‘Duas Asas’ – rubrica dedicada ao pensamento e escritos de Edith Stein
(Parceria com o Carmelo de Cristo Redentor – Aveiro)
A maternidade é elemento constituinte da feminidade, entendida esta como o carácter peculiar da mulher. A sua actuação como valor sobrenatural concretiza-se na solicitude pelo outro, em levar à plenitude os autênticos valores humanos, tanto na sua vida pessoal como na dos outros. A mulher é por isso um instrumento privilegiado na mão de Deus, com uma vocação sublime e imprescindível no âmbito não só da Igreja, mas também de toda a humanidade.
Edith Stein*
I.A autêntica maternidade…
«A autêntica maternidade é, ao mesmo tempo, uma vocação natural e sobrenatural: a natural consiste em educar os filhos para esta vida e conduzir as suas forças físicas e anímicas para o melhor desenvolvimento; a sobrenatural, formar filhos de Deus ajudando-os a que participem da vida eterna. Esta segunda função, ainda que corresponda prioritariamente à Igreja e aos padres, compete, em segundo lugar, ao educador na escola, que muitas vezes tem que compensar o que os outros não podem realizar.
Ganhar filhos para o céu, eis a verdadeira maternidade – uma maternidade espiritual que é independente da maternidade física –, a mais bela, sublime e cheia de alegria, ainda quando requer não menos preocupações, sacrifícios e fadigas que a maternidade física.
Despertar a centelha do divino no coração de uma criança, fazer crescer nela a vida divina e vê-la desenvolver-se, ou ajudar a acender a vida da graça na alma apagada, degenerada ou abandonada de um adulto afastado de Deus, e poder contemplar o extraordinário processo de transformação que numa tal alma se realiza, e colaborar como instrumento: isto é testemunho e preparação para o céu e uma alegria que não é deste mundo.
Tal maternidade espiritual é capaz de cumular de sentido a vida humana, mas esta só é possível em seres humanos cuja alma tenha sido cumulada e fecundada por Cristo. Se se quer começar a sério, acontecerá então o que disse antes sobre a virgindade consagrada. Aquele que é destinado à vocação do celibato, deverá acolhê-la como um chamamento de Cristo. A mulher que ouve este chamamento, deve prender a mão que Deus lhe estende e deixar-se guiar por ela. Deve, pois, ainda que não pertença a uma congregação religiosa, reclamar para si o título honorífico de “sponsa Christi”, e estar consciente da assistência especial que o Senhor concede aos consagrados ao seu serviço.
Se deixam espaço na sua vida quotidiana para a obra do Senhor – recolhendo forças para o trabalho diário na mesa do Senhor, cuidando uma amizade confiada com Deus em permanente oração, buscando n’Ele conselho, consolação e ajuda, vivendo a vida divina em estreita união com a Liturgia, durante o ano litúrgico –, então a sua alma se cumulará mais e mais da vida de Cristo e aproximará espontaneamente esta vida divina de todos os homens com os quais entra em relação.
Uma tal vida cheia do amor divino, que desperta vida divina, alimenta, protege e desenvolve, é a mais alta e santa maternidade, o mais alto e santo desenvolvimento da vocação da mulher.
Em todo o coração humano, mesmo no daqueles que estão afastados de Deus – precisamente nestes –, vive a nostalgia por um amor compreensivo e desinteressado. E onde algo deste amor se lhe oferece, abre o seu coração em gratidão e amor recíproco. Por outro lado, o coração habitado pelo amor de Cristo apercebe-se instantaneamente se os outros seres humanos estão cheios do mesmo espírito; e quando tais almas se encontram, sentem-se imediatamente unidas no amor dos autênticos filhos de Deus. Deste modo, é impossível que uma vida de comunhão com Deus seja solitária ou vazia de amor. O coração de Deus é a fonte inesgotável de onde a vida humana pode tornar-se rica e proveitosa, e a fonte que pode levar a vocação feminina à sua mais bela perfeição».
II. Órgão essencial…
«A mulher é órgão essencial nesta maternidade sobrenatural da Igreja, fundamentalmente com a sua maternidade corporal. Para que a Igreja alcance a sua perfeição – ligada ao alcance do número de membros estabelecido –, a humanidade tem que continuar a crescer. A vida da graça pressupõe a vida natural.
O organismo corpóreo e espiritual da mulher está formado para a função da maternidade natural, e a procriação dos filhos foi santificada pelo sacramento do matrimónio e, deste modo, assumida no processo vital da Igreja. Mas a participação da mulher na maternidade espiritual vai muito mais além; ela está chamada a favorecer nas crianças a vida da graça. A mulher é um órgão imediato da maternidade sobrenatural da Igreja e participa desta maternidade sobrenatural. E isso não se reduz só aos próprios filhos.
O sacramento do matrimónio inclui fundamentalmente a missão recíproca de favorecer ou fazer nascer a vida da graça no cônjuge; além disso, é próprio da mãe incluir na sua preocupação maternal a todos os que vivem dependendo dela; e, finalmente, é missão de todo o cristão suscitar e promover a vida de fé em toda a alma, sempre que seja possível. A mulher é chamada de modo particular a esta missão, pela posição peculiar em que se encontra perante o Senhor.
A narração da criação põe a mulher junto ao homem como ajuda proporcionada, para que actuem juntos como um ser único. A mulher ligada por um matrimónio autenticamente cristão, quer dizer, por uma unidade de vida e amor indissolúvel com seu esposo, representa a Igreja, esposa de Cristo.
III. Maria é o símbolo…
«Maria é o símbolo mais perfeito da Igreja porque ela é protótipo e origem. Ela é um órgão particularíssimo: o órgão do qual foi formado todo o Corpo místico, inclusive a própria Cabeça. Pela sua posição orgânica central e essencial é chamada gostosamente o coração da Igreja.
As expressões corpo, cabeça e coração são imagens com as quais se pretende expressar uma realidade. A cabeça e o coração desempenham no corpo humano funções fundamentais: os outros órgãos e membros dependem desses dois no seu ser e actuar; e entre cabeça e coração há uma ligação especialíssima.
O mesmo sucede com Maria que, pela sua especial união com Cristo, necessita de uma ligação real – entendido como místico –, com todos os outros membros da Igreja, união que supera qualitativa e quantitativamente a união que se dá entre os membros, união semelhante à existente entre mãe e filho, superior à existente entre os filhos. Chamar a Maria de Mãe não é uma simples imagem. Ela é nossa Mãe em sentido real e eminente, num sentido que transcende a maternidade terrena. Ela gerou-nos para a vida da graça quando se entregou a si própria, todo o seu ser, o seu corpo e alma à maternidade divina.
Por tudo isto ela é-nos muito próxima. Ama-nos, conhece- nos, empenha-se em fazer de nós o que temos que ser; sobretudo, quer-nos conduzir à união mais íntima com o Senhor. Isto é válido para todos os homens; tem necessariamente uma importância particular para a mulher. Na sua maternidade natural e sobrenatural, e na sua esponsalidade com Deus, continua de certo modo a maternidade e esponsalidade da Virgo-Mater.
E assim como o coração de uma mulher nutre e sustenta todos os seus órgãos corporais, assim podemos crer que Maria colabora ali onde uma mulher cumpre com a sua missão feminina, do mesmo modo que a colaboração de Maria está presente em todas as actividades da Igreja. Mas uma vez que a graça não pode actuar nas almas se estas não se abrem à sua presença, do mesmo modo Maria não pode realizar plenamente a sua maternidade se os homens não se lhe abandonam. As mulheres que desejam corresponder plenamente com a sua vocação feminina, em todos os modos possíveis, alcançarão o seu fim de um modo mais seguro se, além de ter presente a imagem da Virgo-Mater e de procurar imitá-la na sua actividade formativa, se confiam à sua direcção e se abandonam totalmente à sua guia. Ela pode formar à sua imagem todos os que lhe pertencem».
IV. Por último, a mulher…
«Por último a mulher, independentemente da profissão que realiza e corresponda esta ou não às suas inclinações, pode influir em todos os lados com a sua feminidade, e conseguir óptimos resultados.
Onde quer que se encontre, juntamente com outros homens, pode encontrar a ocasião para ajudar, aconselhar ou sustentar. Se a operária ou empregada está um pouco atenta aos homens que trabalham com ela no mesmo ambiente, encontrará essa palavra amável, a pergunta adequada pela qual conseguirá que lhe abram o coração oprimido, compreenderá o que os faz sofrer e poderá ajudá-los: ali onde haja necessidade de afecto e de ajuda maternal.
Por isso, podemos resumir todas as características femininas consideradas na palavra maternidade. Mas, tem de ser uma maternidade que não se feche no círculo estreito dos familiares ou amigos, mas que esteja disponível para todos os que estão cansados ou oprimidos, segundo o exemplo da Mãe da Misericórdia. Por isso, tem de enraizar-se no amor universal de Deus.
Resumindo: a feminidade oferece-nos uma missão excelsa, levar à plenitude os valores humanos em si e nos outros. Ser instrumentos nas mãos de Deus e realizar a sua obra no lugar onde Ele nos coloca: esta é a nossa missão. Se a cumprimos, realizamos então o melhor de nós para o nosso ambiente e, por conseguinte, também para todo o povo».