(Uma parceria com o Correio do Vouga)
O Concílio de Niceia começou há 1700 anos, no dia 20 de maio de 325. Com estas Perguntas & Respostas fique a saber o essencial do Concílio que nos deu o Credo e a data da Páscoa. Segunda (e última) parte.
Como decorreram os trabalhos no Concílio de Niceia?
Niceia representou uma grande novidade por congregar todos os bispos cristãos. Nem todos compareceram, provavelmente apenas um sexto (três centenas entre 1800 bispos), mas a inovação é que a reunião era para todos, ecuménico – ao contrário de outros sínodos e concílios regionais. Nunca tal tinha acontecido na Igreja.
Juntando-se bispos de todos os lados (o imperador pagou o transporte e a estadia), produziu-se entre eles um enorme espanto. Grandes senhores sentavam-se ao lado de pastores de rebanhos (aqui, em sentido literal). Muitos dos bispos tinham no rosto as cicatrizes da perseguição de duas décadas antes.
Os trabalhos terão decorrido à maneira do senado romano: discursos detalhados, com argumentos e opiniões, usando muita retórica. Provavelmente, a ordem das intervenções seguiu a antiguidade dos bispos.
Qual era a “agenda” do concílio?
O concílio foi convocado para resolver a questão ariana, que defendia que o Filho era criado. Afirmações de Ário: “O Verbo não coexistiu desde toda a eternidade com o Pai”, “O Verbo foi criado do nada”; “O Verbo não é Filho, por natureza e propriamente dito do Pai”; “O Verbo começou a existir por um ato de vontade do Pai”; “O Verbo está por natureza sujeito à mudança, física e moralmente”.
Além disso, tinha de resolver a questão da celebração da Páscoa em datas diferentes.
Houve ainda um conjunto de outras questões, por vezes muito localizadas, como o cisma meleciano (condenação do bispo Melécio, que se apropriou de uma diocese durante as perseguições), a proibição da autocastração (que em alguns locais era entendida como cumprimento da expressão evangélica dos “eunucos pelo Reino de Deus” ou como modalidade de martírio após o fim das perseguições), a não proibição das relações conjugais do clero (em alguns locais do império começava-se a exigir o celibato dos padres; Niceia considera que deve continuar a liberdade nesta questão), a reconciliação dos “lapsi” (“lapsi” eram as pessoas que tinha negado a fé durante as perseguições; havia quem considerasse que nunca mais deveriam ser admitidas na Igreja; mas podem sê-lo com arrependimento e penitência pública), e mais algumas questões menores.
O que ficou decidido em relação à questão ariana?
Depois de um mês de discussões, os bispos chegam a um consenso que consiste na condenação de Ário e na aceitação de um Credo (ou Símbolo), que talvez tenha origem em Cesareia (há muita discussão sobre este aspeto), mas inclui um termo novo para explicar a relação de Jesus com o Pai. O termo é “homo+ousios”, literalmente, “da mesma substância”, ou “consubstancial”, para realçar a perfeita igualdade entre o Pai e o Filho.
No dia 19 de junho de 325, os bispos promulgam o Credo Niceno:
Cremos em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, e em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, único gerado do Pai, isto é, da substância do Pau, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai, por quem tudo foi feito, o que está no céu e o que está na terra, que por nós, homens, e pela nossa salvação desceu, encarnou, fez-se homem, sofreu, ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus e virá julgar os vivos e os mortos, e no Espírito Santo.
Quanto àqueles que dizem, “houve um tempo em que Ele não existia” e “antes de nascer, não existia” e “foi criado do nada”, ou que declaram que o Filho de Deus é de uma outra substância ou de uma outra essência, ou que foi criado ou está sujeito à mudança ou alteração, a Igreja católica e apostólica anatematiza-os.
O Credo quase obtém o consenso. Apenas alguns bispos (dois ou quatro, conforme as fontes) não assinam.
O Credo que se proclama atualmente nas missas vem todo de Niceia?
O Credo que proclamamos ao domingo inclui todo o primeiro parágrafo acima transcrito (com algumas adaptações), mas faz mais algumas afirmações sobre Jesus, o Espírito Santo e a Igreja – tudo acrescentado pelo Concilio de Constantinopla, em 381.
O que aconteceu a Ário depois de Niceia?
Ário foi condenado e os seus escritos queimados. Com mais dois bispos, o padre Ário foi exilado na Ilíria (onde hoje ficam países como a Sérvia e a Croácia). Três anos depois, regressa do exílio porque alguns dos seus seguidores convencem Constantino de não era herético. Mas Atanásio de Alexandria não fica convencido e não recebe Ário na diocese de origem. No ano 336, Ário quer ser recebido pelo bispo de Constantinopla, que não o quer aceitar como membro a Igreja. Constantino pressiona o bispo de Constantinopla para dar a comunhão a Ário e este entra triunfalmente na cidade, em procissão, com os seus seguidores, para receber a Comunhão. Por momentos Ário sai do cortejo, por necessidades fisiológicas, e não regressa. É encontrado morto, o que dá origem a muitas especulações. Teria sido envenenado? Ou seria um sinal dos céus para não receber a comunhão?
O arianismo acabou em Niceia?
O arianismo não acaba em Niceia nem com a morte de Ário. Os arianos continuam presentes no Oriente e crescem no Ocidente. Na Península Ibérica, os visigodos deixam a fé ariana no ano 589.
Depois de Niceia, novas questões surgem sobre Jesus, a sua natureza, a sua pessoa, a sua vontade, sobre o Espírito Santo, sobre a Mãe de Jesus. Todas estas questões podem ser lidas como o resultado do confronto da fé bíblica com a cultura greco-romama. Resolvem-nas os sete concílios ecuménicos, todos no Oriente: Concílio de Niceia I (325); Concílio de Constantinopla I (381); Concílio de Éfeso (431); Concílio de Calcedônia (451); Concílio de Constantinopla II (553), Concílio de Constantinopla III (680); e Concílio de Niceia II (787).
O que ficou decidido em relação à Páscoa?
O Concílio – sabe-se por uma carta à Igreja de Alexandria – decidiu: “Nós também lhe enviamos as boas novas do acordo relativo à sagrada Páscoa, isto é, em resposta às suas orações, esta questão também foi resolvida. Todos os irmãos do Oriente que até o momento seguiram a prática judaica, a partir de agora, observarão o costume dos romanos e de vocês e de todos nós que, desde os tempos antigos, mantivemos a Páscoa juntamente convosco”.
As dificuldades da determinação da Páscoa tinham a ver com o calendário que se seguia: o judaico (lunar), ou o romano (solar), e com a prática de se celebrar em qualquer dia da semana ou no domingo seguinte. Sendo a festa cristã mais importante, era estranha a celebração em diferentes momentos.
Do Concílio sai a ideia de unificação seguindo a prática romana (e de outros locais), que mais tarde fica consagrada na regra: celebra-se no primeiro domingo depois da primeira lua cheia da primavera, o que é uma adaptação da regra judaica e do seu calendário lunar (mas a Páscoa judaica é em qualquer dia da semana).
Uma crítica que se faz a Niceia é que é neste concílio que nasce o cristianismo? Tem fundamento?
De facto, algumas seitas (não as confissões cristãs, como os ortodoxos e o protestantismo, que aceitam Niceia) dizem que Constantino, com Niceia, é o fundador do cristianismo. A mesma ideia está presente no romance “Código Da Vinci”, de Dan Brown. Mas é uma especulação sem sentido, quer pela consolidação do Cristianismo antes de Niceia (dioceses, bispos, teólogos, escritos), quer pelas simpatias arianas de Constantino. O imperador Constantino tem ações ambíguas, de proteção, em relação aos arianos. E é batizado às portas da morte por um bispo ariano (ano 337). Talvez, na sua mente, o arianismo até servisse melhor às suas conceções de poder: um Deus no céu, um imperador na Terra, como que emanação divina, à semelhança do Filho. Não é assim a fé trinitária, nicena, católica.
Imagem: Ícone ortodoxo representando o Primeiro Concílio de Niceia