Sáb. Set 25th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

A VIDA SACRAMENTAL

Javier Sancho*

Os sacramentos formam parte integrante da vida da Igreja, Para Edite Stein adquirem um lugar central de valor, enquanto meios da graça e encontro com Cristo. Aqui vamos unicamente sublinhar algum dos principais elementos que ela própria sublinha. Mas o seu sentido e valor terão que ser complementados, necessariamente, com tudo o que ela diz sobre a liturgia (ficha 94) e a eucaristia (ficha 95).

Edite Stein assume a grande tradição dogmática da Igreja considerando os sacramentos como instituição divina e como meios ordinários de participação da graça, da salvação. Pronuncia-se directamente sobre o tema em diversos dos seus escritos, sobretudo quando aborda o tema da antropologia teológica católica. Trata dele em dois dos seus escritos: Natureza, liberdade e graça (cf. ESW VI, 180 ss.) e Que é o homem? (OC IV, 877 ss.). Os aspectos dogmáticos que ela trata, por ser doutrina comum da Igreja, não os anotamos aqui.

Os sacramentos têm a missão essencial de conduzir o h0mem, «no estado de peregrino, à santificação» (OC IV, 879), São a fonte da força «sempre nova» para viver o dia a dia em comunhão com Deus (Cf. Ct 922). São os meios de salvação que o Senhor nos concedeu (Cf. ESW VI 180 ss).

 

a) Baptismo

O baptismo é o sacramento através do qual o homem, limpo do pecado, recupera a sua condição de filho de Deus. Significa o nascimento para a vida da graça e a incorporação ao corpo de Cristo (OC IV, 881), ao seu mistério de morte e ressurreição (ib. 882). É um nascer de novo para poder alcançar a união com Deus (SF 414, nota 67). O sacramento do baptismo outorga ao homem a possibilidade de realizar a sua vocação originária para a vida eterna.

 

b) Confirmação

A confirmação concede ao crente o dom do Espírito Santo que «marca e fortalece o soldado de Cristo para a sua confissão valente» (OC V, 121). Uma vez que toda a vida do cristão se configura como uma contínua luta contra o pecado, a confirmação é «um meio especial para fortalecer o cristão em ordem a essa luta» (OC IV, 884).

 

c) Penitência

O sacramento da penitência contempla-o Edite Stein em estreita união com o baptismo, como a possibilidade sempre aberta de recuperar a graça baptismal, porque «limpa-nos dos pecados, abre-nos os olhos à luz eterna, os ouvidos à palavra divina e os lábios ao louvor, à oração de expiação, de petição, de agradecimento, que são todas formas diferentes da adoração, isto é, da homenagem do ser criado ao Todo-Poderoso e Todo-Bom» (OC V, 121). Concede a possibilidade de restabelecer constantemente a «vida que se tivesse extinguido» (OC IV, 898). Sublinha, com especial interesse, que a doutrina  e o rito da penitência manifestam «a bondade maternal da Santa Igreja» (ib. 908).

 

d) Unção dos doentes

Embora Edite se encontre com uma concepção deste sacramento como de «extrema-unção», pronuncia-se sobre a unção dos doentes definindo-a como «mostra especial da misericórdia divina» (OC IV, 910). Um Deus que por meio da Igreja quer conceder a sua assistência e consolação na doença com o perdão dos pecados e a esperança da vida eterna.

 

e) Ordem sacerdotal

O sacramento da Ordem não é objecto de profunda reflexão nos seus escritos, embora não deixe de estar presente, ainda que prefira estudá-lo em ligação com a Eucaristia e a Igreja, onde encontra o seu verdadeiro sentido (cf. OC IV, 914 ss). O sacerdote é «representante visível de Cristo», e o seu ministério é «cooperação no ministério sacrificial de Cristo» (OC IV, 925).

A relação de Edite com os sacerdotes ao longo de toda a sua vida mereceria um estudo à parte, o respeito e a veneração que sempre lhes manifestou; e que surge da sua convicção de que o sacramento é encontro com Cristo.

O tema do sacerdócio da mulher é um elemento «original» em Edite, sobretudo pela época em que o trata. Embora não veja nenhum tipo de impedimento dogmático, julga que o acesso da mulher ao sacerdócio ministerial não foi favorecido directamente por Cristo, que não escolheu nenhuma mulher para tal ministério. O que não implica, segundo Edite Stein, a privação total do sacramento da Ordem para a mulher, que bem poderia ter acesso ao diaconado por não se tratar propriamente do exercício do sacerdócio ministerial, embora sim do sacramento da Ordem: «Se contemplamos a atitude do Senhor neste ponto, vemos então que Ele acolheu as mulheres para o seu serviço e o dos seus, e que entre os seus discípulos e mais íntimos confidentes havia também mulheres; no entanto, não lhes confiou o sacerdócio, nem sequer à sua própria Mãe, a rainha dos apóstolos, que foi elevada por cima de toda a humanidade em perfeição humana e em plenitude de graça. A Igreja primitiva conhecia uma múltipla actividade caritativa das mulheres que foram confessoras da fé e mártires; conhecia as virgens consagradas ao serviço litúrgico e também um ofício eclesiástico consagrado, o diaconado feminino, com uma consagração diaconal própria… » (OC IV, 294).

Mais interessante pode parecer o argumento antropológico e teológico que Edite dá contra o sacerdócio da mulher: «Cristo veio á terra como filho do homem, e por isso, a primeira criatura sobre a terra que foi criada de forma eminente à imagem de Deus foi um homem. Isto parece-me indicar que, para exercer como seus representantes ministeriais na terra, só queria homens» (ib. 295).

 

f) Matrimónio

Sobre o sacramento do matrimónio é onde a nossa autora se mostra mais original e qual, à excepção do sacramento da Eucaristia, dedica mais páginas. A sua preocupação pelo matrimónio advém-lhe das suas preocupações educativas e antropológicas. Considera a família como a primeira célula e a mais importante da sociedade. A base sobre a qual se constrói uma autêntica família cristã é o sacramento do matrimónio. No sacramento o casal confirma a sua vocação e recebe a graça para o seu pleno desenvolvimento. Mais ainda, «a sagrada união» é a «ferramenta de santificação para os esposos», o lugar teológico da sua salvação e união com Deus (cf. OC IV, 400-401).

O sacramento do matrimónio contém em si mesmo um grande mistério que o qualifica como vocação para a realização do ser humano: «é um grande mistério enquanto símbolo e sinal da união de Cristo com a Igreja, e ao mesmo tempo, como seu instrumento» (Obras 238). Deste modo, o matrimónio transforma-se num instrumento que colabora com Deus na criação, e com Cristo na obra da redenção, sendo o «órgão da Igreja» que conquista novos membros para o Reino de Deus, dando vida e educando para ele» (ESW XII, 225).

*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 188-190.


Imagem de James Chan por Pixabay