Sex. Out 22nd, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

O CRISTO E A VIDA ESPIRITUAL

Javier Sancho*

 

O homem descobre a sua origem em Cristo, porque Ele é o seu criador, porque possibilitou-lhe o regresso a Deus, reconciliando-o e mostrando-lhe o caminho da perfeição. Por isso, não há outro caminho para o Pai senão o da configuração com Cristo: ele é o Novo Adão, o Mediador, o Caminho, aquele que nos devolve a condição de filhos de Deus.

a) O Novo Adão

Para Edite Stein contemplar a cristo como o Novo Adão é muito mais do que um título. Nele vê significada toda a obra realizada por Cristo na sua unidade. Nos mistérios da vida de Cristo o objectivo comum é a redenção. É a grande obra que Jesus realiza com a sua encarnação e com a sua morte e ressurreição. A redenção é o triunfo sobre a realidade do pecado, presente na história da humanidade desde a queda de Adão. Adão foi o primeiro homem criado por Deus e chamado a converter-se em pai da humanidade. O seu pecado supôs a ruptura com o estado original de graça para toda a humanidade posterior Mas Deus, no seu infinito amor ao homem, não quis abandoná-lo ao poder das trevas e enviou o seu Filho para que recuperasse, para o homem, o caminho da salvação. Esta missão une-o directamente com a figura de Adão: «a redenção veio pelo filho do homem, o novo Adão» (OC IV, 278).

Na vida de Adão, Edite Stein encontra um extraordinário paralelo com a vida e a missão de Jesus. O primeiro ponto da comparação descobrimo-lo no mistério da Encarnação: «Deus fez-se Filho do Homem para que todos os homens chegassem a ser filhos de Deus… Ele fez-se um de nós, mas não só isso, mas também um connosco. Eis a maravilha do género humano, todos somos um… o preço da expiação teria podido ser pago e poderíamos contar com ele, mas então a sua justiça não teria sido transmitida aos pecadores e não seria possível a justificação. No entanto, Ele veio para ser connosco um corpo místico: Ele como nossa Cabeça e nós como seus membros» (OC IV, 236-237). Evidenciam-se aqui alguns elementos característicos do “Novo Adão”: a sua união ao género humano, a natureza humana como meio de redenção, a união da natureza humana com a divina e o carácter eterno da Aliança por Ele estabelecida.

A designação de Cristo como “Novo Adão” tem além disso um carácter histórico-divino. É «novo» porque introduz uma novidade na história da Salvação. Novidade que o primeiro Adão já possuía, criado à sua imagem, mas que perdeu com o pecado. Cristo apresenta-se como o arquétipo original e perfeito do homem por ser sua origem (SF 533).

 

b) Mediador

A partir da experiência de Cristo-mediador, o homem penetra no caminho que conduz a Deus e à perfeição do ser humano. É a missão que Cristo continua a exercer ao longo da história.

No pensamento de Edite Stein descobrimos que Cristo é o Mediador pela sua natureza humana e divina, unidas na sua encarnação; porque realizou a reconciliação de Deus com o género humano; porque por Ele temos acesso a Deus e, n’Ele, contemplamos a nossa autêntica imagem: «Todo o louvor dirigido a Deus acontece por, com e em Cristo. Por Cristo, porque só por Cristo a humanidade tem acesso ao Pai e porque o seu ser humano e divino e a sua obra redentora são a glorificação mais perfeita do Pai; com Cristo, porque toda a oração autêntica é fruto da união com Cristo, ao mesmo tempo que fortalece essa união; e porque todo o louvor ao Filho é um louvor ao Pai e vice-versa; n’Ele, porque a Igreja orante é o próprio Cristo – e todo orante, membro do seu Corpo Místico –, e porque o Pai está no Filho e o Filho é o esplendor do Pai, cuja glória faz visível» (OC V, 108).

 

c) Caminho

Como consequência de ser o único mediador entre Deus e o homem, Cristo é também o caminho único que nos conduz ao Pai. Cristo é o único que uniu em si as duas naturezas, humana e divina, e, ao mesmo tempo, é quem reconciliou os homens com Deus. Jesus Cristo é a origem e a meta final do caminho do homem: é o modelo e a imagem autêntica da humanidade. Edite Stein afirma: «Deus criou o homem à sua imagem… Da maneira mais perfeita na mais perfeita das criaturas, no Filho de Deus e na Palavra da revelação que nos dá notícia de Deus» (OC IV, 193).

O próprio Jesus na sua vida terrena apresenta-se como o Caminho que nos reconduz directamente à nossa meta. É uma das razões da sua missão. Uma vez que Ele é origem, caminho e meta, o seu caminho é o nosso caminho. Um caminho a seguir de perto e que passa necessariamente, como o de Cristo, pela cruz e ressurreição: «Através da cruz e da dor à glória da ressurreição, esse foi o caminho do filho de Deus feito homem. Alcançar com o Filho do homem a glória da ressurreição, através do sofrimento e da morte, é o caminho para cada um de nós e para toda a humanidade» (OC IV, 243-244).

Na prática da vida espiritual do homem, tomar a Cristo como o Caminho de interiorização traduz-se em querer alcançar e conquistar o centro do próprio ser, onde se produz o encontro com a própria e autêntica humanidade, onde o homem é mais livre, e onde se encontra com Deus. Só Cristo  nos pode levar a este lugar: “Cristo é o único caminho para o interior da nossa vida» (OC V, 121).

 

d) Filhos no Filho

Cristo é o caminho e o mediador do homem porque é o único que nos pode devolver ao estado de filiação divina, de amizade com Deus que, com o pecado original, tínhamos perdido. Cristo realizou a reconciliação do homem com Deus na sua morte e ressurreição. Os frutos imediatos são a justificação e o perdão dos pecados. O homem tem no mistério da Cruz a possibilidade de aceder a estes frutos, e recuperar a condição de filho de Deus. Se o homem adere livremente à obra de redenção de Cristo, está a acolher o dom da filiação (SF 537-538).

O homem da “Nova Aliança” tem que morrer ao homem velho e deixar-se revestir por Cristo do homem novo, se quer ser filho de Deus. Edite Stein contempla três sinais ou consequências chave da filiação divina no homem: a união com Deus, a união da humanidade em Deus e o cumprimento da sua vontade (cf. OC IV, 236-237).

A filiação divina não é algo que o homem recebe como um simples título, mas é vida, e embora «graça», necessita da colaboração activa do homem. Realiza-se na medida em que o homem procura unir-se com Deus, quando se confia e abandona à Sua vontade. A autêntica filiação é vida e comunhão com o Deus amor, que habita no interior do homem e se deixa descobrir: «A vida divina que se desenvolve na alma amante de Deus não pode ser diferente da vida trinitária da divindade. A alma dá-se ao ser trinitário. Entrega-se à vontade paterna de Deus que, por assim dizer, gera de novo o seu Filho nela. Une-se ao Filho e quereria perder-se nele a fim de que o Pai já não veja nada nela senão ao Filho. A sua vida une-se ao Espírito Santo, transforma-se numa efusão de amor divino. É evidente que esta imagem de Deus no espírito criado graças à união de amor, fruto da graça e da glória, não é comparável a nenhuma imagem simplesmente natural. A palavra imagem já quase não é o termo adequado. Deve ser compreendida no sentido em que se diz que o Filho é imagem do Pai. Trata-se de um autêntica filiação divina» (SF 471-472).

*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 197-199.


Imagem: Glória do Novo Cristo na presença de Deus, Pai e do Espírito Santo. Detalhe de uma pintura de teto de Daniel Gran na Igreja Santa Ana (Viena). Adão e Eva estão retratados abaixo, com as mãos presas.