Dom. Nov 28th, 2021

Deixai-vos transformar pelo Senhor da vida

Se nós temos esperança em Cristo apenas para esta vida,

somos os mais miseráveis de todos os homens” (1Cor 15,19)

 

 

  1. A fé e a esperança numa vida nova

No Evangelho vemos o olhar de Jesus pousar com especial benevolência sobre aqueles que o mundo não vê ou não quer ver, aqueles que estão privados do necessário para viver, do pão e da esperança, do trabalho e da dignidade, de alguém que os ame e restitua vida.

Movido pela compaixão, Jesus diz: “Jovem, Eu te digo: levanta-te!” (Lc 7,14). “O morto sentou-se e começou a falar, e Jesus entregou-o à sua mãe” (Lc 7,15). Na narrativa da filha de Jairo, perante a súplica do pai, Jesus imediatamente se dirige para sua casa. Toma a mão da menina e diz: «Menina, Eu te digo: levanta-te» (Mc 5,21-43). Somente quem é Senhor da vida pode falar com autoridade e com palavras que fazem aquilo que exprimem! Jesus restaura, assim, a vida destas famílias e suscita a fé de todos os intervenientes na narração.

Quando o coração se enche dos bens da terra, parece não restar lugar para Deus. “Eis agora o tempo favorável; eis o tempo da Salvação” (2Cor 6, 1-2). A Quaresma é um tempo para acreditar, ou seja, para receber a Deus na nossa vida permitindo-Lhe «fazer morada» em nós (cf. Jo 14,23)É um desafio a refletirmos que somos mendigos dos dons de Deus, recorrendo a Ele com a ousadia da fé e confiança no seu amor: a deixarmos morrer o homem velho para nos revestirmos do homem novo.

  1. A Quaresma, momento forte para rever a caminhada

A vida cristã compara-se a uma caminhada que deve ser percorrida na escuta atenta de Deus e na observância dos seus planos. Jesus veio para curar o coração do homem, para dar a salvação, e pede a fé n’Ele. É preciso criar-se uma consciência cristã capaz de fomentar intenções, hábitos e comportamentos em conformidade com a sua Palavra. No episódio da ressurreição de Lázaro (Jo 11) vemos que, na ausência de Jesus, há doença, morte, sofrimento e desânimo. Com a presença de Jesus, as pessoas voltam a acreditar na vida, surge a solidariedade e a vida nova (11,43-44).

Viver segundo a carne significa, em S. Paulo, uma vida conduzida à margem de Deus: o “homem da carne” é o homem do egoísmo e da autossuficiência, cujos valores são o ciúme, o ódio, a ambição, a inveja, a libertinagem (cf. Gal 5,19-21); viver segundo o Espírito significa uma vida vivida em Deus, pautada pelos valores da caridade, da alegria, da paz, da fidelidade e da temperança (cf. Gal 5,22-23).

O itinerário de conversão leva a reconciliar-nos com Deus e a viver plenamente a vida nova em Cristo: vida de fé, de esperança e de caridade. A ser testemunhas do tempo novo em que Deus renova todas as coisas (cf. Ap 21,1-6), “sempre dispostos a dar a razão da nossa esperança a todo aquele que no-la peça” (1Ped 3,15). Mediante o encontro pessoal com Cristo Redentor, o jejum, a oração e a esmola são as condições para a nossa conversão e sua expressão. O Papa Francisco, na mensagem para a esta Quaresma, afirma que “o jejum, a oração e a esmola – tal como são apresentadas por Jesus na sua pregação (cf. Mt 6,1-18) – são as condições para a nossa conversão e a sua expressão. O caminho da pobreza e da privação (o jejum), a atenção e os gestos de amor pelo homem ferido (a esmola) e o diálogo filial com o Pai (a oração) permitem-nos encarnar uma fé sincera, uma esperança viva e uma caridade operosa”.

  1. A Quaresma de cada um de nós

No contexto de preocupação em que vivemos devido à pandemia Covid-19, onde tudo parece frágil e incerto, falar de esperança poderia parecer uma provocação. Diz-nos o Papa Francisco que o tempo da Quaresma é feito para ter esperança, para voltar a dirigir o nosso olhar para a paciência de Deus, que continua a cuidar da sua Criação, não obstante nós a maltratarmos com frequência (cf. Enc. Laudato si, 32-33.43-44).

Para concretizarmos esta esperança proponho algumas ações, deixando à criatividade de cada uma das nossas paróquias a melhor forma de as concretizarem.

 

           1ª – Quarta-feira de Cinzas

– Na manhã desse dia os sacerdotes e os diáconos têm a manhã de reflexão e oração sobre o tema “Seguidores de Cristo até à cruz”.

– Este ano não é possível a celebração das cinzas de forma comunitária. Tendo em conta a proposta da nossa “Caminhada da Quaresma”, a família, enquanto Igreja doméstica, faz a leitura do Evangelho e o diálogo proposto e, no final, o pai ou a mãe impõe as cinzas a todos os membros da família, rezando uma destas orações “Arrependei-vos e acreditai no Evangelho” ou “Lembra-te, homem, que és pó e ao pó hás de voltar”.

           2ª – Retiro quaresmal

O Bispo diocesano fará todas as terças feiras da Quaresma, às 21 H, uma reflexão sobre o Evangelho de S. Marcos, o evangelista do ano. Os temas podem ser acompanhados no site da diocese em www.diocese-aveiro.pt.

           3ª – Atenção à família

O nosso plano pastoral continua a prestar atenção à família. Propomos que este tempo seja propício à constituição de uma pequena equipa de pastoral familiar que, juntamente com o pároco e a equipa diocesana, possa ajudar a viver as alegrias e as dificuldades das famílias. As catequeses feitas o ano passado poderão ajudar a consolidar esta equipa paroquial.

           4ª – Renúncia quaresmal

           A prática da esmola representa uma forma concreta de socorrer quem se encontra em necessidade e, ao mesmo tempo, uma prática ascética para nos libertarmos do apego aos bens terrenos. Este aspeto concretiza-se na chamada “renúncia quaresmal” que cada fiel é chamado a fazer para partilhar os bens materiais com os mais necessitados. Este ano, o produto desta renúncia, na nossa diocese de Aveiro, será destinado ao Fundo de Emergência Social, da Cáritas Diocesana, como forma de partilha com os que mais sofrem os efeitos desta pandemia. Mesmo sem a celebração comunitária da Eucaristia, pode canalizar-se a nossa renúncia pessoal para esta conta da Diocese: NIB 0269 0736 00209383063 95 [titular: Fábrica da Igreja Catedral, banco: Bankinter].

           5ª – O sacramento da Reconciliação

           A Quaresma é também um tempo forte de conversão, concretizado na celebração do sacramento da Reconciliação. Quando houver uma certa normalidade nas celebrações comunitárias – Quaresma ou tempo pascal – serão dadas orientações para a sua concretização.

O Senhor da nossa vida, do nosso lar, da nossa atividade, dos nossos planos… seja o Caminho que nos conduz à Páscoa. O convite à conversão ressoa para cada um de nós. Se queremos viver uma vida que seja realmente pascal, temos de procurar essa vida em Deus. A atitude a que Jesus nos chama, é a de viver nos braços do Deus Pai, de não ter medo e de quem espera por um novo amanhecer.

Que este tempo penitencial seja para cada cristão tempo de autêntica conversão e de conhecimento intenso do mistério de Cristo, que veio para nos dar vida e vida em abundância.

Aveiro, 10 de fevereiro de 2021

† António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro