Família de Aristides de Sousa Mendes viveu em Aveiro

Cardoso Ferreira (textos)

Parceria com o Correio do Vouga

Aristides de Sousa Mendes recebeu honras de Panteão Nacional (com um túmulo sem corpo) no dia 19 de outubro de 2021. Neste texto do jornalista Cardoso Ferreira, recorda-se a sua passagem por Aveiro, onde o pai do diplomata que salvou judeus foi Delegado do Procurador Régio. Aristides de Sousa Mendes e o seu irmão estudaram no Liceu Nacional de Aveiro – atual Escola Secundária Homem Cristo.

No ano de 1894, o casal José de Sousa Mendes e Maria Angelina Ribeiro de Abranches, acompanhados pelos filhos gémeos Aristides e César, chega à cidade de Aveiro, terra onde José de Sousa Mendes veio a exercer a função de Delegado do Procurador Régio, entre 26 de maio de 1894 e 11 de janeiro de 1899.

José de Sousa Mendes, filho de Manuel Alves de Sousa e de Raquel Augusta Mendes da Gama, nasceu no dia 2 de janeiro de 1857, no lugar de Beijós, freguesia de Cabanas de Viriato (concelho de Carregal do Sal). Maria Angelina Ribeiro de Abranches, natural de Midões, era filha de Silvério Coelho Pais do Amaral e de Maria dos Prazeres Ribeiro Abranches.

De acordo com informações prestadas pelo Conselho Superior de Magistratura, José de Sousa Mendes esteve na Comarca de Aveiro, como Delegado do Procurador Régio entre 26 de maio de 1894 e 11 de janeiro de 1899. No dia 12 de janeiro de 1899, tomou posse, na qualidade de Juiz de Direito de 3.ª Classe, da Comarca de Povoação, nos Açores, localidade onde só permaneceu alguns meses, uma vez que no dia 23 de junho de 1899 foi transferido para a Comarca do Redondo.

No “Almanak Aveirense” pode ler-se que no ano de 1895, na Comarca de Aveiro, e para além do  delegado do procurador régio, José de Sousa Mendes, exerciam funções o juiz de direito Alexandre de Sousa e Melo, o contador Joaquim Manuel Ruela, os escrivães de direito Arnaldo Augusto Álvares Fortuna, António Augusto Duarte e Silva, Silvério Augusto Barbosa de Magalhães, Evaristo Correia da Rocha e Leandro Augusto Pinto do Souto, os oficias de diligências Joaquim Teixeira da Costa, Silvestre José de Oliveira, João da Rocha Carola e António Augusto de Almeida, e o carcereiro Augusto José de Carvalho.

Ainda nesse mesmo ano de 1895, e como era noticiado na edição de 28 de setembro do jornal “Campeão das Províncias”, por iniciativa da Câmara Municipal de Aveiro, estavam a decorrer obras de reparação “na sala e anexos do tribunal judicial desta comarca”, pelo que o mesmo estava “em funcionamento na sala de sessões da câmara municipal deste concelho”.

José de Sousa Mendes faleceu no dia 25 de agosto de 1921, na cidade de Coimbra, onde exerceu a função de Juiz Desembargador no Tribunal da Relação de Coimbra. A esposa, Maria Angelina Ribeiro de Abranches faleceu em Cabanas de Viriato, no dia 7 de outubro de 1931.

Para além de bacharel em Direito, pela Universidade de Coimbra (1880), José de Sousa Mendes também tinha estudado Teologia nessa mesma cidade. Iniciou a sua carreira judicial no ano de 1885. Foi Delegado do Procurador Régio nas comarcas de Vila Nova de Foz Côa, de Mafra e de Aveiro. Como Juiz de Direito, esteve nas comarcas de Povoação, Redondo, Ancião, Arouca, Montemor-o-Velho, Mangualde, Ovar, Viseu e Coimbra. Nesta última cidade terminou a sua carreira judicial, nas funções de Juiz Desembargador da Relação de Coimbra.

 

José Paulo de Sousa Mendes

De nome completo, José Paulo de Sousa Mendes do Amaral e Abranches, nasceu em Aveiro, no dia 13 de outubro de 1895, poucos meses após a chegada dos pais a esta cidade. Não foi possível apurar o local e data do seu falecimento.

São poucos os dados biográficos sobre o irmão mais novo de Aristides de Sousa Mendes. No que se refere à sua atividade profissional, há informações que o referenciam como oficial (primeiro-tenente) da Armada e, posteriormente, como oficial da Marinha Mercante.

O seu filho, José Agostinho de Sousa Mendes, também seguiu a carreira militar na Marinha Portuguesa, atingindo o posto de capitão-de-ar-e-guerra, carreira que conciliou com a investigação histórica, principalmente na área da Marinha e da Arqueologia Naval, sendo autor da obra “75 anos no mar. 1910 – 1985”, publicada em 11 volumes, o último dos quais já a título póstumo.

Gémeos César e Aristides em Aveiro

Naturais de Cabanas de Viriato, César de Sousa Mendes nasceu ao final do dia 18 de julho de 1885, enquanto o seu irmão Aristides nasceu cerca de cinco horas mais tarde, já na madrugada do dia 19 de julho de 1885. Faleceram, respetivamente, nos dias 10 de agosto de 1955 (em Mangualde) e 3 de abril de 1954 (em Lisboa).

Até chegarem à cidade de Aveiro, os gémeos frequentaram escolas nas localidades onde o pai exerceu funções. No entanto, os cinco anos do ensino liceal foram realizados no então Liceu Nacional de Aveiro (edifício onde atualmente está instalada a Escola Homem Cristo), deixando este estabelecimento de ensino no final do ano letivo 1899/1900.

Há biógrafos de Aristides de Sousa Mendes que referem que nos anos letivos 1900/1901 e 1901/1902, e até ingressarem na Universidade de Coimbra, no ano de 1902, os gémeos continuaram em Aveiro.

A par dos estudos, e também devido às possibilidades económicas dos pais, os dois irmãos interessam-se por literatura e música. Por esse motivo, Aristides aprendeu a tocar violoncelo e piano.

De acordo com as informações publicadas no “Anuário do Liceu Nacional de Aveiro”, referentes aos cinco anos letivos em que César e Aristides frequentaram essa escola, que tinha por reitor Francisco Augusto da Fonseca Regala, os gémeos tiveram, no ano letivo de 1895/96, os seguintes professores: João da Maia Romão (Desenho), Álvaro de Moura Coutinho de Almeida Eça (Literatura Portuguesa), José Rodrigues Soares (Francês), Albino Dias Ladeira de Castro (Inglês), Manuel Rodrigues Vieira (História e Latim), Ildefonso Marques Mano (Geografia e Filosofia) e José Marques de Castilho (Latim). No ano letivo 1896/1897, os professores foram: Álvaro de Moura Coutinho de Almeida Eça (Português), José Rodrigues Soares (Francês), Manuel Rodrigues Vieira (Geografia e História), João da Maia Romão (Desenho), Ildefonso Marques Mano (Ciências Naturais e Latim) e António Carlos Cardoso de Lemos (Latim).

Os professores no ano letivo 1897/1898 foram: José Rodrigues Soares (Francês), Albino Dias Ladeira de Castro (Inglês e Alemão), Manuel Rodrigues Vieira (Português), Álvaro de Moura Coutinho de Almeida Eça (História), João da Maia Romão (Desenho), José Marques de Castilho (Latim), Elias Fernandes Pereira (Matemática) e Ildefonso Marques Mano (Geografia).

No ano letivo 1898/1899, os professores foram: Manuel Rodrigues Vieira (Português, Geografia e História), José Rodrigues Soares (Francês), José Marques de Castilho (Latim), Albino Dias Ladeira de Castro (Inglês e Alemão), Manuel Gonçalves de Figueiredo (Matemática), Elias Fernandes Pereira (Ciências Naturais) e João da Maia Romão (Desenho). Finalmente, no ano letivo 1899/1900, os professores foram:  Ildefonso Marques Mano (Português e História), José Marques de Castilho (Latim), José Rodrigues Soares (Francês), Albino Dias Ladeira de Castro (Alemão), Manuel Rodrigues Vieira (Geografia), Elias Fernandes Pereira (Ciências Naturais) e Francisco Augusto da Silva Rocha (Desenho).

No ano letivo 1899/1900, o quinto ano era frequentado por 12 alunos: César e Aristides de Sousa Mendes, Alfredo Rodrigues Coelho de Magalhães (de Frossos), Álvaro dos Santos Pato (de Troviscal), Caetano Tavares Afonso e Cunha (de Pardilhó), Dinis Severo Correia de Carvalho (do Porto), Fernão Corte Real da Fonseca (de Águeda), Jaime Dagoberto de Melo Freitas (de Aveiro), Jaime Pinto Osório (de Nova Goa), Joaquim Augusto Tavares da Silva (de Aveiro), Manuel Ferreira Canha (de Aveiro) e Manuel de Vasconcelos C. Meneses (de Marco de Canaveses).

No último ano em que frequentaram o Liceu Nacional de Aveiro, os irmãos Sousa Mendes aparecem como internos do Colégio Aveirense. Esse internamento poderá dever-se ao facto de em meados desse ano letivo (janeiro de 1899), o pai ter sido colocado nos Açores, e no mês de junho no Alentejo (Redondo), podendo este ter sido acompanhado pela esposa e pelo filho mais velhos, ficando os gémeos em Aveiro.

Carreira diplomática de Aristides e César  

Apesar de formados em Direito pela Universidade de Coimbra (1907), os irmãos César e Aristides seguiram a carreira diplomática, área em que se especializaram nessa mesma universidade, no ano de 1910.

Aristides de Sousa Mendes é mundialmente conhecido por ter passado milhares de vistos a judeus e outros perseguidos pelo regime nazi em França, conseguindo assim salvar milhares de vidas, facto que, no entanto, lhe ditou o fim da carreira diplomática e o condenou a um final de vida na pobreza.

Um dado menos conhecido da carreira diplomática de Aristides de Sousa Mendes é o facto de, em 1928, então Cônsul de Portugal na cidade espanhola de Vigo, ter sido escolhido pelo governo português para transportar a Irmã Lúcia (a única vidente de Fátima então ainda viva) de Coimbra para o convento de Tuy (Espanha).

César de Sousa Mendes foi nomeado Ministro dos Negócios Estrangeiros quando Salazar tomou posse como Presidente do Conselho de Ministros (primeiro-ministro).

Muito menos mediático do que o irmão Aristides, César de Sousa Mendes também ajudou a salvar algumas pessoas perseguidas pelo regime nazi. No ano de 1939, quando César Sousa Mendes era Embaixador de Portugal em Varsóvia, a capital polaca foi invadida pelas forças alemãs, tendo o diplomata português abrigado na cave da sua casa vários polacos durante cerca de três semanas que, desse modo, se salvaram dos intensos bombardeamentos de que a cidade foi alvo.

Na primavera do ano seguinte, César de Sousa Mendes chefiou temporariamente a missão diplomática portuguesa na Letónia, para onde levou Cecylia Dolata, tornando-a membro fictício da sua equipa diplomática. A seguir, autorizou o cônsul em Riga a emitir um passaporte português para essa polaca, que corria risco de vida no seu país, poder fugir para Portugal, país onde tinha trabalhado durante dez anos como professora de línguas.