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Pontes


Pontes ( III ) Terra—Céu

Miguel Oliveira Panão

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Impressionam-me as palavras do jesuíta paleontólogo Teilhard de Chardin SJ quando diz — «(…) meu Deus, apesar de me faltar o zelo-alma e a sublime integridade dos teus santos, no entanto, recebi de Vós uma enorme simpatia por tudo o que agita a massa escura da matéria; pois, eu conheço-me irremediavelmente como criança do céu e um filho da terra.» — Mas a razão de ser da nossa existência desde crianças e filhos, como ponte entre Céu e Terra, talvez seja mais profunda do que pensamos.

O que é o Céu? A experiência mais comum de fazer a ponte entre Terra e céu é a aeronáutica. Quando nos lançámos para o espaço e da Lua observámos o nosso planeta azul, aquele espaço que antes nos circundava, passou a ser uma ínfima parte de um vasto e incomensurável Universo. O céu azul ou estrelado ampliou-se e deixou (em certa medida) de ser céu. Passou a um vazio escuro cheio de raios cósmicos que desafia a nossa compreensão do mundo e estimula a nossa imaginação. Será que a criação de uma ponte entre a terra e o céu com a nossa ida ao espaço abriu antes um abismo?

Edgar Mitchell foi o sexto astronauta da NASA a pisar a Lua. Quando voltou da missão Apollo 14 disse — «A minha visão do planeta foi um vislumbre do divino.» Mitchell fez uma experiência profundamente espiritual que mudou a sua vida dando-se conta de que as estrelas eram a origem das suas moléculas e aquilo que antes era uma consciência intelectual tornou-se numa aceitação visceral da ligação física entre tudo o que existe no cosmos. Mais recentemente, também a astronauta Nicole Stott experimentou que no espaço — «estamos separados daquilo que conhecemos e amamos de um modo muito diferente, mas, ao mesmo tempo, sentia-me mais ligada do que nunca.» — uma ligação que acontecia — «ao contemplar o planeta, onde habitam todas as pessoas que amo, e aquelas que não conheço (…).» Afinal, o espaço não é um abismo, mas uma experiência de ponte entre céu e Terra.

Quando as pessoas elevam a sua cabeça ao céu, como se ao Céu se tratasse, fico a pensar se conseguem distinguir que o Céu em Deus não está no mesmo lugar que o céu da Terra. Onde está, então, o Céu? O que é, afinal, o Céu? Com toda a honestidade, não sei. Nem sei se alguém sabe. O que faz algum sentido para a minha limitada mente é pensar que o Céu é o lugar onde habita Deus. — «Pai nosso que estais nos céus…» — rezamos porque o coração de cada ser humano que ama como dom-total-de-si-mesmo pode ser (se se abrir a Deus) uma ponte entre o Céu e a Terra.

No dia 1 de novembro celebramos o dia de todos os santos e, depois, o dia dos fiéis defuntos. Todos os nossos entes queridos, ou pessoas que conhecíamos, ou ainda as que desconhecemos, mas que já partiram deste mundo, constroem uma ponte entre Terra e Céu. Uma ponte transformativa e envolta em Mistério. Um Mistério Eucarístico que Chiara Lubich do Movimento dos Focolares expressava de um modo simples dizendo —

«Se a Eucaristia é causa da ressurreição do homem, não poderá o corpo humano, divinizado pela Eucaristia, estar destinado a desfazer-se debaixo da terra para contribuir para a ressurreição do cosmos? Poderíamos então dizer que, em virtude do pão eucarístico, o homem se torna “Eucaristia” para o universo, no sentido de que é, com Cristo, semente da transfiguração do universo. Nesse caso, a terra comer-nos-ia, como nós comemos a Eucaristia, não para nos transformar a nós em terra, mas para que a terra se transforme em “céus novos e numa terra nova”. [1]

Um pensamento que encontra eco na oração de Teilhard de Chardin no seu “Hino do universo” ao expressar que

«Àquele que tiver apaixonadamente amado Jesus oculto nas forças que fazem morrer a Terra, a Terra apertá-lo-á ao desfalecer nos seus braços de gigante, e ei-lo que, com ela, despertará no seio de Deus.» [2]

Afinal, também a morte que nos parecia ser a separação definitiva entre ser e não-ser, à luz da Eucaristia, torna-se numa Misteriosa ponte entre Terra e Céu.

[1] Chiara Lubich, Um Caminho Novo, Ed. Cidade Nova, 2003.

[2] Pierre Teilhard de Chardin, Hino do Universo, Ed. Notícias, 1996.


Imagem de FelixMittermeier por Pixabay