Dom. Jun 13th, 2021

Muitos prodígios há, nenhum maior que o homem

 

Belmiro Fernandes Pereira*

Artigo publicado no Correio do Vouga

 

Cresci no campo, entre cães e gatos, grilos, sapos, ralos e vacas-louras. Empurrei bois, touros, vacas e vitelas. Guardei ovelhas e cabras desalmadas. Brinquei com anhos e cabritos; corri atrás de galos, patos, garnizés e capões. Ajudei a apanhar galinhas, a esfolar coelhos, a matar o porco. Estacava diante das bravatas dos perus e das ameaças dos pavões. Acompanhei o voo do milhafre, segui revoadas de pombos. Ficava encantado a ver nuvens de estorninhos ou a chegada dos tordos e andorinhas. Persegui rolas, pegas e poupas, fui aos ninhos, de melros, carriças e gaios. Nunca gostei da caça: os cães lá de casa caçavam sozinhos.

Não me venham com a ‘dignidade’, com os ‘direitos’ dos animais. Direitos temos nós, os humanos. E deveres; por exemplo, o dever de cuidar bem dos animais. Essa é a grande conquista civilizacional que todos os povos e culturas devem ao mundo greco-romano e à tradição judaico-cristã.

Lemos na Bíblia, logo no relato da criação, Et ait Deus: “Faciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram; et praesint piscibus maris et volatilibus caeli et bestiis universaeque terrae omnique reptili, quod movetur in terra” (E disse Deus: «Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança. Que tenha a primazia sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, sobre os animais selvagens e sobre todos os répteis que rastejam pela terra», Gn 1, 26). O verbo praesint da versão latina, de longe a mais divulgada ao longo dos séculos – por isso se chama Vulgata, é geralmente traduzido por ‘dominar’, ‘para que domine sobre’, mas o verbo praesum significa etimologicamente ‘estar à frente’, ou seja, ‘presidir, comandar’ e, em contexto poético, até pode usar-se na acepção de ‘proteger’.

Os gregos, o povo antropoplástico por excelência, na sua incessante busca da natureza humana, da forma humana na arte, na filosofia, na literatura, na política, os gregos, dizia, estabeleceram como valor fundamental o ‘humanismo’, o homo mensura, o homem medida de todas as coisas. A formulação mais bela deste princípio encontra-se numa tragédia de Sófocles (séc. V a.C.). Na Antígona, vv. 332-333, o coro, na ode ao homem, celebra as conquistas do ser humano: Πολλὰ τὰ δεινὰ κοὐδὲν ἀνθρώπου δεινότερον πέλει·, «Muitos prodígios há, porém nenhum maior do que o homem». O adjectivo deinós significa ‘maravilhoso, prodigioso’, mas também pode ganhar a acepção de ‘terrível’. Tendo noção desta ambivalência, uma coisa é certa, por definição o humanismo é antropocêntrico; já o animalismo, não há como negá-lo, é reaccionário, muito reaccionário.

Eram claros estes valores ainda há pouco. Nas escolas, por exemplo, aprendíamos a dizer de cor as Vozes dos animais.

Palram pega e papagaio,
E cacareja a galinha;
Os ternos pombos arrulham,
Geme a rola inocentinha.

Muge a vaca, berra o touro,
Grasna a rã, ruge o leão
O gato mia, uiva o lobo,
Também uiva e ladra o cão.

Relincha o nobre cavalo,
Os elefantes dão urros,
A tímida ovelha bala,
Zurrar é próprio dos burros.

Regouga a sagaz raposa
Brutinho muito matreiro;
Nos ramos cantam as aves,
Mas pia o mocho agoureiro.

Sabem as aves ligeiras
O canto seu variar;
Fazem gorjeios às vezes,
Às vezes põem-se a chilrar.

O pardal, daninho aos campos,
Não aprendeu a cantar:
Como os ratos e as doninhas
Apenas sabe chiar.

O negro corvo crocita,
Zune o mosquito enfadonho;
A serpente no deserto
Solta assobio medonho.

Chia a lebre, grasna o pato,
Ouvem-se os porcos grunhir;
Libando o suco das flores,
Costuma a abelha zumbir.

Bramem os tigres, as onças,
Pia, pia, o pintainho;
Cucurita e canta o galo,
Late e gane o cachorrinho.

A vitelinha dá berros;
O cordeirinho, balidos;
O macaquinho dá guinchos,
A criancinha vagidos.

A fala foi dada ao homem,
Rei dos outros animais:
Nos versos lidos acima
Se encontram, em pobre rima,
As vozes dos principais.

(in Antero de Quental, Tesouro Poético da Infância)

*Professor. Membro da Comissão Diocesana da Cultura