Sáb. Set 25th, 2021

Pe. Georgino Rocha 

Após um dia de trabalho cansativo, Jesus deixa a multidão que o acompanhava e ordena aos discípulos para fazerem a travessia do lago de Tiberíades. Era ao entardecer. A viagem ia fazer-se durante a noite favorável. Acomodado à popa, rapidamente adorme. Pouco tempo depois, as águas começam a agitar-se fortemente, os ventos a soprar, a tormenta a crescer a ponto de meter medo àqueles homens habituados às lides da pesca. Jesus não dava por nada; dormia profundamente. É acordado pelos discípulos que lhe gritam: “Mestre não te importas que pereçamos”? Mc 4, 35-41.

Luciano Manicardi, prior da comunidade monástica de Bose, afirma que: “A inação de Jesus é como que o eco do silêncio de Deus muitas vezes denunciados nos salmos, e os gritos alarmados dos discípulos fazem eco do desespero do homem que clama a Deus para que intervenha no momento de necessidade e angústia”. E menciona “situações de angústia e de morte evocadas simbolicamente pelo entardecer, pelo mar, pela tempestade, pelo risco de naufrágio, pelo sono”. E lembra a “angústia que nasce também da sensação de precariedade, de instabilidade, de fluidez em que acontece a travessia da vida. E ali a fé configura-se como passagem do medo à confiança, do estar centrado em si à abertura a Cristo Senhor, do temor paralisante da morte e da perda à confiança que suscita esperança mesmo na maior angústia e do abismo da morte…

O Mestre, diz-nos o texto de Marcos, levantou-se sereno e fala imperiosamente ao vento e ao mar e fez-se uma grande bonança. Que alívio e que espanto não terão vivido os discípulos neste momento. Mas Jesus quer ajudá-los a dar mais um passo na relação deles consigo. “Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?”

 “É possível, afirma Manicardi, seguir Jesus ainda sem saber quem Ele é verdadeiramente («Quem é este?») e sem ter ainda a fé. É um apego a Jesus devido mais à angústia do que ao amor: pode seguir-se por medo, portanto, não na liberdade, mas como os escravos. Comentário à Liturgia, 112.

Quantas manifestações de religiosidade se cultivam mais para “pôr” Jesus ao nosso serviço do que para o reconhecermos com Salvador e nos disponibilizarmos para colaborar com ele na realização do sonho de Deus, a salvação da humanidade e o cuidado da natureza?!  Quantas tempestades, como o covid e outras, vêm sacudir o nosso torpor e ajudar-nos a tomar consciência da precariedade das situações de vida que paeciam seguras e definitivas, forçando-nos a pedir socorro com confiança e a procurar chegar à margem com novo entusiasmo e vigor?! A fazer a travessia da fé.

“Por que sois tão cobardes? Ainda não tendes fé?, repete Manicardi. É necessário que deixemos a nossa ribeira para passar à outra margem. Embora a travessia do mar da vida nos produza medo, temos que ir mais além, ao outro lado, à margem da fraternidade e do compartir, à ribeira de sentir-nos irmãos uns com os outros, à margem da fé que dá sentido e consistência a nossas vidas. Nela encontraremos calma e bonança, águas tranquilas e verdes prados. Homilética, 378.

“Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem? Pergunta em aberto para todos os tempos e à qual somos chamados a dar resposta, pessoal e familiar, em Igreja. Com a certeza de que o Senhor sempre presente na barca da Igreja, continua a trazer a paz e a bonança ao seu povo batido pelas vagas na travessia do mar desta vida a caminho do porto seguro da glória celeste. Missal Popular, vol. I, Dominical.


Imagem de PublicDomainPictures por Pixabay