Sáb. Set 25th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

O DISTINTIVO DO CRISTÃO

Javier Sancho*

a) O amor como único mandamento

Cristo é a nossa origem e meta, o nosso protótipo e caminho. Por isso, alcançar a plenitude significa segui-Lo, tomando as suas palavras como norma de vida. Edite está profundamente convencida disso. Não há senão o caminho de Cristo, e a ordem que deixa aos seus discípulos é o mandamento do amor.

Numa das suas conferências, titulada A formação da juventude à luz da fé católica (OC IV, 422 ss.), Edite procura desenhar a imagem do homem – o que tem que chegar a ser – a partir das palavras de Jesus. Toma, como ponto de partida, esses textos evangélicos nos quais se pergunta directamente a Jesus: «que hei-de fazer de bom para alcançar a vida eterna?» (Mt 19, 16), e «qual é o maior mandamento da lei?» (Mt 22, 37). As respostas de Jesus são: «guarda os mandamentos» (Mt 19, 18) e «Amarás o Senhor teu DeusAmarás o teu próximo como a ti mesmo. Estes dois mandamentos resumem toda a lei e os profetas» (Mt 22, 36-40). E Edite conclui: «Tendo em conta tudo isto, entende-se que o autêntico cristão é aquele que observa os mandamentos, mas fazendo preceder no cumprimento dos mesmos, o cumprimento perfeito do maior de todos: o amor perfeito ao Senhor… o amor ao próximo, amor fraterno a todos os filhos de Deus, e o consequente comportamento com eles; do amor a Deus procede o amor a si que nasce do amor a Deus (de facto temos que “amar o próximo como a nós mesmos”)… (ib., 430).

No mandamento ao amor, na sua tríplice direcção (Deus, o próximo, a si mesmo), descobre Edite o fundamento da perfeição. Mais ainda, observa na vida de Jesus a chave exegética do mandamento do amor. Mas este amor só é possível desde a configuração com Cristo, desde a união com Deus. E o homem tem acesso a este amor dispondo-se activamente para acolher em si a vida de Deus, abandonando-se nas suas mãos e configurando-se com a sua vontade.

b) O amor em acto: as Bem-aventuranças

O caminho e a via que Cristo no Evangelho apresenta para a consecução dessa plenitude no amor tem um rosto real nas Bem-aventuranças e nos conselhos evangélicos. Em relação às Bem-aventuranças, Edite detém-se a esquadrinhar o sentido de cada uma delas, constatando que o amor é a raiz de todas as virtudes. Realiza a sua reflexão a partir do texto de Mt 5, 1-12 (ib. 431 ss.). Acentua especialmente a bem-aventurança da «pobreza no espírito» que desenvolve pormenorizadamente no seu escrito, até há muito bem pouco inédito, Felizes os pobres no espírito (OC V, 461 ss.).

As Bem-aventuranças particularizam os valores essenciais do Reino, da plenitude do homem. Todo o homem é chamado a realizar na sua vida esta altíssima vocação: é a mesma para todos, sem diferença alguma: «não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus» (Gl 3, 28). Certamente que cada um realizará este único fim vocacional a partir do seu próprio carisma pessoal (cf. 1 Co 12), a partir de uma chamada particular a exprimir de formas diferentes esse amor (cf. a unção de Betânia: Mt 26, 6-13), a partir da sua individualidade e da sua especificidade masculina ou feminina: «homem e mulher os criou» (Gn 1, 27). Quem vive mergulhado nesta dinâmica transmite-a necessariamente com a sua vida, sendo testemunha da presença do Reino, e mostrando em todo o momento que a sua vida é feliz, quer dizer, que vive a alegria de se saber filho de Deus.

c) A alegria dos filhos de Deus

A alegria é um traço característico de quem se sente filho de Deus. Quem vive já a libertação e a redenção do pecado, não pode viver doutro modo. É a segurança da criança que vive amparada nos braços do Pai, um pai digno de toda a confiança, que só deseja o melhor para os seus filhos. É a felicidade de se sentir em tudo conforme com a vontade do Pai (cf. OC IV, 238 ss.). A felicidade, entendida de um ponto de vista humano, alcança-se na medida em que desenvolvemos o nosso ser e alcançamos a plenitude de nós mesmos. Para o crente, a plenitude está na união com Deus e com a sua vontade. E Deus quer-nos salvos, quer-nos alegres.

O seguimento de Cristo é também autêntico na medida em que é alegre; a alegria é sinal de que se vai caminhando pela senda justa: «A obra que Ele me encomenda quero realizá-la, e Ele dar-me-á a força para a realizar. Assim quero entrar ao altar de Deus. Aqui não se trata de mim nem das minhas pequenas coisas mesquinhas, mas do grande sacrifício da reconciliação. Com o sacrifício divino posso participar nele, purificar-me, encher-me de alegria, e a pôr-me a mim mesma sobre o altar com todo o meu fazer e padecer. E, quando o Senhor vier a mim na sagrada comunhão, então poderei perguntar-Lhe: “Que mandais fazer de mim?” (Santa Teresa). E o que, depois do silencioso colóquio, veja como próxima tarefa, a ela me dedicarei» (OC IV, 211).

A alegria do seguimento é muito mais do que um efeito anímico, é a dinâmica de vida do autêntico seguidor, que é capaz de reconhecer como é grandioso o dom de seguir a Cristo, colaborando com Ele no plano da salvação. O seguidor sabe que o Reino de Deus está presente, e que é um cidadão que vive o gozo de se saber dentro. Maria é, sem dúvida, o modelo de todos os tempos, a primeira cidadã que soube entregar-se sem reservas à construção do Reino: «Se aprendes dela a depender e a servir só a Deus com um coração puro e desprendido, então poderás cantar com toda a alma o hino de alegria da Santíssima Virgem: A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador… O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, Santo é o seu nome» (OC V, 646).

Para Edite Stein, os verdadeiros construtores do Reino de Deus vivem a sua alegria numa tríplice dimensão: a própria de se saberem salvos, a alheia de se saberem colaboradores na salvação dos outros, e a do próprio Cristo que faz festa e se alegra por cada nova criatura que entra a fazer parte do seu rebanho: «quão preciosas são para o coração divino as almas dos homens e a maior alegria que lhe podemos dar é ser instrumentos voluntários do seu rebanho» (OC V, 657).

d) A cruz gozosa

O seguimento de Cristo consuma-se na comunhão com o mistério da cruz. Só a cruz de Cristo é capaz de iluminar e dar sentido ao sofrimento humano, e o sinal que torna possível que – por muito contraditório que seja para a razão humana –, o sofrimento seja fonte de alegria: «O amor de Cristo empurra a penetrar na noite mais profunda. E nenhuma alegria maternal se pode comparar com a felicidade da alma capaz de acender a luz da graça na noite do pecado. O caminho é a Cruz. Sob a Cruz a Virgem das virgens tornou-se em Mãe da Graça» (OC V, 662-663). O caminho de cruz que leva à união com Deus, é o caminho de todo o cristão. Ninguém que se considere autêntico seguidor de Cristo pode recusá-lo. A cruz é sinal de comunhão com Cristo, e a partir desta comunhão pode-se viver com alegria o sofrimento porque na cruz adquire sentido, um sentido redentor apostólico: «O sofrimento humano só recebe força expiatória se estiver unido ao sofrimento da cabeça divina» (OC V, 625).

Toda a vida de Edite Stein é a melhor interpretação de quanto nos deixou escrito: «Assim como ser um com Cristo é a nossa beatitude e o progredir em chegar a ser um com Ele é a nossa felicidade na terra, então o amor à Cruz e a gozosa filiação divina não são contraditórias. Ajudar a Cristo a carregar com a Cruz proporciona uma alegria forte e pura, e aqueles que possam e devam, os construtores do Reino de Deus, são os autênticos filhos de Deus. Daí que a preferência pelo caminho da cruz não signifique que a Sexta-feira Santa não tenha sido superada e a obra da redenção consumada» (Ib.,).

*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 216-218.


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