Oratório Peregrino

Um oratório à maneira de um viático para tempos de carestia
Uma proposta desenvolvida em parceria com

Irmãs do Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro


VII Passo | Orar é “conhecer verdades”

 

a Fala primeiramente

       de VERDADES em geral:

Orar é “conhecer verdades” (V 19, 12). “A oração é onde o Senhor dá luz para entender as verdades” (F 10, 13). “Espanta-me – diz já dentro da oração mística – de ver tantas verdades e tão claras”.

Ora bem, que verdade ou verdades sobre si mesma descobre Teresa na oração? Que verdades descobrirão aqueles que seguirem este mesmo caminho?

b O orante começará por descobrir, desde logo,

      o seu MUNDO INTERIOR:

“Um mundo interior espaçoso” (7M 1, 5). Quem ora sabe que “dentro de nós há outra coisa mais preciosa, sem comparação alguma, que o que vemos por fora” (C 28, 10). Dela mesma diz: “Vejo coisas no meu interior que me espantam”

 

Quem não ora, quem não entra dentro de si mesmo pela porta da oração, desconhece-se a si mesmo. Não faz ideia de quem é. E “não seria grande ignorância, que perguntassem a alguém quem era e não se conhecesse, nem soubesse quem foi seu pai, nem sua mãe, nem sua terra? Pois, se isto seria grande estupidez, sem comparação é maior a que há em nós quando não procuramos saber que coisa somos e só nos detemos nestes corpos; e assim, só a vulto sabemos que temos alma, porque o ouvimos e porque no-lo diz a fé” (1M 1, 2).

Teresa não pode falar-nos em linguagem mais directa. Compara a nossa interioridade à autêntica casa e “poderá haver maior mal do que não nos acharmos em nossa própria casa?”

“Esteja certo – dirá, em suma, a Santa a todo o possível orante – que fora deste castelo não encontrará segurança nem paz; que se deixe de andar por casas alheias, pois a sua está cheia de bens, se a quiser gozar; que ninguém acha tudo o que há mister senão em sua casa, em especial tendo tal Hóspede, que o fará senhor de todos os bens, se ele quiser não andará perdido, como o filho pródigo, comendo manjar de porcos” (2M 1, 4).

c A oração descobre-nos, enfim, a VERDADE

      da nossa PRÓPRIA VIDA:

A oração é um mergulho em profundidade que poucos homens aguentam. Até mesmo Teresa sucumbiu à tentação de deixar a oração para não se ver exposta à luz que impiedosamente a julgava. No silêncio orante, todo o mundo íntimo, esfarrapado e revolto desaba sobre o homem. Este é precisamente um dos maiores obstáculos que trava a decisão de muitos de iniciar o caminho da oração.

Ora, desde logo o homem de oração, habituado a CONHECER-SE, não atirará as culpas para os outros, nem se eximirá de responsabilidades que são exclusivamente suas. Por isso, será necessariamente COMUNITÁRIO, aberto e compreensivo com os outros, a partir da sua própria verdade. Precisará de se apoiar nos irmãos. Acresce ainda que a oração nos abre ao conhecimento de Deus.

Vamos entrar no caminho do conhecimento da verdade que Deus nos quer revelar, a nossa verdade e a de Deus.

«Eis o meu eleito,

sobre ele pus o meu espírito»

«Eis o meu eleito,

Aquele que eu sustenho,

O meu escolhido,

Em quem ponho as minhas complacências.

Pus sobre Ele o meu espírito…

Assim diz o Senhor

Que criou os céus e os estendeu,

E fez a imensidão da terra e

Tudo o que dela brota,

Que deu o alento aos que a povoam

E o sopro da vida aos que se movem sobre ela. (…)

Eu te chamei

Tomei-te pela mão

E te modelei.(…)

Eu sou Deus:

Este é o meu nome».

Is 42, 1-8

Convido-te a iniciar este momento fazendo silêncio e colocando-te diante de Deus, depois pergunta-Lhe: Senhor, quem sou eu para ti?

Não te respondas a ti mesmo. Permanece em silêncio de coração aberto à espera da resposta de Deus. Ele vai-te responder.

Muitas vezes com o passar do tempo vão-se apegando à nossa vida muitas coisas, que nos enganam e afastam do seu verdadeiro sentido. O sentido da nossa vida não vem do que fazemos, nem vem de fora, nem dos outros, mas vem Daquele que nos criou e por amor nos sustenta, Daquele que nos dá o nosso verdadeiro valor. Precisamos de nos conhecer e o nosso conhecimento mais autêntico vem-nos da nossa relação de amizade com Deus. Deus coloca-nos diante da nossa verdade. A nossa verdade é o que Deus nos diz.

Para Deus cada um de nós é especial, único,  é um “pedacinho” do mistério de Deus. Se quisermos é como uma peça dum puzzle. Cada um de nós é uma pequenina peça do grande puzzle que é o mistério de Deus e sem a nossa peça o mistério não fica completo. E é esta participação no mistério de Deus que me revela a minha própria identidade e realiza a minha individualidade. É o dom íntimo com o qual Deus marcou cada um de nós desde toda a eternidade. O mistério com o qual Deus pensou em mim desde sempre e me constitui num ser infinitamente valioso.

A nossa perfeição consiste em viver a imagem de Deus que cada um de nós recebeu. A minha perfeição consiste na realização da minha própria individualidade. Aqui está a minha riqueza, grandeza e santidade, que não é maior ou menor que a do outro.

Deus não pode querer a nenhum de nós menos que a seu Filho, porque senão não nos tinha destinados a ser filhos. E se Deus nos criou únicos é porque cada um de nós é sujeito do infinito amor de Deus. Cada um de nós é um filho muito amado do Pai, é um outro Cristo, e é nesta individualidade que Deus nos sustenta. O nosso Pai sustenta-nos no nosso ‘ser filhos’.

Deus olha cada um de nós e diz-nos:

«És o meu eleito,

Aquele que eu sustenho,

O meu escolhido,

Em quem ponho as minhas complacências.

Sobre ti pus o meu espírito…»

Escutar esta palavra que Deus nos diz no interior do nosso coração é deixarmos que Ele nos vá revelando quem somos para Ele, que nos mostre o mistério divino que gravou no nosso interior desde o momento em que nos criou, e, aceitarmos que Ele ponha sobre nós as suas complacências. Que Ele ponha sobre nós o seu espírito que nos vai recriando, nos vai tornando mais humanos e mais divinos.

O Deus Criador, o Deus da Vida, é o nosso Pai:

«Assim diz o Senhor

Que criou os céus e os estendeu,

E fez a imensidão da terra e

Tudo o que dela brota,

Que deu o alento aos que a povoam

E o sopro da vida aos que se movem sobre ela… »

O Deus que criou os céus e a terra e tudo o que nela germina, que deu o alento e a vida a todos os seres vivos, este Deus foi o que nos chamou à vida, o Deus de quem recebemos a vida e que nos mantém na vida. É Ele próprio, Deus-Pai que no-lo faz conhecer: «Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria. 16Eis que Eu gravei a tua ima­gem na palma das minhas mãos.» (Is 49, 15-16)

«Eu te chamei

Tomei-te pela mão

E te modelei.

Eu sou Deus: Este é o meu nome».

O Amor de Deus é sempre novo e manifesta-se sempre de uma maneira nova e cada um de nós é uma manifestação desse amor. O aprender a conhecermo-nos como manifestação desse amor leva-nos a encontrarmo-nos de forma pessoal com o que é o amor de Deus para “comigo” e o que sou “eu” para Deus.

Deus chama-me a ser seu filho, toma-me pela mão e modela-me pondo em mim o seu Espírito e diz-me: “Eu sou Deus – Teu Pai”.

Façamos silêncio e deixemos que estas palavras de Isaías ressoem no nosso coração e escute-mos o que nos diz o nosso Pai:

«És o meu eleito,

Aquele que eu sustenho,

O meu escolhido,

Em quem ponho as minhas complacências.

Sobre ti pus o meu espírito…

Eu te chamei

Tomei-te pela mão

E te modelei. (…)

Eu sou Deus:

Este é o meu nome».

Carmelo de Cristo Redentor

Imagem de PIRO4D por Pixabay