Dom. Jun 13th, 2021
‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)

Edith Stein*

[III parte]

Mas podemos dizer ainda esse «faça-se a tua vontade» quando não possuímos nenhuma certeza do que a vontade de Deus exige de nós? Temos ainda alguns meios para permanecer nos seus caminhos, quando a luz interior se extingue? Efetivamente, há meios, e tão poderosos, que o desviar-se do caminho traçado, por muitas possibilidades que haja, torna-se absolutamente improvável. Deus veio ao mundo precisamente para nos salvar: para nos unir consigo e nos unir com os outros, para conformar o nosso querer com o seu.

Ele conhece a nossa natureza, e conta com ela, e por isso dispôs todas as coisas para nos ajudar a alcançar a meta. O divino Menino tornou-se nosso Mestre e disse-nos o que devemos fazer. Não basta ajoelhar-se uma vez por ano diante do presépio, e deixar-se vencer pela magia da Noite Santa para que toda uma vida humana seja invadida pela vida divina. Para obter esta plena compenetração é necessário manter durante toda a vida uma relação diária com Deus, escutar a Palavra que Ele pronunciou e que nos foi transmitida, e ater-se a esta Palavra. Sobretudo rezar, como o próprio Salvador nos ensinou e sempre tão insistentemente recomendou. «Pedi e recebereis». Esta é a promessa certa que veremos atendida. E quem cada dia reza com o coração o seu «Senhor, faça-se a tua vontade» pode crer que não desfalecerá na obediência à vontade de Deus, mesmo quando lhe falte uma certeza subjetiva.

Além disso, Cristo não nos deixou órfãos. Enviou o seu Espírito para nos ensinar todas as coisas; fundou a sua Igreja, guiada pelo seu Espírito, e pôs nela os seus representantes, pela boca dos quais o seu Espírito continua a falar-nos com palavras humanas. Nela reuniu os crentes em comunidade, e quer que cada um responda pelo outro. Deste modo, não nos deixou sós; e quando faltar a confiança no próprio discernimento, e mesmo a fé na própria oração, vem sempre em nosso auxílio a força da obediência e o poder da intercessão.

«Et Verbum caro factum est» [E o Verbo se fez carne]. Eis o que verdadeiramente aconteceu no estábulo de Belém. Mas cumpriu-se ainda de uma outra forma: «Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna». O Salvador, que sabe que somos seres humanos e que como tal permanecemos, que cada dia devemos lutar com as debilidades humanas, vem em ajuda da nossa humanidade de modo verdadeiramente divino. Assim como o nosso corpo de carne necessita do pão quotidiano, do mesmo modo também o corpo divino em nós necessita incessantemente de se alimentar. «Este é o pão descido do céu». Naquele que verdadeiramente faz deste pão o seu pão quotidiano, cumpre-se cada dia o mistério do Natal, a Encarnação do Verbo. Este é certamente o modo mais seguro de manter permanentemente o «Unum esse cum Deo», de integrar-se cada dia de modo mais forte e mais profundo no Corpo místico de Cristo. Sei bem que a muitos este parecerá um pedido demasiado radical.

Para a maior parte dos que se convertem, na prática, significa uma transformação radical de toda a sua vida, exterior e interior. Mas é precisamente isto que deve acontecer! Dar lugar, na nossa vida, ao Salvador eucarístico, de modo que possa transformar a nossa vida na sua: é pedir muito? Temos sempre tanto tempo para tantas coisas inúteis, para lermos toda a espécie de notícias inúteis em livros, revistas, jornais, para estarmos sentados ociosamente em qualquer café, para conversarmos na rua durante um quarto de hora ou meia hora: tudo «dissipações», nas quais gastamos o próprio tempo e as próprias energias de modo fragmentado. Não seria verdadeiramente possível arranjarmos uma hora pela manhã na qual não nos dispersemos, mas nos recolhamos, em que não malgastemos, mas antes acumulemos energias para sustentar todo o dia?

Porém, é certamente necessário mais do que uma hora. Devemos viver as outras horas na base daquela, de modo que a ela possamos retornar. Já não é possível “deixarmo-nos distrair”, nem mesmo temporariamente. Não podemos escapar ao juízo daqueles com quem nos relacionamos diariamente. Mesmo que não nos digam explicitamente uma palavra, percebemos qual a atitude dos outros em relação a nós.

Procuraremos adaptar-nos ao ambiente e, se não for possível, a vida em comum tornar-se-á num tormento. O mesmo acontece também na relação quotidiana com o Salvador. Tornamo-nos sempre mais sensíveis ao que lhe agrada e ao que lhe desagrada. Se anteriormente estávamos de um modo geral satisfeitos connosco, agora tudo será diferente. Descobriremos muitas coisas que será preciso mudar, e mudar-se-á o que se puder. E descobriremos algumas coisas que já não são apropriadas e positivas, e que todavia não mais se podem mudar. Tornar-nos-emos então pouco a pouco muito pequenos, muito humildes; tornar-nos-emos muito pacientes e indulgentes com a palha nos olhos dos outros, porque conseguiremos ver a trave nos nossos; finalmente aprenderemos a suportar-nos a nós mesmos à luz inexorável da divina Presença, e a abandonar-nos à misericórdia divina, que pode libertar-nos de tudo o que rouba as nossas energias.

Será um outro modo, diferente, de estar satisfeitos connosco mesmos: passar de ser um “bom católico” que “cumpre o seu dever”, lê um “bom jornal”, “vota como se deve” mas acaba por fazer o que lhe parece e apraz, que é viver nas mãos de Deus com a simplicidade da criança e a humildade do publicano. Quem avança por este caminho, já não mais voltará atrás.

Eis o que significa ser filhos de Deus: tornar-nos pequenos. Mas, significa, ao mesmo tempo, tornar-nos grandes. Viver eucaristicamente significa sair das angústias da própria vida e inserir-se no horizonte infinito da vida de Cristo. Quem procura o Senhor na sua Casa, não quererá tê-lo sempre ocupado falando-lhe de si mesmo e das suas preocupações. Começará a interessar-se pelas preocupações do Senhor. A participação no Sacrifício eucarístico quotidiano arrasta-nos, sem nos darmos conta, na grande corrente da vida litúrgica.

As orações e os gestos da celebração litúrgica tornam a representar à nossa alma, no decorrer do ano litúrgico, a história da salvação, e fazem-nos penetrar sempre mais profundamente no seu sentido. E o próprio Sacrifício [eucarístico] imprime em nós sempre mais o mistério central da nossa fé, eixo da História da Salvação: o mistério da Encarnação e da Redenção. Quem poderá participar com empatia de espírito e de coração na Santa Eucaristia, sem ser ele próprio tocado pelo espírito de sacrifício, sem ser tomado pelo desejo de ser, ele próprio e a sua pequena existência pessoal, colaborador na grande obra de redenção do Salvador?

Os mistérios do cristianismo formam um todo indivisível. Se mergulhamos num deles, somos conduzidos também a todos os outros. Assim, o caminho de Belém conduz forçosamente ao Gólgota, do presépio à Cruz. Encontramo-nos precisamente a meio do ciclo litúrgico do Natal: há vinte dias celebrámos o Natal do Salvador; dentro de vinte dias será a Candelária, a festa da Apresentação de Jesus no Templo, festa com a qual se fecha o ciclo litúrgico do Natal. Quando a Virgem levou o Menino ao Templo foi-lhe profetizado que uma espada haveria de trespassar a sua alma, que aquele Menino seria ocasião de queda e de ressurgimento para muitos em Israel, um sinal de contradição. Foi o anúncio das dores, o anúncio daquela luta entre a Luz e as trevas, que já se tinha manifestado no estábulo de Belém.

Este ano a festa da Candelária e a Septuagésima quase coincidem: a celebração da Encarnação e a preparação para a Paixão. Na noite do pecado brilha a estrela de Belém. Sobre o esplendor que se difunde do presépio projecta-se a sombra da Cruz. A Luz extingue-se nas trevas de Sexta-Feira Santa, mas brilha como o sol na manhã da Ressurreição. «Per Passionem et Crucem ad resurrectionis gloriam»: é o caminho do Filho de Deus feito homem. Com o Filho do homem, através do sofrimento e da morte, à glória da Ressurreição: é o caminho de cada um de nós, é o caminho de toda a humanidade.

* Edith Stein, A Mensagem de Natal. Edições Carmelo, Avessadas 2013. pp 15-20.
Imagem: Natividade – Josefa de Óbidos [1630-1684]