóstolo explica como se há-de entender esta união».

  • «Em todo o organismo os membros estão sob a direcção da cabeça, e assim se tem a harmonia do conjunto; assim, no organismo de que estamos a falar, é necessária a presença de uma cabeça, e se o organismo é são, fica excluída a discussão sobre quem seja a cabeça e quem sejam os membros, e quais sejam as funções de uns e outros».

 

  • «Não se deve esquecer, contudo, que se trata de uma relação simbólica: a comparação entre Cristo e a Igreja no-la recorda. Cristo é a nossa cabeça, e a sua vida divina flui em nós, seus membros, se estamos sujeitos a Ele em obediência e nos unimos a Ele por amor. A cabeça é o Homem-Deus que tem uma existência independente fora deste corpo místico; os membros têm o seu próprio ser, uma vez que são seres livres e racionais; por isso, o corpo místico constitui-se pelo amor da cabeça e a livre subordinação dos membros. As funções que no corpo místico são atribuídas aos membros, correspondem-lhes em virtude dos dons que cada um recebeu pessoalmente, dons de amor e do Espírito; é sabedoria da Cabeça o servir-se dos membros em função dos seus dons; é próprio da sua potência divina conceder aos membros os dons que ajudam ao crescimento de todo o organismo; o objectivo deste grande organismo, do corpo místico de Cristo, consiste em que cada membro, – que em si mesmo é um homem completo, dotado de alma e corpo –, alcance a plenitude da salvação e da filiação divina, de tal modo que Deus, pela sua sabedoria, seja glorificado por toda a comunidade dos santos».

 

  • «O homem tem que ser cabeça da mulher, – e podemos acrescentar como explicação: de toda a família –, no mesmo sentido que Cristo é cabeça da Igreja: por isso a sua função consistirá em governar esta pequena imagem do grande corpo místico de Cristo de tal modo que todos os seus membros possam desenvolver aí todos os seus dons em plenitude e trabalhar pelo bem do conjunto, e sobretudo que todos alcancem a salvação. O homem não é Cristo, nem tem o poder de distribuir os dons. Mas está no seu poder ajudar no seu desenvolvimento (ou também levantar obstáculos); como todo o homem pode, além disso, ajudar o outro a desenvolver os seus dons. A autêntica sabedoria consiste em não oprimir, mas em fazer amadurecer plenamente estes dons para a salvação de todos».

 

  • «E uma vez que o homem não é perfeito como Cristo, mas é uma criatura com alguns dons e muitos defeitos, a sua máxima sabedoria estará em buscar o remédio para os próprios defeitos naquele membro que o completa (da mesma forma que será suma sabedoria se os governadores das nações deixarem governar os ministros que tenham mais capacidade). Mas é essencial para a saúde do organismo que tudo aconteça sob a direcção da cabeça; por isso, se a mulher se eleva acima da cabeça, o organismo não poderá prosperar, como quando a cabeça permite que o corpo sofra ou pereça».

 

Nesta análise dos textos paulinos, tal como vamos observando, Edith interessa-se por esclarecer o sentido dessas palavras que no âmbito social têm um sentido muito negativo: submissão, obediência, subordinação,… Vamos descobrindo como Edith não renega as palavras, mas o sentido negativo ou absoluto que se pretende dar às mesmas. Sublinha o seu valor, mas só desde uma perspectiva teológica, que nos leva a entender o seu sentido originário. Nos dois grandes textos que acabamos de ver, sublinha-se, talvez, com maior força o papel do homem em relação à mulher. Por isso, a nossa autora dá um passo adiante e procura determinar melhor o lugar da mulher perante a comunidade. Centra a sua atenção na primeira carta a Timóteo 2, 9- 15:

«As mulheres têm que ser simples e modestas no vestir, e manifestar com boas obras a sua piedade. A mulher ouça a instrução em silêncio, com plena submissão. Não consinto que a mulher ensine nem domine o homem, mas que se mantenha em silêncio. Porque Adão foi formado primeiro, e Eva em segundo lugar. E não foi Adão o seduzido, mas a mulher que, seduzida, incorreu na transgressão. Contudo, salvar-se-á pela sua maternidade se permanecer com modéstia na fé, na caridade e na santidade».

 

Temos aqui um texto que soa ainda mais duro e intransigente para com a mulher. Chama a atenção que Edith fixe aqui o seu olhar, em vez de ignorar a sua existência. No entanto, procura uma resposta coerente perante os textos bíblicos que, como este, condicionaram fortemente a tradição da Igreja e o seu comportamento tantas vezes discriminatório diante da mulher. Deixamos que Edith o analise:

  • «Neste texto, dá a impressão, ainda com mais nitidez que na carta aos Coríntios, que a ordem originária e a ordem da Redenção aparecem ocultadas pela ordem da natureza decaída, e que no Apóstolo fala o judeu formado no espírito da lei. Parece totalmente esquecida a doutrina evangélica da comunidade. O que aqui se diz, e que é o oposto de certos abusos das comunidades gregas, não se pode considerar como o princípio absoluto que determina a concepção da relação entre os dois sexos».

 

  • «É demasiado contrário a tudo o que o Salvador disse e fez; entre os seus íntimos havia mulheres; e demonstrou na prática, com a sua obra redentora, que faz o mesmo pelas almas femininas e masculinas».

  • «É inclusivamente contrário ao que diz S. Paulo, expressando de um modo melhor o autêntico espírito evangélico: “De maneira que a lei foi o nosso pedagogo para nos conduzir a Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Mas, chegada a fé, já não estamos sob o pedagogo… Não há judeu nem grego, não há servo nem livre, não há homem nem mulher, porque todos sois um em Cristo Jesus (Gl 3, 24-28)”»31.

*Javier Sancho. La Biblia con ojos de mujer. Edith Stein y la Sagrada Escritura. Editorial Monte Carmelo, 2001. Pp. 89-92.