Dom. Nov 28th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

DIONÍSIO O AREOPAGITA. CAMINHOS DO CONHECIMENTO DE DEUS

Javier Sancho*

a) Em contacto com o Areopagita

O interesse de Edite Stein pela figura e o pensamento de Dionísio o Areopagita começa a tornar-se presente na sua obra Ser finito e ser eterno. Mas será apenas em 1940 que afronta em cheio os escritos de a doutrina do Areopagita.

Em 1940, enquanto se encontra no Carmelo de Echt, solicitam a sua colaboração para uma nova revista de fenomenologia americana: «Journal of Philosophy and Phenomenological Research» (Cf. OC I, 1597). Edite propõe um trabalho sobre o Areopagita, no qual trabalhará entre 1940 e 1941. Fruto do seu estudo das obras do Pseudo Dionísio surgirá, além disso, a tradução dos seus escritos. Em pouco tempo Edite converteu-se numa grande conhecedora da doutrina do Areopagita. E fruto do seu trabalho serão os seguintes contributos.

 

b) Tradutora dos escritos de Dionísio Areopagita

Podemos afirmar, com toda a probabilidade, que o objectivo de Edite não era publicar uma tradução dos escritos do Areopagita em alemão. Contudo, entre os materiais deixados por ela, conserva-se um grande manuscrito no qual verte a tradução das obras de Dionísio. E ainda que por se tratar de uma tradução não apresente «maior interesse» de difusão noutras línguas, diz-nos muito até que ponto mergulhou no pensamento do Areopagita.

As razões pelas quais Edite faz esta tradução parecem obvias, embora na prática se reduzam a uma: a inexistência em língua alemã de uma edição completa dos escritos do Areopagita. Dedicou-se possivelmente a este trabalho durante os meses de 1940 e primeiros de 1941. De facto, não parece que afronte o escrito Caminhos do conhecimento de Deus, até Março de 1941 (cf. Ct 1364).

Na obra Edite recolhe todos os escritos conservados se Dionísio Areopagita:

  1. Os nomes de Deus
  2. Hierarquia Celeste
  3. Hierarquia eclesiástica
  4. Teologia mística
  5. Cartas

A tradução destes escritos, tal como sucedeu com São Tomás de Aquino, foi passo prévio para penetrar mais profundamente na sua doutrina e poder elaborar um trabalho sobre ele. Esta tradução permaneceu inédita até ao presente. Só recentemente foi publicada em ESGA volume 17, no ano de 2003.

 

c) Os caminhos do conhecimento de Deus

Tal como acabamos de afirmar, Edite escreve este artigo em Echt. Começa a sua redacção no mês de Março de 1941, e parece tê-lo concluído nos fins do mês de Maio. Numa carta datada a 13 de Junho afirma tê-lo já concluído: «está a passá-lo à máquina actualmente Ruth K. Antes de o publicar e continuar, enviei-o primeiro a Valkenburg, onde residem dois bons conhecedores do Pseudo-Dionísio, para ouvir um juízo formal de pessoas competentes» (Ct 1374). Estas duas pessoas foram: Alois Lieske e o seu confessor Johannes Hirschmann. Este último respondeu-lhe a 21 de Agosto com algumas correcções e sugestões (OC I, 1625 ss). O mesmo Hirchmann será nomeado censor da mesma obra pelo bispo de Roerdmond. Dará o «nihil obstat» a 11 de Setembro de 1941 (OC I, 1628).  Obtida a licença de publicação enviou-o a Martin Farber, director da revista americana de fenomenologia. Este, por sua vez, enviou-o para sua tradução a Rudolf Allers, então residente na América e colaborador da revista «The Thomist». Este senhor teve ocasião de conhecer a Edite numa das suas conferências.

O tema apresentado por Edite não é o mais apropriado para uma revista de fenomenologia, ela o reconhece, e pensa publicá-lo também na Holanda: «Dificilmente posso julgar se á apropriado para a revista… parece-lhe que também possa aparecer aqui em tradução holandesa?» (Ct 1378).

Mas a publicação não acontecerá tão depressa como era de esperar. E assim, embora fosse preparado para a revista americana Journal of Philosophy and Phenomenological Research, a sua primeira publicação aparecerá finalmente na revista Tijdschrift voor Philosophie, Fevereio de 1942, pp. 27-74. Poucos meses depois será publicado pela revista americana The Thomist, em Julho de 1944, pp. 376-420.

O título definitivo do trabalho foi: Caminhos do conhecimento de Deus. A “teologia simbólica” do Areopagita e os seus pressupostos objectivos (Wege der Gotteserkenntnis. Die “Symboliche Theologie” des Areopagiten und ihre sachliche Voraussetzungen). Na última publicação espanhola (OC V, 125 ss) acrescentaram-se além disso, uma série de páginas ou apêndices que, com toda a certeza, são folhas descartadas por Edite durante a elaboração e correcção final do escrito.

A obra está dividida em duas partes muito desiguais. A primeira, mais breve, tem carácter introdutório. Nela Edite afronta diversas questões que lhe interessa esclarecer: os escritos de Dionísio, a ontologia e o conhecimento no Areopagita, e os «graus» que estabelece na teologia.

A segunda parte, muito mais ampla, afronta o tema da «teologia simbólica». Em seis capítulos vai analisando sucessivamente o tema. Enunciamo-los para dar uma visão mais vasta da temática desenvolvida pela autora:

  1. Explicações da «teologia simbólica» a partir da obra do Areopagita
  2. O significado imediato e mediato dos nomes simbólicos
  3. O símbolo como imagem
  4. A relação da imagem e seus pressupostos em quem fala e em quem escuta. Apresenta aqui o que é o conhecimento natural de Deus, a Fé e a experiência sobrenatural de Deus
  5. A teologia simbólica como véu do mistério
  6. Graus de encobrimento e descobrimento.

Conclui o escrito com uma nota final sobre a teologia simbólica e as outras teologias.


*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 156-157.

 

Imagem de Sven Lachmann por Pixabay