Sáb. Nov 27th, 2021

Oratório Peregrino

Um oratório à maneira de um viático para tempos de carestia
Uma proposta desenvolvida em parceria com

Irmãs do Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro


XXXI Passo | Ele ama-te hoje, como te amou ontem, como te amará amanhã.

Hoje Isabel vai sussurrar uns versículos de um dos salmos sobre o dia e a noite, a luz e o sol. O céu da sua alma, repleto da presença de Deus, aparece radiante e sonoro. Não há só «conhecimento de Deus» – essas inspirações das quais nos aproveitamos ao ler o seu «Último Retiro» –, mas também «fidelidade para responder» à vontade do Senhor (às suas «normas») e às suas moções interiores («mandatos interiores»): os últimos toques para a fazer viver na luz e torná-la «radiante».

Chama a atenção em Isabel a sua fortaleza e a sua transparência. Quase se esquece de que, «no meio da dor», «sente» como a enfermidade a vai «destruindo» (GV 7). No entanto, nem uma queixa, nem um desdobramento sobre si mesma, nem o menor assomo de recusa. A sua radical felicidade mostra que o Ressuscitado está a vencer nela a morte. A sua maior alegria consiste em se deixar transformar no Deus imortal.

Hoje, contudo – e felizmente, pois diante de tal perfeição sentimo-nos desencorajados – encontramo-nos com uma alusão aos seus «sofrimentos anímicos e corporais», às suas «debilidades», aos seus «desgostos», às suas «obscuridades», inclusive aos seus próprios defeitos». A mensagem, porém, continua a ser positiva. Todas essas formas de «noite» podem também «comunicar a glória do Eterno». Em que condição? Na condição de que eu as viva unido a Jesus que passou pelo sofrimento, a Jesus que no cálice nos oferece diariamente na Eucaristia – quer participemos nela, quer comunguemos à distância – o seu «Sangue» salvador, esse Sangue repleto de força e de glória que foi «derramado por vós e por todos os homens para o perdão dos pecados», como dizemos na consagração.

Na condição de que eu aproxime d’Ele a minha miséria: «meu sangue» (sinónimo de todas as formas da «minha dor» que enumeramos antes) deverá «misturar-se» com o de Jesus Cristo morto e ressuscitado. Na óptica de Isabel, nunca somos nós quem nos salvamos a nós mesmos e nos realizamos como pessoas: a Vida de Deus e a sua Presença é que nos salvam e realizam.

Na incapacidade e na obscuridade? Rezemos com Isabel: «Conheço a minha impotência, e peço-te que me «revistas de ti mesmo». E depois, no meio de todas as noites, de todos os vazios e de todas as incapacidades, quero fixar-vos sempre» (NI 15).

Vacilações, desgostos, resistências? «Se a tua natureza é motivo de luta, se és um campo de batalha, não desanimes nem te entristeças. Dir-te-ia mesmo de bom grado: ama a tua miséria, pois nela Deus exerce a sua misericórdia. E se a visão de tudo isso te mergulha na tristeza e te leva a dobrar-te sobre ti mesma, isso é amor próprio!» (Ct 324).

As tuas faltas? «Quando chegar a noite…, talvez descubramos algumas faltas, algumas infidelidades. Ponhamo-las no Amor: é um fogo que consome. Passemos assim o nosso purgatório no seu Amor!» (Ct 172). «É Ele quem, por este contínuo contacto, a há-de libertar» (Ct 249).

Oscilações do sentimento? «Não ligue demasiado a saber se está entusiasmada ou desencorajada; é a lei deste exílio passar assim de um estado a outro. Antes creia que, Ele, Ele nunca muda, que na sua bondade está sempre virado para si, para a levar e estabelecer n’Ele» (Ct 249). «Que importa o que nós sintamos? Ele, Ele é o Imutável, Aquele que não muda nunca: Ele ama-te hoje, como te amou ontem, como te amará amanhã. Mesmo se tu Lhe causares sofrimento, lembra-te que um abismo clama por outro abismo, e que o abismo da tua miséria, Guidinha, atrai o abismo da sua misericórdia, oh!, repara, Ele faz-me compreender isto de tal modo, e é para nós ambas» (Ct 298).

Se quiseres chegar, como Isabel, à «transformação» plena e consumada, ela recorda-te também neste sétimo «dia» que o céu da tua alma tem de cantar «só a glória do Eterno». Sejam quais forem a tua situação e as tuas responsabilidades, quer estejas no meio do mundo ou na solidão, se Deus não «encontra a tua alma vazia de tudo o que não caiba nestas duas palavras: seu amor e sua glória», a transformação n’Ele não poderá ser completa. Então, volta a mergulhar no maravilhoso circuito da esperança na sua Misericórdia…

Mas à medida em que a alma vai estando verdadeiramente «vazia», vai transformando-se nessa «tenda» do salmo de onde sairá o «Sol», «fogo devorador» que arde sem se consumir, para converter a alma em Fogo e em Sol.

Isabel gosta muito do sol, que, para ela, era uma imagem da presença benéfica de Deus e da união para a qual caminha. «O horizonte é muito belo, o Sol divino brilha com toda a sua luz; peça-lhe que a borboletazinha queime as asas nos seus raios» (Ct 203). União com a Trindade «no interior», com essa Trindade que vai cativando cada vez mais o seu pensamento e a sua vontade. «Que estes Três, que ambas tanto amamos, sejam verdadeiramente o Centro em que decorra a nossa vida! Santa Teresa diz que a alma é como um cristal no qual se reflecte a Divindade. Gosto tanto desta comparação, que quando vejo os raios do sol a inundar os nossos claustros, penso ser assim que Deus invade a alma que nada mais procura senão a Ele!» (Ct 136).

Na sua oração «Ó meu Deus, Trindade que eu adoro» (NI 15), Isabel tinha prometido a Cristo, o seu «Astro amado»: «Quero fixar-vos sempre e permanecer sob a vossa grandiosa luz; ó meu Astro amado, fascinai-me para que já não possa mais sair da vossa irradiação». E tinha pedido ao Espírito Santo que a consumisse até que o Cristo-Sol a possuísse por inteiro sem a menor sombra: «Ó Fogo consumidor, Espírito de amor, «sobrevinde em mim», a fim de que se faça na minha alma como uma encarnação do Verbo: que eu Lhe seja uma humanidade de acréscimo na qual Ele renove todo o seu Mistério».

O texto de Isabel

  1. «Coeli enarrant gloriam Dei» [O céu proclama a glória de Deus: Sl 18, 1]. Eis o que narram os Céus: a glória de Deus. Já que a minha alma é um céu, onde vivo esperando “a Jerusalém celeste”, impõe-se então que este céu cante também a glória do Eterno, nada mais do que a glória do Eterno.

«O dia transmite ao dia esta mensagem» (Sl 18, 3). Todas as luzes, todas as comunicações de Deus à minha alma são esta «dia que transmite ao dia a mensagem da sua glória». “O decreto de Jahveh é puro, canta o salmista (Sl 18, 9), ilumina o olhar…”. Por conseguinte, a minha fidelidade em responder à chamada de cada um dos seus decretos, a cada uma das suas ordens interiores, faz-me viver na sua luz: também ela é uma «mensagem que transmite a sua glória».

Eis, porém, a doce maravilha: «Jahveh, quem te olha, resplandece!», exclama o profeta (Sl 33, 6). A alma que, pela profundidade do seu olhar interior, em tudo contempla o seu Deus, na simplicidade que a separa de tudo o mais, essa alma é «resplandecente»: «é um dia que transmite ao dia a mensagem da sua glória».

 

  1. «A noite anuncia-a à noite» (Sl 18, 3). Eis o que é bem consolador! As minhas incapacidades, repugnâncias, as minhas obscuridades, e mesmo as minhas faltas, narram a glória do Eterno! Os meus sofrimentos, da alma ou do corpo, narram também a glória do meu Mestre! David cantava: «Que retribuirei ao Senhor por todos os bens que d’Ele recebi?» Ora justamente: «Tomarei o cálice da salvação» (Sl 115, 3-4). Se o tomo, a este cálice «empurpurado» do sangue de meu Mestre, e em acção de graças, plena de alegria, misturo o meu sangue com o da Vítima santa, fica de algum modo infinitizado e pode prestar ao Pai um soberbo louvor; então, o meu sofrimento é «uma mensagem que comunica a glória» do Eterno.
  1. «Aí (na alma que narra a sua glória) levantou uma tenda para o Sol» (Sl 18, 5). O Sol, é o Verbo, é o Esposo. Se Ele encontrar a minha alma vazia de tudo o que não entra nestas duas palavras: o seu amor e a sua glória, então, escolhe-a para ser o seu aposento nupcial, e nele se lança, «a percorrer alegremente como atleta o seu caminho», e não consigo «fugir ao seu calor» (Sl 18, 5-6). É este fogo que consome (Hb 12, 29) que fará a ditosa transformação de que fala S. João da Cruz, quando diz: «Cada um é o outro e ambos são apenas um», para ser «louvor de glória» do Pai.

 

Sugestões para orar

Esse Sol que é Jesus está dentro, no «céu da tua alma». Cada vez que comungas eucaristicamente a sua vida consolida-se em ti. É muito distinto do sol material que brilha lá longe da nossa terra: Jesus conhece-te muito bem e ama-te apaixonadamente. O seu olhar atento e o seu coração imenso desbordam de amor. Com Ele podes ser tu mesmo, apresentar-te diante d’Ele tal como és; com as tuas faltas, com a tua boa vontade. Deus ama-te na tua pobreza, o seu coração alegra-se se te abres ao seu amor misericordioso.

A mamã de Isabel não era, em resumidas contas, um ser extraordinário, e, no entanto, a sua filha deseja com toda a alma partilhar com ela o seu ideal e a Fonte onde bebe a sua entrega sem igual. «Pensa que a tua alma é o templo de Deus. (…) A todo o instante do dia ou da noite as três Pessoas divinas permanecem em ti. (…) Quando se tem consciência disso, dá-se uma intimidade toda de adoração; nunca se está só! Se preferes pensar que o santo Deus está perto de ti, mais do que em ti, segue a tua inclinação desde que vivas com Ele. (…) Sente que estás lá com Ele, e age como com um ser que se ama; é tão simples, não são necessários grandiosos pensamentos, mas uma efusão de coração» (Ct 273).

E tem uma palavra para Deus. Que brote do teu coração, do teu coração «actual», cristão, humano. Ou tira-a da Bíblia ou da liturgia, dos seus profundos gritos nos quais hás-de reconhecer a voz de Jesus. Ora com o  Pai Nosso, com um salmo, com um canto… Utiliza, se for o caso, outras orações compostas por um irmão crente, por exemplo a magnífica Oração de Isabel.

Às vezes, pode bastar uma só palavra. Deixa que as palavras penetrem em ti e ressoem dentro. Repete-as lentamente, «confiando-as» a Deus, com amor, desde o mais profundo do coração. Põe-te todo nas palavras, oferece-te tão sinceramente como possas hoje; amanhã Deus estará aí para te acolher novamente. Agrada-lhe a tua voz, o teu acento filial, o teu coração de filho, no qual vê o seu Filho que vive e ora em ti.

Se, durante um tempo longo de oração, só consegues ter um diálogo íntimo e profundo com Deus durante uns momentos, com os teus olhos postos nos seus olhos, esse tempo de oração será sumamente fecundo e vitalizador. Muitos crentes guardam a recordação inesquecível de um único momento de encontro profundo com Deus. Um momento que pôde ser explosivo…

Isabel começou também humildemente. Tinha encontrado a Fonte e a sua sede tinha-se feito digna de Deus: «uma sede de infinito e uma necessidade tão grande de amar, que só Ele pode saciá-las» (Ct 169). Mas a Fonte lava-a da sua indignidade: «Ele está em mim, eu estou n’Ele, só tenho que O amar e me deixar amar, e isso em todo o tempo, através de todas as coisas: despertar no Amor, mover-me no Amor, adormecer no Amor, a alma na sua Alma, o coração no seu Coração, os olhos nos seus olhos, a fim de que pelo seu contacto Ele me purifique, me liberte da minha miséria. Se soubesse como estou cheia dela» (Ct 177).

Não tentes ser Isabel da Trindade. Procura ser tu mesmo, e sê-lo em Deus. Isabel quer ajudar-te e orientar-te.

Hoje, volta-te amiúdo para o Senhor, com simplicidade e com grandes desejos. Podes dizer-lhe: Jesus, Esplendor do Pai, que a minha vida não seja senão uma irradiação da vossa vida.


Imagem de Jeong Eun Lee por Pixabay