Dom. Set 19th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

A INDIVIDUALIDADE

Javier Sancho*

 

É outro dos elementos sublinhados constantemente pela antropologia steiniana. Em parte como reacção quer diante das ideologias totalitárias que pretendiam converter os sujeitos em massa, quer diante das teorias relativistas ou individualistas, que faziam do indivíduo um ser completamente autónomo.

A individualidade recupera em Edite Stein para toda a pessoa a sua capacidade de ser, a sua “personalidade” ou a sua irrepetibilidade. E aqui radica a dignidade e a vocação do ser humano. O facto de ser confere a dignidade. Mas o homem não é um ser vazio, e apesar das limitações e dos diversos condicionalismos, cada um leva consigo um eu próprio que deve conhecer para poder realizar. Aí radica uma das principais chaves da realização e da plenitude de todo o ser humano: ser ele mesmo.

O tema da individualidade vê a luz já em Indivíduo e comunidade, um dos seus primeiros trabalhos. Assenta ali as bases para uma compreensão correcta da individualidade, que é «unicidade irrepetível e indissolúvel», entendida como uma qualidade irrepetível e única, E o núcleo desta individualidade radica no mais profundo do homem, na sua alma. Este elemento adquirirá um sentido ainda mais elevado em contacto com a revelação e a teologia.

a) Necessária para a compreensão do ser humano

Para Edite Stein a individualidade não é somente uma nota essencial do homem, mas prescindir dela suporia a incompreensão do homem: «Quando tratamos do ser pessoal do homem, roçamos de muitas maneiras outro problema que já encontramos noutros contextos e que devemos esclarecer agora se queremos entender a essência do homem, o seu lugar na ordem do mundo criado e a sua relação com o ser divino; trata-se do problema do ser individual (da individualidade) do homem…» (SF 483).

São muitas e relevantes as questões dependentes da justa compreensão do ser individual do homem: o que ele é, o seu lugar na criação, a sua relação com Deus. Em definitivo, da compreensão da sua individualidade o homem adquire um melhor conhecimento de si, da sua vocação, e do seu ser e estar no mundo e com Deus.

O «ser individual humano» apresenta-se a nós como um todo cheio de sentido que, no entanto, alcança a sua verdadeira plenitude na sua relação com o ser divino, no qual descobre o seu ser originário e vocação, o seu ser individual mas aberto e formando parte de um grupo no qual deve encaixar e desenvolver a sua individualidade. Comunidade e individualidade são dois elementos necessários na compreensão do homem e na sua realização.

Dizíamos que Edite fundamenta a individualidade na alma. A alma forma unidade com o corpo, por isso o seu carácter individual comunica-se, manifesta-se e realiza-se em toda a unidade do homem, constituindo-se num ser essencialmente individual (SF 447). Mesmo sendo uma nota essencial, e sabendo que a sua origem se encontra num acto criador de Deus (tal como afirma a doutrina da fé), não deixa de ser uma realidade «misteriosa» que nunca acabamos de captar  em todo o seu significado. É uma realidade «intocável» que, ao mesmo tempo, se constitui em «carácter» do ser da pessoa humana (cf. SF 516). A «individualidade» manifesta-se em todo o acto humano. É a «maneira de ser» da cada pessoa humana, que se exprime em cada instante do eu. É algo que se percebe, mas que no fundo permanece sempre «incomunicável» e intransferível (cf. ib. 483-484).

b) Implicações na vida da pessoa

O homem, para alcançar a sua plenitude, deve necessariamente realizar a sua individualidade. Mas, para a realizar, deve conhecê-la. Nesta questão, Edite faz-nos ver como todas as realidades que afectam o desenvolvimento do ser do homem vão profundamente implicadas: o conhecimento do seu ser, o grau de liberdade, o conhecimento e o desenvolvimento da sua individualidade, o seu lugar no mundo, o posicionamento do seu eu, a sua relação com os outros, com a criação e com o mundo. Por isso, pode afirmar que o conhecimento da própria individualidade identifica-se com o conhecimento da própria vocação; e isso é possível só desde uma vida espiritual autêntica, a saber, depende do grau de interioridade alcançado.

Este lugar central que a individualidade ocupa na pessoa humana, ajuda-nos a compreendê-la como valor essencial: «Pertence à essência do homem que cada indivíduo e a inteira humanidade alcancem aquilo para o qual estão determinados segundo a sua natureza num desenvolvimento temporal, e que este desenvolvimento está ligado à livre cooperação de cada um e à colaboração de todos» (SF 541). Por outro lado, que o seu desenvolvimento apareça ligado, tanto à pessoa como à comunidade humana na qual vive, manifesta-nos a corresponsabilidade humana como factor necessário para uma actuação efectiva da mesma.

Em última instância, o valor essencial e existencial da individualidade radica na sua origem, em que é dom de Deus para o homem e para a humanidade: «Deus, que imprimiu em cada alma um selo particular, une a cada uma de um modo especial e próprio com Ele. Da abundância da vida divina, que nenhum coração humano pode abranger, concede o Senhor a cada um especial mistério através do qual, Ele oferece um caminho incompreensível» (OC V, 582).

Ligar a «individualidade» com o acto criador de Deus leva consigo uma visão do ser humano muito especial, que sublinha a infinita dignidade de cada um: «Assim a alma individual com essa sua maneira de ser única já não é efémera; não está somente destinada a manifestar em si mesma a particularidade específica por uma duração passageira, e durante esta duração a transmiti-la aos seus descendentes a fim de que seja salvaguardada mais além da vida individual: a alma individual encontra-se destinada a uma vida eterna, o que permite compreender que deve reproduzir a imagem de Deus de uma maneira completamente pessoal» (SF 518-519).

Este texto de Edite Stein faz-nos ver a grande importância que para ela, adquire a questão da individualidade, considerada como peça chave no processo evolutivo da pessoa. A individualidade é o maior tesouro que o homem possui. Não é algo acidental nem sequer na vocação à união com Deus, mas algo essencial à mesma. Está em relação directa com o que significa cumprir a vontade de Deus. Com maior evidência encontramos esta ideia reflectida no seguinte texto: «Mas quando a vida terrestre chega ao seu fim e tudo o que era perecedouro se separa, então cada alma humana se conhecerá “tal como é conhecida”, quer dizer, tal como é diante de Deus: a saber, como Deus a fez ao criá-la, o fim para o qual a criou de maneira inteiramente pessoal, e o que ela chegou a ser na ordem da natureza e da graça e a isto há que agregar principalmente: em virtude da suas decisões livres» (Ib. 519).

Isto ilumina ainda mais o que implica o desenvolvimento da individualidade. O homem é chamado a realizar-se durante a sua vida, a chegar a ser aquilo que é. O homem deve actualizar a sua essência, «o que deve ser de forma completamente pessoal, caminha o seu caminho, e exerce a sua própria obra» (OC IV, 518). A plenitude do seu ser humano alcança-se só na medida em que se conhece e realiza a individualidade pessoal.

*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 172-173.


Imagem de Gerd Altmann por Pixabay