Oratório Peregrino

Um oratório à maneira de um viático para tempos de carestia
Uma proposta desenvolvida em parceria com

Irmãs do Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro


XXVII Passo | És o espelho da Trindade?

 

A vida de muitos cristãos mudou radicalmente no dia em que se deram conta de que o Deus em que acreditavam e ao qual oravam – ou o Deus em quem não acreditavam e ao qual não rezavam – era um Deus muito próximo, que vivia dentro deles no mais profundo do seu ser. Às vezes o Senhor revelava-se-lhes dentro deles, fazendo-os experimentar a sua Presença.

Uma tomada de consciência assim, ou, melhor dito, uma consciencialização interior assim graças à Presença de Deus que a invadia, selou o feliz destino de Isabel Catez quando era ainda muito jovem e vivia metida em cheio nas distracções do mundo. E ficou marcada por essa Presença: tinha encontrado o Amor.

Ela mesma confessa: «Parece-me que encontrei o meu Céu na terra, porque o Céu é Deus, e Deus é a minha alma. No dia em que compreendi isto, tudo em mim se iluminou e gostaria de dizer baixinho este segredo àqueles que amo para que também eles em tudo adiram sempre a Deus (Ct 122). A partir de então, sussurrou-o «muito baixinho» ao ouvido de muitos dos seus amigos e amigas. Que belo seria se esse «dia em que» fosse para ti hoje, e compreendesses esse «segredo» melhor ainda do que ontem!

Este terceiro «dia» continua a aprofundar no «segredo escondido no coração de Deus», nesse segredo que consiste em poder viver «na presença de Deus», em encontrar «descanso em Deus», oferecendo-lhe amor e louvor «no céu da nossa alma», espelho da Trindade. Que grande honra e que convite! Viver o acolhÉsimento afectuoso que te brindam os Três Hóspedes interiores! E ser seu convidado!

Porquê não aproveitar melhor esta sorte inaudita e esta perspectiva «abismal»? Possuímos um Reino e não pensamos nele… O mais profundo do nosso coração parece-se com uma casa da qual perdemos as chaves, e conformamo-nos em viver nas habitações mais sujas. Não é de estranhar que nos sintamos incómodos nelas e nos ausentemos a maior parte do tempo. E, no entanto, Deus faz sinais de que Ele mesmo quer abrir a partir de dentro a casa. Convida-nos à nossa própria casa e quer tornar-nos belos como o seu Filho.

O texto de hoje é muito elevado, dado que, com frequência, vivemos muito colados à terra. No entanto, o que nele se anuncia é pura mensagem cristã, dirigida a todos. É puro Novo Testamento: revelação de Jesus escutada (e volta a escutar no Espírito Santo) por homens como João, Mateus, Pedro, Paulo no seu momento, e por mulheres como Madalena, Marta e outras Samaritanas e pecadoras.

Isabel gostava imenso de ruminar e escutar estes «segredos» revelados para todos os homens. E essa mensagem encontrava eco no seu coração rico, entusiasta e fraterno. E uma vez que compreendeu os grandes desejos de Jesus, já não pode aceitar deixar-nos numa falsa paz. Adiante, – dirá – adiante, porque somos chamados a mais, porque somos imensamente ricos! Mergulhemos nesse mundo interior! Aperfeiçoemos o nosso ser profundo mais do que a nossa actividade exterior. Deus elegeu-nos, escolheu-nos, a mim, a ti, a todos. Para que sejamos santos «por amor»! Isabel insiste hoje nessa santidade, mas propondo-nos uma santidade «em presença de Deus», uma santidade levada a cabo em definitivo mediante a «relação» com Deus, que é quem nos fará santos à imagem de seu Filho.

Nessas condições Isabel, feita por Deus «santa e irrepreensível» – tal como Paulo o propõe a todos os cristãos –, poderá levar a cabo em plenitude a sua missão, o seu «ofício de louvor de glória». Terá pensado em Maria, imaculada e extraordinariamente santa? Sem dúvida alguma, embora não o explicite aqui como o fará no «dia» quinze.

Em certo sentido, Isabel visa ainda maior profundidade: eu não serei apenas um reflexo de Maria, mas da própria Trindade – um reflexo, infelizmente, sempre muito limitado, enquanto Maria o foi com um brilho sem igual. Serei transformada pelo Pai em «resplendor», transformada «na sua Imagem pela força do seu Espírito»: nessa imagem que é o seu Filho, Jesus. Serei «um cristal limpo e sem mancha», e a Trindade poderá contemplar em mim o «seu próprio esplendor». Assim serei «uma espécie de prolongação da sua própria glória». E então uma maravilhosa auréola de luz me envolverá!

E Isabel da Trindade, que tanto gosta de tudo o que é belo, pensa na «alegria imensa que dará ao coração de Deus». O Criador poderá realizar finalmente o seu «sonho»! Repara no toque afectivo da palavra «sonho» e em todo o amor de que serás objecto quando Deus encontre a Deus em ti.

No texto de hoje repete-se várias vezes a palavra «simplicidade» – a simplicidade de Deus e a do olhar contemplativo –, expressão que Isabel toma emprestada das suas recentes leituras do místico flamengo Ruysbroec. O termo «simplicidade», mais do que uma atitude de discrição, de humildade ou de ausência de duplicidade, exprime aqui uma profunda unidade interior a nível do ser, onde não existe a menor divisão nem a menor duplicidade, como em Deus, ou que pelo menos tendem a desaparecer cada vez mais.

Essa palavra «simplicidade» exprime também a profunda exigência que supõe a «simplicidade do olhar». E então simplicidade equivale a plenitude na entrega de si próprio, a meter-se no Outro com uma atitude totalmente pura e amorosa.

O texto de Isabel

  1. «Fomos predestinados por um decreto d’Aquele que faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade, a fim de que sejamos o louvor da sua glória» (Ef 1, 11-12).

É São Paulo que nos dá a conhecer esta eleição divina, São Paulo que penetrou tão profundamente no «segredo escondido no coração de Deus desde o começo dos tempos». Vai agora dar-nos luz sobre esta vocação à qual somos chamados. «Deus, diz ele, elegeu-nos n’Ele, antes da criação para sermos imaculados e santos, na sua presença, em caridade» (Ef 1, 4).

Se comparo estas duas exposições do plano divino e eternamente imutável (quer dizer, a predestinação a ser «louvores de glória» e, por outro lado, a sê-lo vivendo na presença e no amor de Deus), concluo que, para cumprir dignamente o meu ofício de Laudem gloriae, devo manter-me em tudo «na presença de Deus»; e mais do que isso: o Apóstolo diz «in charitate», quer dizer, em Deus, «Deus Charitas est…» (Deus é amor: 1 Jo 4, 16); e é o contacto do Ser divino que me tornará «imaculada e santa» a seus olhos.

  1. Remeto isto à bela virtude de simplicidade, da qual um piedoso autor escreveu: «que dá à alma o repouso do abismo», ou seja, aquele repouso em Deus, Abismo insondável, prelúdio e eco daquele Sábado eterno, de que fala São Paulo, dizendo: «Nós que acreditámos, seremos introduzidos neste repouso» (Hb 4, 3).

Os glorificados têm este repouso do abismo, porque contemplam a Deus na simplicidade da sua essência: «Conhecem-no, diz ainda São Paulo, como são por Ele conhecidos», isto é, por visão intuitiva, pelo olhar simples; e é por isso, continua o grande santo, «que são transformados, de glória em glória, pelo poder do seu Espírito, na sua própria Imagem (2 Co 3, 18); então, constituem um incessante louvor de glória ao Ser divino, que neles contempla o seu próprio esplendor.

  1. Parece-me que seria dar uma imensa alegria ao Coração de Deus se exercêssemos, no céu da nossa alma, esta ocupação dos bem-aventurados e se a Ele aderíssemos por esta contemplação simples, que aproxima a criatura do estado de inocência no qual Deus a tinha criado antes do pecado original, «à sua imagem e semelhança» (Gn 1, 26). Tal foi o sonho do Criador: poder contemplar-se na sua criatura, e nela ver resplandecer todas as suas perfeições, toda a sua beleza, como através de um cristal puro e sem mácula; e não será isto como que uma espécie de extensão da sua própria glória?…

A alma, pela simplicidade do olhar com que fixa o seu divino objecto, encontra-se separada de tudo o que a rodeia, apartada até, e sobretudo, de si mesma. Então, resplandece dessa «ciência da claridade de Deus», de que fala o Apóstolo (2 Co 4, 6), porque permite ao Ser divino nela se reflectir, e todos os seus atributos lhe são comunicados. Na verdade esta alma é o louvor da glória de todos os seus dons; e por meio de todas as coisas e mesmo nos actos mais vulgares, canta o «canticum magnum», o «canticum novum»…, e, este cântico faz comover Deus até às suas profundidades…

«A tua luz, pode-se dizer com Isaías (Is 58, 10-11.14), brilhará nas trevas, e as trevas tornar-se-ão como o meio-dia. O Senhor te fará gozar um perpétuo repouso, inundará a tua alma com os seus esplendores, fortalecerá teus ossos, e serás como um jardim que se rega sempre; como uma fonte em que a água nunca falta… Eu elevar-te-ei acima de tudo o que há de mais elevado neste mundo…».

 

Sugestões para orar

Canta hoje «no céu da tua alma» a santidade e a formosura de Deus. Se visses como o Senhor gosta da tua voz… Para Ele, é única no mundo. Tem o timbre de Jesus.

Terás observado como Isabel te convida hoje por duas vezes a cantar «em todas as coisas», «inclusive nas mais correntes». Assim o havia insinuado a sua irmã Guida, esposa e jovem mãe: deste modo conseguirás, como Maria de Nazaré, «divinizar até as coisas mais triviais» (CF 40). A tua vida de cada dia, o teu trabalho, os teus encontros com a gente, as tuas alegrias e as tuas obrigações continuarão a ser as mesmas; mas com o timbre da voz de Jesus no teu coração, já tudo será distinto. Deus acompanhar-te-á com a sua bondosa Presença e com o seu olhar de amor. «Serás como um jardim ao qual nunca se deixa de regar».

De vez em quando, e, amiúdo, se podes, repete hoje no céu da tua alma: Só Vós sois o Santo, só Vós, o Senhor, só Vós, o Altíssimo, Jesus Cristo, com o Espírito Santo, na glória de Deus Pai.


Imagem de Dorothée QUENNESSON por Pixabay