Dom. Nov 28th, 2021
Modos de interação entre ciência e religião

Pontes


Pontes ( II ) Conhecido—Desconhecido

Miguel Oliveira Panão

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O Sol banha o nosso planeta com uma quantidade de energia que não podemos imaginar. Graças a essa energia e por um misterioso motivo que desconhecemos ainda, a vida emerge neste planeta. É como se viver fizesse parte do DNA do Universo quando estão reunidas as condições certas. E com o aumento de complexidade proveniente da multiplicidade de interacções entre os elementos de Gaia, a nossa casa comum, um organismo vivo como hipotisado pelo cientista James Lovelock, num grupo de hominídeos que nela habitam surge algo de extraordinário — a consciência.

A consciência é muito mais do que aperceber-se. É contactar a realidade sobressaída da rede de relacionamentos que nos desperta para a verdade sobre nós próprios e para a nossa existência. Em nós, o Universo ganha consciência de si e experimenta como nunca um desejo insaciável de querer saber. Mas sendo essa uma experiência interior, se não a explicitássemos, permaneceria escondida. Por isso, ao mesmo tempo que desejamos saber e conhecer, desejamos partilhar o que descobrimos, comunicando. E quem comunica o que conhece melhor, maior hipótese tem de sobreviver e deixar no mundo o seu legado. Basta pensar em Aristóteles. O curioso é que não sei se pessoas como Aristóteles comunicaram mais o que conheciam ou o que desconheciam. Talvez o estudemos ainda porque os seus pensamentos estejam mais impregnados de desconhecido do que conhecido. Porém, desde que o ser humano comunica, comunicando-se, faz algo inédito na história universal: converte energia em informação.

Todos reconhecemos que a evolução geológica que deu lugar à biológica acabou por dar lugar à tecnológica. E esta última conduziu a narrativa do mundo para a Era da Informação em que vivemos. Todos os dias produzem-se quantidades enormes de informação nova proveniente da mente humana. Tanta informação que se torna o impossível conhecer tudo, embora (quase) tudo esteja à distância de um mero clique. Mas estar informado não é o mesmo que conhecer. Quem conhece compreende a informação que tem diante de si. Podemos estar bem informados e conhecer muito pouco, mas isso não é mau de todo. É o vulto do desconhecido.

O desconhecido produz dois sentimentos muito fortes dentro de nós: medo e curiosidade. Recordo-me uma vez de entrar num caminho que desconhecia e o receio que sentia sobre o que estaria para lá da curva. Mais caminho, ou a dentadura de um cão do qual não conseguiria escapar? Não deixa de ser espantoso que, se a curiosidade nos leva a conhecer cada vez mais coisas, quanto mais conhecemos, mais nos apercebemos do quanto há para conhecer. Recordo o período em que lia vorazmente teologia enquanto demorava horas a medir no laboratório por ter lido tudo o que havia a ler sobre gotas. Recordo a impressão forte que o desconhecido deixava em mim, semelhante a uma sede quase insaciável de conhecer. Mas ao longo do tempo apercebi-me de algo que fazia a ponte entre o conhecido e o desconhecido: a experiência do tempo.

Compreender algo é uma mudança forte na nossa percepção do mundo e só dando tempo à experiência encontramos o fio de ouro que valoriza o que conhecemos, tanto quanto o que desconhecemos. Com o que conhecemos criamos as memórias para enfrentar o desconhecido. Com o que desconhecemos abrimos espaço dentro de nós para acolher o que é novo, ainda que seja somente para nós.

O acesso sem fricção à informação pode dar uma falsa sensação de conhecer, correndo o risco de agirmos sem compreender. Não é com uma pincelada apenas que se faz um quadro, mas de muitas pacientes e atemporais pinceladas onde cada detalhe tem um motivo, mesmo que o pintor não tenha consciência disso. O que ele faz que desconhece será para os outros o que poderão vir a conhecer ao contemplar a sua Obra. Se a informação é um elemento constitutivo do universo, mais fundamental do que a energia, leva-me a pensar como as encruzilhadas mais simples que acontecem há milhares de milhões de anos são como zeros e uns cuja origem desconhecemos, mas cujo resultado desse fluir de informação complexificou-se o suficiente para se tornar consciente de si. Nesse sentido, penso numa outra ponte entre o conhecido e o desconhecido: o Mistério. Uma realidade escondida que transforma e faz evoluir o que conhecemos com o que desconhecemos. Uma ponte que une a escuridão à luz, o temor à surpresa, o caos à ordem, e escava dentro de nós o espaço para nos renovarmos interiormente.


Imagem de jplenio por Pixabay