Dom. Jun 13th, 2021

Domingo de Páscoa

O encontro com Jesus, fonte de vida nova

 

O acontecimento da Ressurreição está presente nas três leituras de hoje. Na primeira leitura S. Pedro anuncia o Kerigma e termina com o que S. Paulo, mais tarde, chamará a justificação pela fé: “Quem acredita nele recebe, pelo seu nome, a remissão dos pecados” (v. 43).

O primeiro anúncio difundido entre os discípulos em Jerusalém foi essencialmente o testemunho partilhado das várias experiências do encontro com o Ressuscitado.

Esta é a experiência de Maria Madalena, que após o encontro com Jesus foi anunciar aos discípulos: «Vi o Senhor» (Jo 20,18). Mais tarde, aqueles mesmos discípulos, depois de se encontrarem com o Ressuscitado, disseram a Tomé: «Vimos o Senhor» (20,25). Quer a afirmação de Maria quer a dos discípulos, pressupõe o reconhecimento de que Jesus foi constituído Senhor pela sua Ressurreição, expressando assim uma convicção de fé posterior a este primeiro anúncio, e que se baseava numa experiência pessoal capaz de transformar o desânimo dos discípulos num entusiasmo contagiante.

Todos os acontecimentos à volta da morte de Jesus, narrados nos Evangelhos, mostram que os discípulos não foram suficientemente capazes de acompanhar o Mestre… A paixão e a morte contradiziam tudo o que Jesus tinha feito e dito…

Mas, também chama a atenção o facto de eles não terem desistido… Entre a vontade de continuar e as dúvidas que a morte levantou, vemo-los a procurar juntos algumas respostas para perceber o significado de tudo o que se tinha passado…

Pedro, no discurso dos Actos dos Apóstolos, fala em nome do grupo: ”nós somos testemunhas”; “nós, que comemos e bebemos com Ele…”

As suas palavras não são saudosistas nem de lamento… Ele proclama uma Boa Nova para todos os tempos e lugares: “Deus não O abandonou mas ressuscitou-O”…

A partir do momento da ressurreição o protagonismo passa para o grupo, para a comunidade, a Igreja: ”Jesus mandou-nos pregar ao povo e atestar que Ele foi constituído juiz dos vivos e dos mortos…” A missão é proclamar que é Ele que salva; e a ressurreição é o principal sinal da salvação…

A Páscoa de Jesus é uma ocasião propícia para pensarmos a sociedade e a nossa vida cristã de uma forma diferente. Temos de ser protagonistas de uma economia ao serviço de todas as pessoas – «Exorto-vos a uma solidariedade desinteressada e a um regresso da economia e das finanças a uma ética propícia ao ser humano» (EG 58). Empenharmo-nos numa nova cultura ecológica e, se alguma lição temos a tirar desta pandemia, serão o respeito e a defesa da vida em todas as idades, sobretudo dos mais frágeis – «Precisamos que, ao lado da ecologia da natureza, existe uma ecologia que podemos designar “humana”, a qual, por sua vez, requer uma “ecologia social”. E isto requer que a humanidade (…) tome consciência cada vez mais das ligações existentes entre a ecologia natural, ou seja, o respeito pela natureza, e a ecologia humana» (Querida Amazónia, citando Bento XVI). Como cristãos, precisamos de ir ao essencial do Evangelho, despindo-nos de tantas roupagens que escondem, por vezes, a novidade do ser cristão – «A Igreja deve escutar, elevar-se e debruçar-se sobre as dores e as esperanças das pessoas segundo a misericórdia, e deve fazê-lo sem ter medo de se purificar a si própria, procurando assiduamente o caminho para melhorar» (Papa Francisco).

Desejo a todos uma santa Páscoa e que Jesus ressuscitado nos dê esperança, força e confiança num futuro melhor que todos queremos construir.

+ António Manuel Moiteiro Ramos, bispo de Aveiro

Sé de Aveiro, 12 de abril de 2020