Sex. Out 22nd, 2021

 

Um espaço onde a Fé se torna Arte

Textos de Cardoso Ferreira

Artigo recolhido do Correio do Vouga
A paróquia de São Salvador deu as peças e a Câmara Municipal de Ílhavo proporcionou o espaço. Assim nasceu o Centro de Religiosidade Marítima de Ílhavo, um espaço onde mar, fé, arte e cultura se encontram.

“O que é a arte?  É a beleza! Se Deus é belo, através da beleza nós chegamos a Deus”, foi dessa forma que o bispo de Aveiro, D. António Moiteiro, definiu, de uma forma geral, as peças artísticas que estão patentes no Centro de Religiosidade Marítima de Ílhavo, inaugurado no passado dia 8 de agosto, e que se encontra instalado no renovado edifício do antigo quartel dos Bombeiros Voluntários de Ílhavo, situado junto à Igreja Matriz de Ílhavo.

Na cerimónia de inauguração desta estrutura, que resulta de um protocolo entre a Câmara Municipal de Ílhavo (CMI) e a Paróquia de Ílhavo, o pároco ilhavense, António Cruz, recordou que “ao longo de muitos anos a Fábrica da Igreja Paroquial de S. Salvador de Ílhavo foi acomodando e guardando uma vasta quantidade de peças de obras de arte e bens culturais de natureza religiosa”, a maioria das quais estava em armazém.

Como “era pena tão valioso e importante espólio não estar exposto para ser contemplado pelo público em geral”, com a inauguração deste espaço, “a Fábrica da Igreja disponibilizou-se a ceder o uso das referidas obras a este Centro de Religiosidade Marítima”, realçou o padre António Cruz, que enalteceu a colaboração institucional a paróquia de Ílhavo e a CMI.

Depois de dizer que “a extraordinária recuperação da igreja de Ílhavo está uma coisa linda”, até porque “as igrejas são monumentos importantes na vida das comunidades e marcos importantes das nossas terras”, a presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, Isabel Damasceno, afirmou que “este edifício acolhe marcos importantíssimos da memória desta terra, especialmente dos homens ligados à pesca do bacalhau que, com certeza, em momentos muito importantes das suas vidas se agarraram à fé e a tudo o que a religião traz de consolo para as nossas almas”, pelo que “é muito importante aproveitar este espaço para este fim, numa terra que já tem muitos apontamentos e muitas marcas da pesca do bacalhau”.

O presidente da Câmara Municipal de Ílhavo, Fernando Caçoilo, referiu que foi durante o seu primeiro mandato autárquico que surgiu a ideia de reconverter o antigo quartel, até porque se tinha oposto à demolição total do edifício, como tinha sido proposto. Por isso, avançou-se para uma solução que tinha por objetivo “desafogar a igreja matriz e dar vida ao resto do edifício”, solução essa que contou com a colaboração do arquiteto Paradela, autor do projeto do antigo quartel.

O autarca ilhavense evocou que com a evolução do projeto de reconversão do edifício e da futura utilização do mesmo, “fizemos um acordo com a paróquia porque ela tem um espólio riquíssimo que não estava ao dispor e ao serviço dos ilhavenses. A partir de hoje vamos ter todo esse espólio disponível para nós ilhavenses e para quem nos visita”, esclarecendo ainda que “todo o conceito de visitação deste edificado vai ser integrado no Museu Marítimo de Ílhavo”.

 

“Uma fé que não produz cultura é uma ideologia”

D. António Moiteiro aproveitou a inauguração do Centro de Religiosidade Marítima para afirmar que “a fé não é um sentimento, a fé é o acreditar numa pessoa, é Jesus, e nele entrar na comunhão de Deus”.

Por isso, “quando a fé é fundamental para a nossa vida, ela entra em todas as dimensões, e foi o que aconteceu aqui, em Ílhavo. Ílhavo e esta gente desenvolveu toda uma cultura da pesca e, sobretudo, do bacalhau. É evidente que no mar também lá está Jesus e também no mar os nossos pescadores invocavam Deus, e viviam a sua fé, à sua maneira, mas viviam a sua fé. O que é que isso significa? Uma fé que não produza cultura é uma ideologia, e aqui nós vemos que a fé cristã produziu cultura”.

O bispo aveirense considerou a igreja matriz de Ílhavo como uma das poucas igrejas monumentais existentes na Diocese de Aveiro, a qual “agora com este museu, este centro de Religiosidade Marítima”, forma “um conjunto maravilhoso”.

Depois de realçar que a “paróquia de Ílhavo, a vossa fé, produziu obras maravilhosas”, disse que “vós tendes aqui uma obra maravilhosa que é uma custódia, talvez do melhor que temos na diocese”.

Mais uma peça no puzzle da museologia de temática marítima em Ílhavo

Para além do Centro de Religiosidade Marítima, o Centro para a Valorização e Interpretação da Religiosidade Ligada ao Mar acolhe ainda a sede da Confraria Gastronómica do Bacalhau, uma sala polivalente e uma loja social.

Esta estrutura implicou um investimento de 1,4 milhões de euros, com Financiamento Centro2020 (Portugal2020) em 85%, inserido no Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano do Município de Ílhavo (PEDU), no âmbito do Plano de Ação de Regeneração Urbana de Ílhavo (PARU).

Santos em Porcelana da Vista Alegre

Um dos destaques nesta primeira fase expositiva do Centro de Religiosidade Marítima de Ílhavo é a coleção “Santos em porcelana da Vista Alegre”, constituída por 106 esculturas e quatro jarras, peças produzidas entre 1852 e 2011.

Essa coleção foi oferecida pelo capitão Carlos Manuel Teles Paião, e sua esposa, aos quais Fernando Caçoilo agradeceu a oferta dessa “coleção riquíssima de estatuetas”, que “nos sensibilizou muito. O nosso obrigado pela vossa forma como encaram a vossa terra e como colocam aquilo que é vosso ao dispor de todos”.

 

Primeira relíquia de Francisco Marto está em Ílhavo

“Há aqui na vossa paróquia uma outra peça que é a cruz peitoral do senhor D. Manuel Trindade. Porque é que eu faço referência a ela?”, perguntou D. António Moiteiro, respondendo ele próprio: “Porque o D. Manuel Trindade esteve na transladação dos corpos dos videntes Francisco e Jacinta para a basílica de Fátima. Eles estavam sepultados no cemitério. Deram-lhe uma relíquia que ele colocou na cruz peitoral. A primeira relíquia do Francisco Marto está aqui em Ílhavo”.

D. Manuel Trindade Salgueiro (1898- 1965) nasceu e morreu em Ílhavo. Foi bispo auxiliar de Lisboa e arcebispo de Évora, mas manteve sempre ligação ao mar e aos marítimos. O seu próprio pai morrera no mar, quando Manuel era uma criança.

Na sua condição de bispo da diocese, D. António Moiteiro fez votos para que “possamos continuar esta parceira noutras câmaras da nossa diocese para bem da cultura e para bem do anúncio do Evangelho”.