Dom. Set 19th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

A ESTRUTURA TRIDIMENSIONAL DO SER HUMANO: CORPO-ALMA-ESPÍRITO

Javier Sancho*

A grande maioria das investigações filosóficas realizadas por Edite são encaminhadas para a compreensão do ser humano, tanto em si mesmo como no seu ser relacional. É fundamental para Edite compreender a estrutura do homem em todas as suas dimensões. Disso vai depender a aplicação correcta e o êxito de todas as ciências que, de uma maneira ou de outra, têm que ver com o homem: a pedagogia, a psicologia, e até a mesma vida espiritual. Aqui podemos sintetizar apenas em grandes traços os elementos deduzidos da sua análise do homem visto a partir das três dimensões que o configuram: corporal, anímica e espiritual. Para uma maior compreensão e aprofundamento remetemos para as suas principais obras, mais concretamente a Estrutura da pessoa humana (OC IV, 555 ss).

 

a) Enquanto ser corporal

O homem mais do que como corpo (Körper) define-se como corporalidade, a saber, como corpo vivido como experiência da unidade pessoal (Leib). Daí que a sua principal característica – apesar de quanto de limitação espacial e temporal leva consigo –, é a sua vida. Por isso, o homem contempla o seu corpo como fundamento de tudo o que nele é vida.

Mas uma vida que não se reduz meramente ao instinto ou às reacções sensíveis, mas também se experimenta e vive como fundamento da sua vida espiritual (cf. SF 387 ss). Esta concepção implica uma revalorização da corporalidade ou do corpo para a vida espiritual, que no homem não se pode dar sem esta dimensão. Por isso, o corpo é para o ser humano fonte e expressão da sua vida espiritual. Uma vida espiritual que prescinda da materialidade do homem, anula o seu fundamento.

Edite Stein é consciente de que dentro da funcionalidade da corporalidade humana esta se vive também como limitação, como barreira nas ânsias de liberdade que o seu eu espiritual sente. No entanto, esta «limitação natural» assumida, serve de fundamento para uma formação autêntica e unificadora da corporalidade: «O fundamento sobre o qual se elevam a vida espiritual e a actividade livre e com o qual elas permanecem comprometidas é-lhes dado como matéria; e elas esclarecem, formam e utilizam este fundamento. A vida física e sensível do homem é formada de uma maneira pessoal e converte-se numa parte da pessoa. Contudo, nunca deixa de ser um fundo escuro. A tarefa da espiritualidade livre consiste em iluminá-lo cada vez mais, e em formá-lo de uma maneira mais pessoal durante toda a vida» (SF 387).

A partir daqui compreende a razão de ser uma ascese corporal, não como mortificação do corpo, mas como processo de integração do ser corpóreo a partir da vontade orientada para alcançar um fim concreto: o da unificação harmónica de todas as tendências a partir da consciência livre da pessoa. «A educação corporal – diz Edite Stein –  não é, pois, os cuidados dados ao corpo, nem um costume, mas uma direcção dada à vontade em ordem à informação do corpo segundo um plano livre e determinado de antemão, isto é, consciente dos fins que persegue e alcança» (SF 442).

Reduzir a corporalidade só a estes elementos, deixaria muito na sombra a totalidade do pensamento steiniano. No seu processo de estudo do corporal no homem, observa-o também do ponto de vista da sua constituição material, do movimento, da sua configuração orgânica, do seu carácter instintivo e sensorial, do processo vital e da sua constituição individual, etc…

 

b) Ser anímico

O homem não é um ser que tem uma alma, mas visto na sua unidade estrutural, é alma. A dimensão da alma desempenha um papel primordial na constituição da pessoa: porque a pessoa configura-se a partir de dentro, desde essa forma interior ou alma vital que é a fonte da sua vida (Cf. OC IV, 601 ss).

A esse princípio une-se outro de carácter teológico: a alma «é criada directamente pela mão de Deus» (SF 281), mas não como um ser em si, mas unida a um corpo ao qual dá forma: «por isso a alma humana não só um intermediário entre o espírito e a matéria, mas é também uma criatura espiritual, não só um produto do espírito mas também um espírito informante. Pois bem, de maneira nenhuma deixa de ser um intermediário nem um passo: enquanto forma do corpo, insere-se no espaço da mesma maneira que as formas inferiores: a sua própria espiritualidade leva em si os traços da sua atadura com a matéria; enfim, constitui um fundamento escondido sobre o qual se eleva a vida espiritual» (SF 440-441). O ser «forma do corpo» caracteriza o seu papel dentro da unidade do homem, que consiste fundamentalmente em «enchê-lo de sentido e de vida», favorecendo o desenvolvimento da sua vida espiritual (cf. SF 476).

Este desenvolvimento consiste principalmente em que a alma chegue ao conhecimento e posse do seu ser, que alcance o seu «centro» mais profundo onde encontra o lugar da sua liberdade e da sua união com Deus, onde se sente como na sua própria casa: «Na interioridade capta-se interiormente a essência da alma. Quando o eu vive nessa interioridade sobre o fundamento do seu ser, ali onde ele está totalmente como em sua casa e habita, adivinha então em parte o sentido do seu ser, experimenta a sua força concentrada neste ponto antes da sua divisão em forças separadas. E quando a sua vida se alimenta desta interioridade, vive plenamente e alcança o grau mais elevado do seu ser. Os elementos recebidos do exterior não subsistem só a título de recordações, mas estes podem transformar-se na carne e no sangue. Assim convertem-se nele numa fonte dinâmica dispensadora de vida» (SF 451).

O homem descobre a vida da sua alma na medida em que penetra na sua interioridade. Edite Stein reflecte sobre os caminhos alternativos ao da oração que podem conduzir o homem a penetrar na sua alma e conhecer-se. Fundamentalmente são três: a relação com os outros, a experiência pessoal, e a investigação científica realizada pelas ciências do espírito (cf. OC V, 99 ss). Caminhos que, depois de tudo, conduzem só até um determinado ponto. O centro mais profundo só é possível ser alcançado como dom da graça e do caminho da oração.

Sintetizando: para Edite a alma tem a missão de formar o corpo, unificar as pessoa e informá-la. O seu carácter vocacional radica no seu «ser»: levar o homem à união com Deus, pois procede d’Ele, e tornar-se presente e realizar-se no mundo e na história, pois é essa a sua natureza «unida a um corpo» com o qual forma uma unidade pessoal.

 

c) Enquanto espírito

O espírito ou a dimensão espiritual é própria e exclusiva dos seres pessoais. Por isso, no homem, é elemento constitutivo e qualificador, tanto do seu ser unitário como da sua dimensão anímica. O que distingue a alma do homem do resto das criaturas é a sua dimensão espiritual.

O espírito no homem é o que o torna capaz de sair de si, de se abrir. É, ao mesmo tempo, o seu «sentido e vida». Edite analisa esta dimensão já desde a sua primeira obra sobre a empatia. A ela remetemos para uma maior compreensão (cf. Modelo 331 ss).

*Javier Sancho. 100 Fichas sobre Edith Stein. Edições Carmelo, Avessadas, 2008.


Imagem de StockSnap por Pixabay