Sáb. Nov 27th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Edith Stein e o trabalho de tradução

Javier Sancho*

a) Edite Stein tradutora

É possível que seja uma das facetas menos estudadas de Edite Stein e, contudo, entre os seus manuscritos encontram-se muitas traduções, tanto de obras de autores modernos (Koyré, Newmann), como de grandes autores clássicos: Tomás de Aquino, Dionísio Areopagita… Não vamos analisar aqui em pormenor a qualidade das suas traduções, mas apenas fazer constar as obras principais nas quais colaborou.

Sabemos com certeza que a sua primeira tradução, ou melhor dito co-tradução, foi um estudo de um dos seus amigos filósofos: Alexandre Koyré. A este trabalho seguiram-se-lhe uns quantos mais. De tal modo é assim que se fica com a sensação que, à excepção de pequenos artigos, a grande actividade intelectual que Edite Stein realiza até 1930, se reduz fundamentalmente à tradução. Faz parte do enigma da sua vida, como se o «filosofar» tivesse passado para segundo lugar. Os escritos de Newmann ocupam-na durante muito tempo. Mais tarde, já no Carmelo, traduziu toda a obra de Dionísio Areopagita e os poemas de João da Cruz. Encontramos esta faceta também noutros pequenos contributos: traduções de hinos, salmos, rituais litúrgicos, etc… Vê-lo-emos noutras fichas posteriores.

Tudo isto põe em evidência o seu grande conhecimento das línguas, quer modernas quer clássicas. As suas traduções serão principalmente do francês, inglês, latim e grego; e algo também do espanhol.

b) A primeira tradução

Consta que o primeiro livro traduzido por Edite Stein foi o estudo do seu amigo o fenomenólogo francês Alexander Koyré. A obra apareceu em França com o título de Essai sur l’idée de Dieu et les preuves de son existence chez Descartes. O autor pretendeu que saíssem ao mesmo tempo a edição francesa e a tradução alemã. Mas não pôde ser assim. A edição francesa aparecerá em 1922 e a alemã um ano mais tarde, em 1923.

Realizou esta tradução em conjunto com a sua grande amiga Hedwiges Conrad-Martius, em cuja casa passou longas temporadas entre 1921 e 1922. Isto aconteceu pouco depois da decisão de Edite se converter ao catolicismo.

O livro apareceu publicado na Alemanha com o título Descartes und die Scholastik, pela editorial Cohen, de Bonn. No entanto, não há nenhuma referência directa ou indirecta no livro a Edite. É possível que a intenção de Hedwiges e Edite fosse ajudar o seu companheiro Koyré, que certamente conhecia bem o alemão, mas não como para se atrever a escrever um livro sozinho. De facto, a única notícia pela qual sabemos desta tradução é uma breve indicação de Edite. Menciona-o numa carta a Ingarden datada de 30 de Setembro de 1922: «Agora mesmo encontra-se na imprensa um livro de Koyré (sobre a ideia de Deus em Descartes), que a senhora Conrad e eu traduzimos, e que aparece ao mesmo tempo em francês» (Ct 731).

c) Erich Przywara e a tradução de Newmann

Fizemos referência, repetidas vezes, a este nome, filósofo jesuíta, um dos artífices do grande movimento de florescimento do catolicismo alemão. A ele, em grande parte, devemos o facto de Edite dedicar tanto tempo à tradução.

De facto, uma das tarefas que o P. Erich tinha empreendido, com a colaboração de Dietrich von Hildebrand, foi a publicação das obras do Cardeal Newmann para o alemão. Ambos o consideravam uma personagem que podia contribuir muito para o processo de mudança e de inculturação do catolicismo alemão.

O primeiro encontro de Erich com Edite deu-se em 1923, em grande parte por indicação de Dietrich von Hildebrand, velhos conhecidos do círculo fenomenológico de Gotinga. Hildebrand tinha-se convertido uns anos antes ao catolicismo, em 1914, e tinha-se estabelecido em Munique. Aqui fundou, nos anos 20, a editorial Theatiner. Um dos objectivos era a edição das obras de Newmann em alemão. É de supor que em 1923 Edite já está dedicada a traduzir os escritos de Newmann, embora seja certo que o faz na medida em que a actividade académica lho permite.

Com o passar dos anos a sua relação com o P. Erich Przywara vai crescendo. É ele quem introduz Edite nos círculos filosóficos católicos, e um dos que promove a sua actividade como conferencista. Animará Edite a traduzir a São Tomás de Aquino. É certo que a influência foi recíproca. Edite foi para Przywara a sua grande mestra no mundo da fenomenologia. De tal modo foi assim que no seu principal trabalho filosófico, Analogia entis, se confessa discípulo da Dra. Stein.

d) Escritos do Cardeal Newmann

Numa carta a Ingarden, datada a 19 de Junho de 1923, escrevia: «O meu horário não me deixou tempo livre para isso. Disponho às vezes de uma hora escassa (mas não todos os dias)… Este estilhaço do tempo, impensável para realizar um trabalho próprio, empreguei-o o ano passado para traduzir um livro do Cardeal Newmann, The Idea of a University (para a editorial Theatiner de Munique, à qual pertence, na qualidade de fundador e director, Gogo Hildebrand). E agora pedem-me um segundo volume. Traduzir dá-me verdadeira alegria» (Ct 737).

Nesta carta, Edite pormenorizou quais são as suas traduções de Newmann:

  1. A ideia de uma universidade (Die Idee der Universität). Este texto não chegou a ser publicado naquele momento, embora não se conheçam com certeza as razões. Foi publicado recentemente na Alemanha, pela primeira vez, em 2004, no vol. 21 de ESGA.

  1. O segundo texto, que chegou a ser publicado, é a tradução do Diário e das cartas de Newmann até antes da sua entrada na Igreja católica. Parece que tinha concluída esta tradução em 1925. Em 1927 corrige as provas de imprensa. A publicação sai à luz em 1928 com o título impreciso de Briefe und Tagebücher bis zum Übertritt Kirche (1801-1845). Actualmente precisou-se melhor o título (ESGA 22): Briefe und Texte zur ersten Lebenshälfte (1801-1846): Cartas e textos da primeira metade da sua vida (1801-1846).

Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 111-113.

 

Imagem de Benjamin Hartwich por Pixabay