Sáb. Out 23rd, 2021

 

Pe. Georgino Rocha

A liturgia da vigília da festa da Assunção de Nossa Senhora proclama o Evangelho do encontro de Jesus com a mulher do povo que ouvia entusiasmada a sua pregação. “Feliz Aquela que Te trouxe no seu ventre e Te amamentou ao seu peito”, exclama no meio da multidão. Era a ressonância vibrante do coração feminino àquilo que escutava e a fazia exultar. Era a voz dos humildes a erguer-se em público e a anunciar a felicidade que pressentia na Mãe de Jesus. Era a afirmação do valor da geração, da maternidade e da amamentação para o equilíbrio da relação “mãe e filho”, embora intervenham outros factores. Era um “hino” velado ao ambiente familiar onde se inicia a educação humana.

A festa é a exultação festiva que o povo cristão vive, após a intervenção de Pio XII que, em 1950, declara solenemente o dogma da Assunção e oficializa o que era professado há muitos séculos. O Papa, bom conhecedor da tradição da Igreja, antes de tomar esta decisão, tem em conta o sentir do povo cristão, designadamente bispos, teólogos e outros fiéis. Não porque tivesse dúvidas, mas por reconhecer que o Espírito Santo distribui os seus dons pelos fiéis e para proclamar com a sua máxima autoridade, a autenticidade da fé que, há séculos, se vinha professando na Igreja.

Jesus acolhe e valoriza a afirmação da mulher ouvinte. “Mais felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”. Não desdiz o parecer dado; pelo contrário, aponta claramente a importância de ser coerente e de pôr em prática o que se ouviu. Como fez Maria de Nazaré, a Mãe de Jesus. A resposta não desconsidera, mas enaltece a sua atitude constante e, nela, aos fiéis coerentes de todos os tempos. A nós, portanto.

“A fé da Igreja expressou a sua convicção de que a mãe de Jesus vive glorificada plenamente e para sempre, na totalidade do seu ser, não só espiritual, mas também espiritual”. Castillo.

O encontro de Jesus com a mulher corajosa da multidão dá-se nos caminhos da missão, nos locais onde as pessoas vivem e ganham o pão, nas cidades e aldeias. Com residentes e passantes que buscavam condições de sobrevivência. Com todos.

A Igreja em Portugal está a celebra a semana nacional do migrante e do refugiado que tem por lema “Somos todos migrantes e muito mais”. E, como diz D. António Vitalino, membro da equipa responsável por esta área: “Fomos criados para comunicar e para a comunhão. Isso apenas se consegue exercitando a caridade, deixando-nos comover, pois neles vemos a nossa humanidade e o próprio Cristo”. Os migrantes “obrigam a lutar contra os medos, contra o fechar-se em si mesmo”, em vez de se encontrar com a pessoa do outro, “sobretudo do mais frágil, levando à cultura do encontro”. “Hoje em dia temos de lutar contra o individualismo, a indiferença, ou mesmo contra a consideração dos migrantes como causa dos males que afetam as sociedades”.

Os migrantes e refugiados são o rosto mais expressivo de quantos se acolhem ao abrigo d’Aquela que é a aurora, o sinal de consolação e esperança do povo peregrino pelos caminhos do mundo. Que a Senhora da Assunção a todos acolha sob o seu manto de Mãe e a todos aponte o caminho da realização futura, a comunhão na feliz vida eterna.

Imagem: A Assunção da Virgem (Peter Paul Rubens | 1612-17)