Dom. Out 17th, 2021
Notícia e foto recolhidas da Agência Ecclesia

«Os textos não se mudam, mas educam-se os leitores a entendê-los e a atualizá-los», afirma a Conferência Episcopal numa Nota de Esclarecimento

A Conferência Episcopal Portuguesa afirmou hoje numa “nota de Esclarecimento” a propósito da “leitura de São Paulo sobre as mulheres” que é necessário “interpretar textos e tradições” com origem noutras culturas, indicando o significado das palavras “amor” e “submissão”.

“Não se trata de mandar submeter ou depreciar ninguém, mas de cuidar e dar prioridade no dom e no serviço do dia a dia”, afirma a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) em comunicado enviado à Agência ECCLESIA.

A CEP lembra que é “claro para a Igreja e para quem quiser interpretar textos e tradições com origem noutras culturas e noutros tempos” que “os textos não se mudam, mas educam-se os leitores a entendê-los e a atualizá-los”.

“Não se mudam os versos épicos de Camões, porque não correspondem à mentalidade atual e até, em alguns casos, podem causar escândalo. Isso seria cair na arbitrariedade e na ditadura das modas e na imposição da cultura única. É por isso que se estuda Camões nas escolas, para que todos tenham acesso à beleza dos seus versos, dentro dos condicionalismos da sua época”, refere o comunicado da CEP.

A “nota de esclarecimento” hoje divulgada surge após comentários publicados nas redes sociais, com repercussão na comunicação social, a propósito de uma leitura da Bíblia, da Carta de São Paulo aos Efésios, lida nas Missas do último domingo em todas as igrejas do mundo, sobre o relacionamento familiar.

As primeiras afirmações do excerto da carta de São Paulo aos Efésios que que foi lido nas Missas do último domingo são: “sede submissos uns aos outros no temor de Cristo. As mulheres submetam-se aos maridos como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a cabeça da Igreja, seu Corpo, do qual é o Salvador”.

A CEP começa por referir que são afirmações “justamente lidas no contexto vivo e atual das perspetivas preocupantes da situação das mulheres no Afeganistão”, mas que é necessário “ver com atenção alguns aspetos da leitura de São Paulo, procurando fazer justiça ao sentido do texto”.

“O que causa ‘escândalo’, nos dias de hoje, é o conceito de ‘submissão’ proposto à mulher. Não se trata, porém, de algo exclusivamente aplicada às mulheres, mas a todos. A leitura começa precisamente por dizer: ‘Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo’. Em Paulo, esta submissão não significa menor importância ou subserviência, mas o dar prioridade aos outros, como forma de atenção e cuidado; não centrar a vida e o pensar em si próprio, mas no amor que deve regular todo o relacionamento entre pessoas”, indica o comunicado da CEP.

O documento acrescenta que “o ‘amor’ e a ‘submissão’ não se aplicam apenas a um dos esposos, mas são a lei básica do relacionamento humano, segundo o Evangelho.

“É à luz de Cristo que se entende a dimensão do amor, até à total entrega e ao dom da vida por aqueles que se ama. E é também essa a norma para a correta interpretação de qualquer autoridade, representatividade ou primazia. Não se trata de mandar submeter ou depreciar ninguém, mas de cuidar e dar prioridade no dom e no serviço do dia a dia”, afirma o comunicado

“Na perspetiva de Jesus, bem presente em Paulo, a liderança é serviço e dom de si mesmo, pois Ele veio “não para ser servido, mas para servir e dar a vida”. O verdadeiro exemplo e medida de submissão e de serviço, como dom e amor, é o próprio Jesus, para os esposos e para qualquer outro membro da família e da Igreja”, acrescenta.

A CEP afirma que a “Palavra de Deus permanece viva e atual e é importante que seja escutada sempre com a sua sonoridade original”, seguindo o exemplo de leitura de Jesus “ao relê-la e reinterpretá-la à luz da nova realidade que era Ele próprio e a situação daqueles a quem se dirigia”.

“Conservar a Palavra de Deus e a Tradição é continuar a fazê-las soar em assembleias vivas, como as pautas de música dos grandes autores, constantemente atuais, porque continuam a alegrar corações, a criar sonhos e a gerar estéticas novas, cada vez que se executam, conclui a nota de esclarecimento da Conferência Episcopal Portuguesa.

PR