Qui. Jun 17th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

A MÍSTICA DA CRUZ

Javier Sancho*

Poderíamos começar afirmando que a «mística ou vivência da cruz», forma parte integrante do viver nas mãos de Deus. A configuração com o mistério da cruz é configuração com Cristo, é associação ao mistério da redenção, é o caminho que dá valor «apostólico» á vida do crente: qualquer acção ou oração vivida em comunhão com o Crucificado adquire esse sentido. Daí a importância do tema.

 

a) A cruz como experiência de cristificação

Nesta ocasião, podemos muito bem acudir directamente à experiência vital de Edite Stein ao longo da sua vida. Ali podemos descobrir quais são os conteúdos e valores fundamentais da vivência do mistério da cruz. Enunciamo-los apenas, tendo muito presente que o definitivo na vivência da cruz é que ela é fonte de salvação e caminho de configuração com Cristo.

Ao longo da sua vida constatamos que os seus encontros com o mistério da cruz são fonte de vida e de esperança, outorga-lhe como fruto a paz, a serenidade, a energia e a alegria. Constitui-se também no conteúdo e sentido da sua vocação no meio de uma realidade histórica negativa, onde sublinha o seu valor de redenção e de solidariedade.

O sentido que ela dá ao seu caminho de cruz é o da intercessão e oblação; o acolher com alegria os pequenos sacrifícios de cada dia, e os grandes acontecimentos dolorosos que a situação lhe proporciona, como a perseguição do seu povo judaico ou o ter que mudar de convento. Mas o sentido último da sua vocação de cruz descobre-o na sua disposição total para entregar a vida. A partir desta união com Cristo a sua vocação alcança valor supremo, porque participa do valor eterno da cruz de Cristo (cf. Temas 287 ss.).

 

b) Mistério do abandono

Contemplar o Crucificado no seu extremo abandono ajuda-nos a compreender as profundas exigências que entranha o seguimento da cruz. Um seguimento que nunca poderá realizar-se sem o auxílio da graça divina, e que só é possível na medida em que se amadureceu espiritualmente neste caminho.

A cruz enquanto símbolo da Paixão e Morte de Cristo, e de tudo o que com estas se relaciona, como sua causa e chave de explicação (OC V, 415), compreende tanto a dimensão do abandono nas mãos de Deus, como a experiência do abandono de Deus, de tal forma que se constitui no «símbolo da fé e no distintivo dos crentes» (OC V, 660).

A cruz põe diante dos nossos olhos a Cristo pobre, humilhado, crucificado e na mesma cruz abandonado por seu Pai.  Imitando o seu comportamento, exige uma entrega livre e voluntária nas mãos do Pai. E na sua dimensão negativa configura-se como o termómetro da confiança em Deus. A sua assunção conduz à união com Ele: «Quando conhece que Cristo na sua maior humilhação e aniquilação na Cruz foi quando precisamente realizou a sua maior proeza, a Redenção e a união do homem com Deus, desperta nela o pensamento de que também para ela a aniquilação… leva à união com Deus» (OC V, 305). É a prova suprema do amor.

Cristo permanece sempre o modelo. E é só através d’Ele, como dom privilegiado do seu amor, que se pode participar desta experiência (cf. ib. 227).

 

c) Carregar com a própria cruz

A cruz é o caminho para a glória da ressurreição. Não é um momento na vida, mas implica uma continuidade e unidade com tudo o que é a vida do homem. O mistério da cruz, embora seja algo incompreensível na sua totalidade, não deixa de ter o seu aspecto concreto na vida do homem. A mesma realidade, o momento histórico, a própria limitação e a debilidade são mensagens contínuas da cruz. Por isso, para Edite assumir a própria história com sentido de fé, é carregar activamente com a cruz: «recorrer os sujos e ásperos caminhos desta terra, (…), rir e chorar com os filhos deste mundo» (OC V, 625). É aí onde começa o caminho de Cruz: «… a Cruz é o símbolo de tudo o que é difícil e pesado, e que resulta tão oposto à natureza que, quando tomamos esta carga sobre nós, temos a sensação de caminhar para a morte. E esta é a carga que há-de levar diariamente o discípulo de Cristo» (OC V, 212).

Uma carga que ajuda progressivamente a desprender-se de si mesmo para deixar espaço a Cristo. Um caminho de renúncia e de penitência. Mas, em que consiste esta carga, este caminho de renúncia? De modo geral seriam «todas as cargas e sofrimentos da vida» (Ib. 30). Por isso, a cruz apresenta dimensões muito diferentes na vida. Mas não são as circunstâncias que qualificam algo como cruz, mas a capacidade de fazer de cada situação um lugar de salvação. Por isso, Edite compreende como cruz aspectos tais como a natureza corrompida (OC V, 623), o dia a dia, a doença, as dificuldades ou problemas, a situação histórica (ib.), a cruz pessoal (OC IV, 237), a cruz do próximo (Ct 793), também tudo aquilo que se define dentro da categoria de «cruzes espirituais», como «secura, tédio, fadiga» (OC V, 305). Um arco de momentos e situações que englobam toda a vida e fazem do seguimento da cruz um caminho concreto ao qual é chamado todo o cristão.

 

d) Redenção e apostolado

A mística da cruz tem como finalidade última a mesma que o mistério da cruz de Cristo: a redenção do género humano. A obra de Cristo na cruz é a manifestação do amor de Deus à humanidade: liberta o homem do pecado e condu-lo de novo ao seu estado original de filho de Deus (cf. SF 536-538).

A configuração com o Crucificado une-nos com a sua obra redentora, que começa necessariamente pela expiação do próprio pecado. O seguidor de Cristo sabe que só com a Cruz pode libertar-se dele, porque ela é «vitória sobre o pecado», é a «arma» necessária na luta contra o mal (OC V, 653).

O mistério pascal é o sinal supremo do amor de Deus. Por isso, quem se unir à Cruz encontra nela a força necessária para amar o próximo, sentindo como própria a missão de «libertar o mundo» da carga do pecado (OC V, 624). É a força apostólica que nasce da comunhão com o Crucificado: «unida a Ele és omnipotente como Ele… No poder da Cruz podes estar em todas a frentes… o teu amor misericordioso, o amor do coração divino levar-te-á a todas as partes» (Ib. 634). E está ligada intimamente ao sentido que a Cruz tem como redenção, enquanto caminho de recuperação da amizade com Deus. Pela Cruz recuperamos o estado de filiação divina: (Ib. 624-625). Mas aberta a toda a humanidade: «Desta forma encontram-se indissoluvelmente unidas a própria perfeição, a união com Deus, o trabalho para que o próximo alcance a união com Deus e a perfeição. E o caminho para tudo isso é a Cruz. E a pregação da cruz seria vã se não fosse a expressão de uma vida unida a Cristo Crucificado» (Ib. 450).

Um caminho que é possível graças à certeza da fé da vitória já realizada em Cristo: a vitória definitiva sobre o pecado e a morte.

*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 209-211.


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