Dom. Set 19th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

A PESSOA ESPIRITUAL

Javier Sancho*

a) Característica própria do ser humano

Um dos elementos que caracterizam a antropologia steiniana é a descoberta, desde o primeiro momento, da dimensão espiritual do ser humano. Um ser que não se esgota na sua materialidade, nem na sua sensibilidade física. A sua vida é a demonstração mais evidente da sua capacidade de se transcender, de sair de si, de superar os limites da sua corporalidade.

O homem pode empatizar, pode raciocinar, pode amar, pode conhecer, porque é capaz de sair de si. Trata-se de uma comprovação «existencial» presente em todo o ser humano. A partir do reconhecimento desta concepção antropológica essencial, é possível falar, inclusive antropologicamente, de uma vida espiritual no homem, como algo que corresponde à sua humanidade. «À essência do homem enquanto tal pertence a seguinte dupla natureza: ser uma pessoa espiritual e ser informado corporalmente. Enquanto espírito, a essência forma parte do mesmo género de ente que todos os espíritos criados. Enquanto informada orgânica-corporal-psiquicamente, forma parte do género dos seres vivos. Mas visto que o ser espiritual e o ser orgânico-material-psíquico não se apresentam nela separados e justapostos mas são uma unidade. É, por conseguinte, mais justo – parece-me – falar de um género particular» (SF 520-521).

O ser humano encontra a razão do seu ser em si mesmo. E é capaz de uma vida espiritual porque é um ser espiritual. Reconhecer este princípio implica que o homem nunca se desenvolverá como tal se não fomenta a sua vida espiritual, que vem a ser a base característica do seu ser.

Em vários dos seus estudos antropológicos, Edite procede, para conhecer o ser do homem, a partir da «comparação» com todos os seres que o rodeiam. Na sua obra A estrutura da pessoa humana procura alcançar esse conhecimento comparando o ser humano com a matéria, com os seres vivos inanimados e os animados. Deste modo, chega a concluir o que é próprio do homem enquanto homem, enquanto ser espiritual, superior ao animal.

 

b) A sua meta é a união com Deus

Para Edite Stein, o ser humano além de ser espírito, define-se como ser espiritual. Porque é espírito e alma espiritual possui em si vida espiritual. É o ponto que mais o assemelha e une com Deus. Se não fosse espiritual não seria capaz de ter acesso à união com Deus. E embora seja verdade que o homem não alcança este estado sem a intervenção da graça, o seu ser sente-se necessitado da união para se completar e aperfeiçoar. O homem foi criado para este fim como «criatura espiritual» (SF 392).

Porque é espiritual o homem tem a capacidade de sair de si e ter acesso ao mundo do espírito: «Enquanto o homem é espírito segundo a sua essência, sai de si mesmo com a sua “vida espiritual” e entra num mundo que se abre a ele, sem perder nada de si mesmo. Exala não só a sua essência – como todo o produto real – de uma maneira espiritual exprimindo-se a si mesmo de forma consciente, mas, além disso, actua pessoal e espiritualmente. A alma humana, enquanto espírito, eleva-se na sua vida espiritual por cima de si mesma» (SF 378-379).

A capacidade de uma vida espiritual autêntica no homem deve-se ao facto do seu espírito ser participação do Espírito Divino (SF 377). Deste modo, a vida espiritual do homem deve ser considerada também como imagem da vida íntima  de Deus, da Trindade (SF 461 ss). A participação do espírito humano no espírito divino supõe necessariamente uma chamada e vocação à união com Deus, como realização em plenitude do seu ser. Por isso, a vida espiritual humana necessita de um contínuo desenvolvimento ou ascensão para essa meta. E porque a interioridade é, em definitivo, o mais espiritual do homem, a pessoa torna-se mais espiritual quanto mais vive no profundo do seu ser (SF 453 ss).

 

c) A vida espiritual do ser humano

Para Edite Stein, dada a sua compreensão do homem, a felicidade e a realização da pessoa humana depende do desenvolvimento da sua vida espiritual. Por isso, descobre uma dupla finalidade na vida espiritual:

– caminho de interiorização: o homem tem necessidade de se conhecer para se poder realizar. Mas adquire conhecimento do seu ser e da sua vocação só na medida em que se aproxima do centro do seu ser, onde conquista o seu maior grau de conhecimento, de liberdade, e de possibilidade de se unir com Deus: «O centro da alma é o lugar onde se faz ouvir a voz da consciência, e o lugar da livre decisão pessoal. Por isso e porque a livre decisão da pessoa é condição requerida para a união amorosa com Deus, esse lugar das livres opções deve ser também o lugar da livre união com Deus» (OC V, 105).

– caminho de união com Deus: do ponto de vista da antropologia cristã, o homem só encontra a sua plenitude em Deus. A pessoa humana foi criada »à imagem e semelhança» de Deus, o que indica que está destinado a reproduzir durante toda a sua vida essa imagem. O encontro com Deus em Cristo realiza-se no mais profundo da pessoa. Ali descobre essa imagem e ali, no seu mais alto grau de liberdade, é capaz de se entregar e unir com Deus. «Conhecemos a interioridade mais profunda da alma como a morada de Deus. Pela sua espiritualidade pura, esta interioridade é capaz de acolher nela o espírito de Deus. Pela sua livre personalidade pode dar-se a Ele, pois este dom é necessário para tal acolhimento. A vocação de união com Deus é uma vocação à vida eterna. Já naturalmente a alma humana, enquanto produto espiritual puro, não é mortal. Enquanto espiritual e pessoal, é capaz, por outro lado, de uma crescimento da vida sobrenatural, e a fé ensina-nos que Deus quer oferecer-lhe a vida eterna, quer dizer, a participação eterna da sua própria vida» (SF 518-519).

Uma compreensão da vida espiritual nesta dupla dimensão que Edite Stein propõe, tem as seguintes consequências lógicas (cf. Modelo 339 ss):

– que o autêntico desenvolvimento da vida espiritual leva a um reconhecimento da vocação individual da pessoa e à sua prática;

– ao mesmo tempo a pessoa quanto mais espiritual é mais livre, porque o centro da sua interioridade é o centro da sua liberdade, de onde pode tomar as decisões com maior clareza e conhecimento.

– o crescimento da vida espiritual no homem supõe uma abertura cada vez maior ao mundo, enquanto que se torna capaz de sair de si mesmo e penetrar na realidade sem o perigo de ser absorvido por ela.

O âmbito global da vida espiritual do homem fica aqui situada, embora só como base do que depois implica o seu desenvolvimento. Por isso, este tema, para se completar, necessita de fazer referência ao resto dos temas: quer os de carácter antropológico (o ser do homem, a sua individualidade, o seu ser social e comunitário, a sua liberdade…), como os de carácter teológico (importância de Cristo, eclesiologia…), e espiritual (a dinâmica do abandono, a oração, a vida eucarística, etc.).

Para Edite Stein, em definitivo, não há homem se não há vida espiritual, quer dizer, se não desenvolve a dimensão mais genuína e própria da sua humanidade. A espiritualidade corresponde ao ser humano pelo simples facto de ser pessoa.

*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 178-179.


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