Dom. Dez 5th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

O EU

Javier Sancho*

O tema do «eu» é fundamental na compreensão da doutrina antropológica de Edite Stein. Não podemos aqui apresentar toda a vastidão do tema e as suas implicações. Queremos apenas realçar aqueles elementos chave que, depois, terão uma incidência decisiva na compreensão das outras fichas que apresentamos. Como ponto de partida tomamos o que Edite entende por pessoa: «o eu consciente e livre» (SF 391), quer dizer o eu é sujeito de experiência, de liberdade e unidade de consciência.

 

a) A definição do «eu»

Edite esclarece o termo em diversos lugares dos seus escritos. Na sua grande obra Ser finito e ser eterno oferece-nos a seguinte definição: «Por eu entendemos o ente cujo ser é vida (não a vida no sentido da formação da matéria) e que, neste ser, é consciência de si mesmo (na forma inferior da sensibilidade confusa ou na mais alta esfera da consciência desperta). O eu não é idêntico à alma e tão-pouco ao corpo. Fala no corpo e na alma, encontra-se presente em cada ponto em que sente algo presente e vivo; contudo, tem a sua própria sede num ponto determinado do corpo e em certo «lugar» da alma, e visto que o seu corpo e a sua alma lhe pertencem, confere-se o nome de eu ao homem inteiro» (SF 389).

Neste sentido, deveria compreender-se o «eu» como a identificação da pessoa com o seu próprio ser, a tomada de consciência da sua realidade e assunção da mesma, a capacidade de se «mover» dentro do quadro que o constitui como tal. Por isso, todos os actos da pessoa, especialmente aqueles intencionais, levam em si a marca desse eu. O seu agir corresponde à sua colocação diante de si mesmo e diante do mundo.

 

b) O «eu» como atitude de vida

Ficou sublinhado que o elemento que caracteriza o eu, é a tomada de posse, ou dito de outro modo, a consciência evidente de quem se é. Neste sentido, Edite vai sublinhar o conceito de mobilidade no eu, como a busca da própria identidade, como necessário conhecimento de si, como descoberta do próprio ser. Neste sentido, deixa-se iluminar pela própria experiência dos místicos. Concretamente, no seu escrito sobre o Castelo interior afirma: «o Eu aparece como um “ponto” móvel dentro do “espaço” da alma; ali onde tomar posição, ali acende-se a luz da consciência e ilumina um certo contexto: tanto no interior da alma, como no mundo exterior objectivo para o qual o Eu está dirigido. Apesar da sua mobilidade, o Eu está sempre ligado àquele imóvel ponto central da alma no qual se sente na sua própria casa. Sentir-se-á sempre chamado para esse ponto (trata-se novamente de um ponto que tivemos que levar mais além de quanto nos diz ao respeito o Castelo interior), não só é convocado aí às mais altas graças místicas do desposório espiritual com Deus, mas desde aqui pode tomar as decisões últimas a que o homem é chamado como pessoa livre» (OC V, 105).

Depende, pois, do lugar onde se coloque o eu, o que define a sua atitude diante da vida, o seu grau de consciência e conhecimento de si. Certamente que existe a possibilidade de que esse eu seja, em certo sentido, «anulado», obrigando-o a viver «superficialmente» em relação ao seu espaço de movimento. Faz-se novamente eco da importância radical que tem a posição do eu no mais interior da pessoa na sua obra sobre João da Cruz, a Ciência da Cruz, onde nos apresenta a tipologia de homem segundo a posição do seu eu: «A estrutura da essência da alma – a sua maior ou menor profundidade –, e naquela, igualmente de forma natural, funda-se o movimento do eu nesse “espaço” como possibilidade do ser. Toma esta ou aquela postura, segundo os “motivos” que lhe afectam. Mas os seus movimentos partem de um ponto onde gosta  pousar-se preferencialmente, segundo os diversos tipos humanos. O homem sensual,… situa-se num ponto muito afastado do mais profundo centro da sua alma. O buscador da verdade vive preferentemente nesse ponto do coração onde tem lugar a actividade investigadora do entendimento; se procura buscar a verdade a sério (…), então talvez se encontre mais perto de Deus…, mais perto também do seu mais profundo centro… outro terceiro,… é o do “homem-eu”, que anda sempre à volta de seu próprio eu. Olhando superficialmente, poderia parecer que vive muito no seu interior, e, no entanto, talvez nenhum outro tipo tenha mais fechado o caminho que conduz a essas profundidades» (OC V, 344).

 

c) O eu como conhecimento e liberdade

Esta concepção do eu que Edite manifesta, especialmente nos seus escritos místicos, leva-nos a ver com maior clareza, como esse ponto móvel adquire uma importância fundamental na constituição do homem como pessoa. A posição dom eu é a que, consequentemente, define o grau de conhecimento e de liberdade que a pessoa alcançou sobre si.

O eu consciente é o eu que optou por penetrar no mais profundo do seu ser, aquele que realmente se conhece e tem uma consciência clara de si. Edite exprime-o em muitos lugares. Basta citar aqui duas afirmações da sua obra Ser finito e ser eterno:

– «Na interioridade capta-se interiormente a essência da alma. Quando o eu vive nessa interioridade sobre o fundamento do seu ser, ali onde ele está totalmente como em sua casa e habita, adivinha então em parte o sentido do seu ser, experimenta a sua força concentrada neste ponto antes da sua divisão em forças separadas. E quando a sua vida se alimenta desta interioridade, vive plenamente e alcança o grau mais elevado do seu ser. Os elementos recebidos do exterior não subsistem só a título de recordações, mas podem transformar-se na carne e no sangue. Assim convertem-se nele numa fonte dinâmica dispensadora de vida» (SF 451).

– «O eu pessoal encontra-se inteiramente nele na interioridade mais profunda da alma. Quando vive nessa interioridade, dispõe da força total da alma e pode utilizá-la livremente. Além disso, está então o mais perto possível do sentido de tudo o que acontece; está aberto às exigências que se lhe apresentam; pode apreciar melhor o seu significado e importância» (SF 453).

Este posicionamento do eu no mais profundo do seu ser, é o que faz que também viva a partir do lugar onde ele é realmente livre, ao menos aqui alcança o mais alto grau de liberdade que lhe é possível enquanto criatura. O eu é, por isso, aquilo pelo qual a pessoa se possui a si mesma: «A possibilidade de “se mover” em si mesma funda-se na “possibilidade de formação do Eu” da alma. O eu é na alma aquilo pelo qual ela se possui a si mesma e o que nela se move como no seu próprio “campo”. O ponto mais profundo é, ao mesmo tempo, o lugar da sua liberdade: o lugar, onde pode concentrar todo o ser e pode decidir. Decisões livres de menor importância poderão, em certo modo, ser tomadas desde um ponto situado “muito mais no exterior”; mas serão decisões “superficiais”; será pura “casualidade” que uma decisão assim seja a adequada, porque somente partindo do centro mais profundo se tem a possibilidade de medir tudo com a regra última; e, tão-pouco ser finalmente uma decisão livre, porque o que não é dono absoluto de si mesmo, não pode dispor com verdadeira liberdade, mas “deixa-se determinar”» (OC V, 341).

*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 170-171.


Imagem de Med Ahabchane por Pixabay