Dom. Jun 13th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Antropologia Teológica

Javier Sancho*

 

a) O contexto

Teríamos que nos referir fundamentalmente ao mesmo contexto dos outros dois cursos leccionados no Instituto de pedagogia científica. Pelo que podemos deduzir do conteúdo do anterior escrito (A estrutura da pessoa humana), este escrito apresenta-se como a continuação necessária.

Concluído o semestre de Inverno de 1932-1933, Edite tem um tempo de férias que lhe vem muito bem para preparar o seu curso para o semestre de Verão de 1933, que começaria no mês de Abril. De facto, pelo que podemos deduzir das suas cartas, começa já em Fevereiro a preparar o dito curso (cf. Ct 349). Apesar disso, os acontecimentos históricos mudarão os seus planos.

Hitler vencera nas eleições de Janeiro e confirmará o poder no mês de Março. Entre as primeiras medidas adoptadas consta a proibição da presença dos judeus em cargos públicos. Sabemos que, de momento, ela não toma nenhuma decisão precipitada, mas permanece simplesmente em Münster esperando e procurando uma saída. Permanecerá até ao mês de Maio no Marianum. É possível que tenha dedicado a maior parte do seu tempo a completar este curso. No entanto, em breve se vai dilucidar a sua futura entrada no Carmelo de Colónia. É possível que isto levou a que o manuscrito ficasse incompleto.

Só foi publicado, pela primeira vez, em 1994, em ESW 17, com o título Was ist der Mensch? Eine theologische Antropologie. Apareceu publicado em espanhol com o título: Que é o homem? A antropologia da doutrina católica da fé (OC IV, 761 ss).

 

b) Estrutura:

A obra, tal como chegou até nós, consta de cinco partes:

  1. A natureza do homem
  2. Criação do primeiro homem e seu estado original
  3. A natureza caída
  4. O Deus-Homem
  5. A redenção e o estado dos redimidos

O último capítulo subdivide-se em três partes:

  1. A justificação do pecador
  2. Os sacramentos
  3. Os efeitos da graça no homem

Este último apartado propunha-se, entre outros temas, o estudo das virtudes teologais. Mas, de facto, Edite trata apenas a fé.

 

c) Conteúdo

O sentido que Edite quis dar a este escrito encontramo-lo expresso na introdução: «A finalidade desta obra é apresentar a imagem do homem, tal como aparece na nossa doutrina da fé. Segundo a linguagem científica dos nossos dias, o que vamos oferecer receberá o nome de Antropologia Dogmática. Esta tarefa ocorreu-me insistentemente quando estava a preparar uma fundamentação da Pedagogia» (OC IV, 765).

Isto explica a razão pela qual o conteúdo, a diferença da maior parte dos outros escritos steinianos que seguem uma metodologia discursiva, se fundamenta directamente no magistério eclesiástico, no qual apoia todas as suas afirmações. Quer dizer, apresenta as definições dogmáticas sem entrar em discussões sobre o tema; fará declarações na medida em que ditas definições não sejam tão compreensíveis. Edite pretende, antes de tudo, oferecer um amplo contexto da doutrina da fé católica em relação com a pessoa humana. O seu objectivo é oferece os fundamentos para a criação de uma pedagogia de raiz católica. Mas isto não será possível se não se fundamenta na ideia do homem tal como aparece na Revelação e no Magistério da Igreja.

Vai fundamentar este projecto no duplo significado que a fé tem para a ciência, vista do âmbito católico: «em primeiro lugar, há-de ser uma norma pela qual a ciência se meça, uma norma que “livra e defende a razão de erros”; em segundo lugar, a fé há-de servir de complemento, porque proporciona a resposta a algumas questões que são insolúveis para a razão natural» (OC IV, 765-766).

Na primeira parte da obra, Edite pergunta-se: que é o homem? Um pergunta que precisa de ser esclarecida desde três pontos de vista: o que é o homem como indivíduo, o que é comum a todos os homens, e o que é a humanidade. A partir daqui projecta o conteúdo desta parte, dando respostas a temas como a imagem do homem, o problema da origem e ser da alma, a sociabilidade no ser humano e a individualidade.

A segunda parte afronta o tema central da antropologia teológica: a criação do homem. A partir dos relatos bíblicos, como base de compreensão, apresenta as conclusões a que o Magistério chegou ao longo dos séculos, especialmente em temas como a liberdade e a inocência como dons naturais, o que significa «a natureza pura», a sobrenaturalidade do homem antes do pecado, a importância da liberdade no estado original e no pecado.

O ulterior passo lógico é a apresentação da doutrina da fé em relação ao homem caído, depois do pecado, quer em relação a Adão, quer em relação às consequências que isso trouxe para toda a humanidade. É quanto apresenta na terceira parte.

Consagra as duas partes seguintes ao tema do mistério da Redenção. A quarta fixa a atenção no mistério de Cristo encarnado, analisado quer a partir da sua natureza humana quer divina, bem como a importância da união das duas naturezas na realização da redenção. A quinta e última parte, embora incompleta, apresenta as consequências da redenção realizada por Cristo para toda a humanidade. A partir do tema da justificação, passando pela análise de cada um dos sacramentos e de outros meios de santificação (indulgências), até chegar à doutrina da graça, que só desenvolve o tema da fé como virtude teologal. Era de supor que a obra continuasse com o estudo da esperança e da caridade.


Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 132-133.

 

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