Dom. Jun 13th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

A FILOSOFIA EXISTENCIAL DE MARTIN HEIDEGGER

Javier Sancho*

 

a) Edite Stein e Martin Heidegger

 

Nalgumas fichas biográficas ficou evidenciado como Edite Stein conheceu a Heidegger desde a sua permanência em Freiburg. De facto, sabemos que enquanto Edite era assistente de Husserl, já Heidegger tinha entrado em contacto com Husserl e a fenomenologia. Por então, ainda Heidegger era um desconhecido no mundo da filosofia.

Edite teve oportunidade de dialogar com Heidegger em diversas ocasiões. Concretamente em 1918, com o qual, juntamente com Husserl, teve um interessante encontro no qual falaram de questões religiosas. Heidegger converter-se-á, depois, no assistente de Husserl.

Em 1929, por ocasião do 70 aniversário de Husserl, Edite teve contactou frequentemente com Heidegger, principalmente em vista à publicação do número especial que preparava do Anuário, em honra dos 70 aniversário de Husserl.

Mais adiante, em 1931, quando Edite tenta aceder novamente a uma cátedra na Universidade de Freiburg, terá que falar pessoalmente com ele. Ela própria nos diz que enviou o seu trabalho, Acto e Potência, a Husserl, Heidegger e Honecker para concorrer à cátedra de Freiburg.

A relação com Heidegger, pois, foi sempre a de um interlocutor filósofo com quem podia relacionar-se de igual para igual.

 

b) Composição do escrito e partes

O escrito steiniano, A filosofia existencial de Martin Heidegger (Martin Heideggers Existentialphilosophie), foi preparado como 2º Apêndice à sua obra SF. Portanto, redigiu-o enquanto estava no Carmelo de Colónia, em 1936.

Este segundo apêndice justifica-se pela temática que o une a quanto Edite desenvolveu em SF. Não se trata de fazer uma simples crítica, mas de contrapor ou comparar os resultados da sua ontologia com a de Heidegger, evidenciando os elementos débeis do sistema heideggeriano.

Aparece publicado, pela primeira vez, em ESW 6, em 1962. Em espanhol aparecerá em OC III.

Este escrito está dividido da seguinte maneira:

  1. Reconstrução do itinerário especulativo
  1. Análise preliminar do Dasein
  2. Dasein e temporalidade
  1. Considerações
  1. O que é o Dasein?
  1. É fiel a análise do Dasein?

III. A análise do Dasein é suficiente como fundamento para situar adequadamente a pergunta sobre o sentido do ser?

 

c) Conteúdo

Toda a obra em si é uma análise e uma crítica à obra heideggeriana de Ser e tempo, um escrito que teve um grande êxito desde a sua publicação. Edite propõe-se traçar algumas linhas fundamentais do pensamento de Heidegger dessa obra, para tomar algumas posições críticas frente a ele.

Começa, pois, procurando sublinhar essas linhas fundamentais a partir do objectivo que Heidegger se propõe: pôr novamente a pergunta sobre o sentido do ser. O autor de Ser e tempo dedica a primeira parte da sua obra a interpretar o «Dasein» (termo com o qual Heidegger identifica o ente, e cujo significado traduzido viria a ser: o «ser aí», na existência). Uma das explicações de Heidegger radica na análise do «dasein», enquanto é próprio e exclusivo de cada um, a sua existência é a sua essência. O «ser aí» é visto antes de tudo na quotidianidade, o ser-no-mundo, que se desdobra em: «no mundo», o «quem» que está no mundo, e o «ser-em». Mas ao «ser aí» pertence-lhe também o «ser com». Edite detém-se na análise destes conceitos.

Outra das questões realçadas pelo texto de Edite é a relação e a problemática do «ser aí» e o tempo ou temporalidade. É o tema que ocupa toda a segunda parte da obra heideggeriana. Analisam-se questões como: o «ser total» do «ser aí» e o «ser relativamente à morte»; o «poder ser» e o «estado de resolvido»; o «poder ser total» próprio do «ser aí» e a temporalidade como sentido ontológico da cura; temporalidade e quotidianidade; temporalidade e historicidade; e, por último, a temporalidade e a intratemporalidade como origem do conceito vulgar do tempo.

Apresentada a grandes traços a obra de Heidegger e as questões que levanta, na segunda parte Edite evidencia alguns pontos débeis do seu pensamento, e outros com os quais não está de acordo. Indicamos alguns desse pontos:

– Se o «ser aí» é o ser, que resta do homem se se prescinde do seu corpo e da sua alma? Edite defende uma separação de essência e «ser aí» no homem.

– Observam-se algumas lacunas na análise do ser. Edite considera a situação afectiva fundamental.

– O ser humano é definido como «ser atirado», lançado à existência. Mas isto não resolve a pergunta do «onde» provém, embora se procure sufocar. O ser atirado remete para o conceito de criatura.

– O conceito de existência aparece explicado, mas o conceito de «forma» permanece na obscuridade.

– Há diversas conceptualizações que, sempre na opinião de Edite, não aparecem suficientemente claras no discurso de Heidegger: o «se», «ser com», etc.

– A relação temporal também não aparece clara.

– A sua concepção da morte reduz-se somente ao aqui. Então, se o «ser aí» é um ser para a morte, a morte teria que esclarecer o sentido do «ser aí»…

Edite coloca muitas outras interrogações ao discurso ontológico de Heidegger, mas aqui nem sequer podemos enumerá-las. Edite chega à conclusão que a investigação realizada por Heidegger está guiada por uma certa concepção a priori do ser. Desde o início tudo está predisposto para demonstrar a temporalidade do ser. Não seguiu o método «fenomenológico» de deixar que o ser fale de si mesmo.


Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008. Pp. 138-139.