Sáb. Nov 27th, 2021
‘Subindo o Monte’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de autores carmelitas
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

O monte da perfeição

José Vicente Rodrigues*

 

1 – Os desenhos deste “Monte” têm duas finalidades: ser um papel, um esquema isento da perfeição, do caminho para a mais alta união com Deus. E, além disso, ser o esquema gráfico do livro da Subida do Monte Carmelo (1 S 13, 10). Neste comentário refiro-me ao desenho primitivo.

Notemos que no esquema se pintam três caminhos. À esquerda, o caminho de espírito de imperfeição: do céu, glória, gozo, saber, consolação, descanso. À direita, o caminho do espírito de imperfeição: da terra, possuir, gozo, saber, consolação, descanso.

2 – O caminho central chama-se caminho (senda) do Monte Carmelo espírito de perfeição: nada, nada, nada, nada, nada, nada. E ainda no monte, nada. O qualificativo de «senda» (lat. semita) indica que é apertado e estreito.

Para estabelecer um comentário ao esquema será melhor começar pelo cume ou pelo sopé do monte?

3 – É necessário dar uma olhadela ao cume, o ponto mais alto a que se quer subir. O cimo do “Monte” está representado pelo círculo central, símbolo de Deus, dentro do qual se escreve: Só mora neste monte honra e glória de Deus. A saber, aqui mora exclusivamente o próprio Deus. O homem procura a perfeita união com Deus. Com este objectivo, há que aventurar-se pelo caminho (senda) do meio, o único dos três que chega ao cume.

4 – Para começar a subir pelo caminho («senda») há que ler os versinhos escritos no sopé do Monte, pois, «são doutrina para subir a ele, que é o alto da união» (1 S 13, 10). Nas vinte e duas linhas dos versinhos e nas outras seis, em pura prosa, misturam-se palavras tipicamente sanjoaninas como tudo e nada. O modo de anunciar e introduzir estas palavras de ordem «para…» lembra o tom sapiencial do livro dos Provérbios: para aprender, compreender, adquirir, etc.

Aqui a doutrina se encripta em vir a gostar, saber, possuir, ser (numa dimensão sem medida), tudo. É um modo subtil e paradoxal de propor uma série de bem-aventuranças, como quem diz: bem-aventurado aquele que não quer ter, gostar, saber, possuir, ser nada, porque virá a ter, gostar, saber, possuir, ser tudo.

5 – O ponto-chave, e mais ainda, a força que articula todo o dinamismo que surge de todas estas palavras de ordem, centra-se nesse tudo e nesse nada. Para chegar ao «tudo», que se encontra no cume do Monte há que passar, obrigatoriamente, por e sobre o nada. Qualquer outra coisa, seja o que for, é absolutamente nada comparado com Deus, que é o TUDO. Assim o reafirma dez vezes num só capítulo (1 S 4; CH 1, 32).

6 – Desde este tudo e este nada se entendem os dois caminhos e o único caminho (senda). O apego aos bens assinalados nos dois caminhos será sempre e, em definitivo, um apego, um amor desmesurado a si mesmo. Pelo caminho central sobe-se sobre seis «nadas», e acrescenta-se, mais um nada, no fim do caminho. O nem isso, nem aquilo são a cantilena do nada para os bens da direita e da esquerda. Nenhum dos dois caminhos desemboca no cume, e, além disso, para escarmento, reconhecido pelos caminhantes, têm de confessar que não conseguiram nada com tudo isso.

Sentenças especiais:

7 – Pelo monte aparecem: paz, gozo, alegria, deleite (lado esquerdo); piedade, caridade, fortaleza, justiça (lado direito) e, no meio, mais em cima; sabedoria. São os frutos e os bens que a alma, que escala o cimo do Monte Carmelo, há-de possuir e desfrutar. A eles aludem as palavras de Jeremias (2, 7) que contornam o círculo central, símbolo de Deus: Introduxi vos in terram Carmeli ut comederetis fructum eius et bona illius (Introduzir-vos-ei na terra do Carmelo, para comerdes o seu fruto e os seus bens). Trata-se em parte dos frutos do Espírito Santo, em parte das virtudes, e em parte dos dons do Espírito Santo. João da Cruz fala uma vez dos doze frutos: «… se vão granjeando os doze frutos do Espírito Santo» (1 N 13, 11). Fala também explicitamente dos sete dons (CB 26, 3; 2 S 29).

8 – Dentro do círculo formado pelas palavras de Jeremias escreve horizontalmente as palavras: Só mora neste monte / honra e glória de Deus. Esta honra e glória de Deus, tão inacianas, aparecem em João da Cruz assim juntas várias vezes ou com ligeira variante: 3 S 17, 2; 1 S 13, 4 (duas vezes); 2 S 20, 4; 2 S 22, 11; 3 S 16, 2; 3 S 20, 3, onde fala disto como do «pressuposto que aqui levamos», de cujo pressuposto cf. 3 S 17, 2. E prossegue: 3 S 27, 4, 5; CB 9, 5; CB 40, 7; CH 4, 17; Ditos n. 160; Graus de perfeição, n. 4. Aqui no cume do Monte aparecem «honra e glória de Deus» insinuando que, desde estas coordenadas, se ilumina o caminho (senda) e para essa meta tende o escalador. Não esqueçamos que o cimo do Monte simboliza o mais alto estado de perfeição, a união da alma (homem) com Deus (Subida, argumento).

Seis confissões muito pessoais

9 – Quem escalou o Monte proclama por um lado: nada me dá glória e, por outro, nada me dá pena. É fácil compreender estas confissões na boca da alma chegada à perfeita união com Deus, em quem tem toda a sua glória e contentamento. Diz igualmente: quando já não o queria tenho tudo sem querer (direita, verticalmente). Significa que, ao não querer nada, encontra tudo em Deus, que satisfaz todas as suas aspirações e desejos.

Aqueles que seguiram pelos caminhos de imperfeição fazem também as suas confissões de sinal diverso: quanto mais o quis querer com tanto menos me encontrei (esquerda) e: quanto mais o quis buscar, com tanto menos me encontrei (direita). É um pouco o que comenta o Santo em 1 S 6, 6 ao explicar como os apetites desordenados «cansam e fatigam a alma».

E ainda no Monte nada

10 – Esta sentença, que coroa o caminho da perfeição, quer dizer o seguinte: «nada, porque está o Tudo = Deus, e porque a alma está desprendida e desapegada, desapropriada do nada das coisas criadas, que não são Deus, não quer nada, nem despreza nada. Coincide com a sentença sanjoanina: o que não tem nada, tem tudo (2 S 4, 5), e é sinal de que tem tudo quando e porque não quer nada; «e para ter a Deus em tudo, convém não ter em tudo nada» (Ct 17 a Madalena do Espírito Santo, Segóvia 18 de Julho 1589).

11 – Já por aqui não há caminho, porque para o justo não há lei, ele para si é lei. Esta sentença, que se lê no mais alto do Monte, como num arco final, está integrada por dois textos de São Paulo: lex iusto non est posita (1 Tm 1, 9 e o outro: ipsi sibi sunt lex (Rm 2, 14). O texto sanjoanino, fundindo os dois textos paulinos, afirma que quando havia caminho havia lei. E quem subia o Monte precisava das duas coisas, como de algo exterior a si mesmo, distinto de si, porque não tinha alcançado esse tão alto estado de justiça, de santidade, de perfeição (= união = comunhão com Deus = último fim e lei suprema) no qual a caridade se transforma na única verdadeira norma, com a qual, real e verdadeiramente, nessas alturas se supera em plenitude de cumprimento a formulação positiva de toda a lei. Não é libertar-se da lei, mas observá-la com perfeição, vindo a urgência e o facto desse cumprimento de dentro, não de fora. O Santo ilustra magnificamente tudo isto (CB 27, 8).

Resumo conclusivo

12 – Diante do Monte, que comentamos, entregue pelo Santo a Madalena do Espírito Santo, a primeira impressão que se recebe, «se se contempla a parte central, é a de estar diante de algo como as tábuas da Lei. Aqui o Moisés que, depois de se encontrar com Deus no mais alto do Monte, desce com essas tábuas e as sustém é João da Cruz. Como para ele a essência, a realidade mais profunda de Deus é o “Amor”, já podemos vislumbrar que essas tábuas contêm a lei do amor, capaz de o ensinar e de fazer subir até ao cume, onde mora o Senhor» (José Vicente, La escalada del Monte Carmelo, em «Teresa de Jesús», n. 61, Fevereiro de 1993, pp. 15-17).

13 – A substância doutrinal íntima, contida neste esquema sanjoanino, é riquíssima. Além de ser um desenho, de que se servia para instruir os seus, e ser o esquema gráfico da grande obra Subida-Noite, é evidente que nela se encontrará a interpretação e o comentário mais pleno. Por exemplo, 3 S cc. 18-45 fala longamente dos bens: temporais (c. 18-20), naturais (c. 21-23), sensuais (c. 24-26), morais (c. 27-29), sobrenaturais (c. 30-32), espirituais (c. 33-45).

O princípio geral em ordem ao uso ou diante destes bens é a mesma norma aplicada no gráfico: «… a vontade não deve gozar senão só daquilo que é glória e honra de Deus» (3 S 17, 2).

14 – A realidade que, na verdade, gera todo o esforço ascético e todo o movimento ascensional da alma pelo caminho (senda) do espírito de perfeição e animadora de todas as renúncias à direita e à esquerda, é a sentença escrita dentro do círculo central: só mora neste monte honra e glória de Deus.

15 – O caminho de perfeição – a senda central – é só um: tanto mais breve quanto mais recto, e tanto mais recto quanto mais breve, geometricamente. É também estreito ou senda (latim, semita, caminho estreito, sendeiro). Daí que, quem quiser caminhar por ele (ela) há-de estreitar-se. Se não houver isto, nem sequer poderá entrar por ele, não caberá. Não poderá nem caminhar e muito menos chegar ao cimo com todo esse carregamento. O Santo descreve, de modo gráfico, este facto (2 S 7, 7. 3).

16 – O segredo para percorrer o caminho ascensional, breve e seguro, está em viver as virtudes teologais, a mais autêntica norma e ordem pois, «estas virtudes têm por ofício apartar a alma de tudo o que é menos que Deus, (e), consequentemente, de a juntar com Deus» (2 N 21, 11).

17 – Quem renunciar evangelicamente a tudo o que não é Deus e guiado pela fé, esperança e caridade procurar só a Deus poderá subir ao cume do Monte para comunicar com Deus, sabendo que o objectivo da sua escalada e de tantas renúncias «é fazer de si mesmo altar no qual ofereça a Deus sacrifício de amor puro e louvor e reverência pura» (1 S 5, 7), não servindo a alma neste estado de união com Deus «de outra coisa senão de altar, no qual Deus é adorado em louvor e amor e só Deus está nela», pois «na alma não há-de faltar amor de Deus para ser digno altar, nem outro amor alheio se há-de misturar» (ibid.).

18 – A união = comunhão com Deus, Sumo Bem, traz consigo todos os bens e afugenta todos os males, pois, pela sua mesma natureza «o sumo bem» é «bem perfeito e suficiente que exclui todo o mal e cumula todo o desejo». Se antes, quando ia de caminho, para ir em busca do «tudo», renunciava ao nada e não se apegava a ele, agora muito menos se apegará quando já tem mais e melhor a «quem» «é o Tudo».

19 – «Tudo-Nada». Esta contraposição tem na pura linha doutrinal uma importância extraordinária (cf. 1 S 4); é o eixo e a espinha dorsal ou coluna vertebral de todo o livro Subida-Noite, cujo esquema gráfico ou pictórico é o desenho do Monte.

Além desta importância doutrinal o binómio assinala a fogo a realidade que cai sob a experiência viva da alma contemplativa e enamorada. Quando o Santo formula e repete «Tudo-Nada», coloca neste par de palavras toda a carga afectiva e ponderativa da experiência vivida e padecida. Como exemplo singular deste facto citamos a seguinte texto de CH 1, 32 e CH A 1, 26: «Como está posta [a alma] no sentir de Deus, sente as coisas como o mesmo Deus, diante do qual, como também diz David, mil anos são como o dia de ontem que passou (Sl 89, 4), e segundo Isaías (40, 17) todas as gentes são como se não fossem.

E esse mesmo tomo têm diante da alma, que todas as coisas são para ela nada, e ela é nada aos seus olhos. Só o seu Deus é para ela o tudo. A partir deste «sentir como Deus», a partir desta experiência, se compreende a força com que exprime doutrinalmente o seu pensamento sobre o «Tudo» e o «Nada» por todos os lados. O texto de Isaías tem na Vulgata alguns detalhes mais que o Santo não explica. Na sua totalidade, diz: «Omnes gentes, quasi non sint, sic sunt coram eo, et quasi nihilum et inane reputatae sunt ei». A palavra «inane» do profeta recolhe-a frei João frequentemente como «vazio», que usa 173 vezes.

20 – A partir da dialéctica sanjoanina do tudo e do nada entende-se a bem-aventurança do nada, do «ditoso nada» (Ct de 18 de Julho de 1589 a Maria de Jesus), tendo exortado a destinatária da carta a contentar-se «só em Deus», assegurando que «o pobre de espírito nas mínguas (escassez) está mais constante e alegre porque pôs o seu tudo em zero e em nada, e assim encontra em tudo largura de coração».

21 – Por fim, São João da Cruz faz o seu melhor comentário à figura do seu Monte em 2 S 7, pois, em definitivo, a única via, caminho ou senda para essas alturas de Deus é Cristo: caminho, luz, modelo, guia para quantos se aproximam de Deus. E Cristo é também o Monte a subir, transformando-se e assemelhando-se a Ele (CB 36, 6-8). Cristo é também o «Tudo». Assegura-o firmemente João da Cruz, quando, contemplando todo o panorama da história da salvação, e lançando-se desde o primeiro versículo da Carta aos Hebreus, afirma: «No qual dá a entender o Apóstolo que Deus ficou como mudo e não tem mais que falar, porque o que antes falava em partes (parcialmente) aos profetas já o falou no tudo (totalmente, na totalidade), dando-nos o “Tudo”, que é o seu “Filho”» (2 S 22, 4).

22 – «Os alpinistas costumam acometer a ascensão dos picos mais elevados durante a noite, com o fim de alcançar o cume ao despontar o dia; assim a subida mística do Monte Carmelo, será começada ao entardecer e continuada debaixo de um condensar-se das trevas, até ao irradiar do Sol imenso» (T. L. Penido, O itinerário místico de São João, Petrópolis, 1949, p. 138).

Anotação

Desde o Monte, preparado por Diego de Astor para a edição príncipe do Santo (Alcalá 1618), acumulam-se nas figuras do Monte, já no cume, muitos mais elementos dos que há no Monte por nós comentado, por exemplo as três virtudes teologais. Porque não se encontram no desenho mais primitivo chegado até nós? Na minha opinião, a ausência das virtudes teologais pelo cimo do Monte, como se fossem bens ou frutos a encontrar ali, justifica-se porque a alma sobe com elas «postas»; esta expressão não deve causar estranheza se lermos 2 N 21, todo o capítulo, no qual o autor fala admiravelmente do significado e da razão de ser do disfarçar-se. E, para se encontrar com Deus e libertar-se dos inimigos, o segredo do êxito está em revestir-se de fé (túnica interior branca), de esperança (gibão verde), da caridade (uma magnífica toga vermelha).

A presença das virtudes teologais, contudo, fica bem assinalada nas palavras de ordem dadas nas 22 linhas como doutrina para subir o Monte. Onde se fala de gostar (1 e 5) está presente a caridade, de saber (2 e 6) está presente a fé, de possuir (3 e 7) está presente a esperança. Além disso, a caridade está presente nos quatro primeiros dísticos onde se diz: «não queiras» (cf. 3 S 16). Também não devemos esquecer que onde está e actua uma das três virtudes teologais numa alma em graça ali estão presentes e operantes, activas, as outras duas, pois «estas três virtudes teologais andam em uno» (sempre juntas) (2 S 24, 8).


*Vicente Rodrigues. 100 Fichas sobre S. João da Cruz. Edições Carmelo, Avessadas. Pp. 215 -219.


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