Bioética e sociedade
(Parceria com o Centro de Estudos de Bioética)
Carlos Costa Gomes*
Se Deus faz mesmo parte da nossa vida, onde é que Ele se nota nas nossas escolhas que fazemos e nas ações que realizamos?

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- Vivemos numa sociedade que nunca teve tanta informação. No entanto, e, ao mesmo tempo, com tanta dificuldade em decidir o que é certo e o que é correto. Tudo, neste tempo, parece relativo, tudo depende do ponto de vista, tudo pode ser justificado. Mas, no meio desse ruído, há uma pergunta que nunca desaparece: quem és tu quando ninguém está a ver?
- A ética não é um conjunto de regras antigas para condicionar ou controlar a vida. A ética é, na verdade, o melhor caminho para que a vida não seja controlada nem condicionada. Trata de modo simples de nos ajudar tornar a nossa consciência inteira. Isto é, não se trata de fazer ou deixar de fazer algo por medo ou obrigação, mas de escolher o bem melhor das nossas ações, porque isto nos constrói moralmente e nos dá a identidade que nos torna verdadeiros.
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- Hoje é fácil viver de aparências: mostrar uma vida perfeita, dizer o que é socialmente aceite, adaptar-se ao grupo para não ficar de fora. Mas isso tem um preço, que é a possibilidade de nos perder não por fora, mas por dentro. A ética em geral e a ética cristã em particular, desafia-nos exatamente ao contrário: a sermos livres de verdade. Livres para dizer “não” quando dizer sim parece mais conveniente e mais fácil. Livres para escolher o que é certo, mesmo quando essa escolha tem custos que não queremos “pagar”.
- Ser ético não é ser perfeito. É trabalhar todos os dias para não viver decisões frágeis. É assumir as consequências das nossas escolhas. É perceber que cada pequena decisão: o que dizemos, o que partilhamos, como tratamos os outros, molda a pessoa que somos e que se ainda não o somos, molda a pessoa que no futuro seremos.
- Por isso, não nos devemos contentar com uma ética de mínimos: cumprir formalmente o que é devido. Porque, no fim, a maior pergunta não será “fiz o que me competia?”, mas sim: se fomos verdadeiros connosco, com os outros e até com Deus.
- 6. E quando colocamos Deus na equação ética da nossa vida tudo muda. Porque, quando colocamos Deus, a ética deixa de ser apenas “o que é certo” e passa a ser, também, uma resposta a uma relação. Não é acrescentar regras. É acrescentar sentido.
- Na visão ética cristã, Deus não é um fiscal da nossa vida, mas Aquele que nos conhece profundamente e nos chama a sermos melhores. Quando olhamos para a ética com Deus no centro, já não decidimos apenas com base na intuição moral pessoal, da pressão social ou na nossa vontade momentânea, mas perguntamos: isto aproxima-nos da vontade de Deus para o qual fomos criados para ser?
- Jesus Cristo não apresentou a ética cristã como um código de conduta vazio e distante. Ele resumiu tudo numa lógica de relação: Ele não disse apaixonai-vos uns pelos outros, mas sim, amai-vos uns aos outros, como Eu nos amei (mesmo aqueles de quem não gostamos tanto). O que significa que cada escolha ética não é isolada, mas é uma forma concreta de praticar este “amar uns aos outros…”
- Então, colocar Deus na equação ética da nossa vida implica muito na nossa verdade interior. Não basta dizer “acredito”; é preciso deixar que este acreditar oriente as nossas decisões reais. A saber: como tratamos alguém que não nos interessa, como agimos quando ninguém vê, como lidamos com o nosso erro e o errar dos outros.
- Na verdade, quando Deus irrompe – devagarinho e suavemente – nossa vida, não entra para a tornar mais confortável, mas mais autêntica e mais transparente. E se compreendermos bem o sentido desta equação de Deus, percebemos que a sua exigência não nos aprisiona; pelo contrário, liberta-nos, porque também compreendemos que a ética deixa de ser um esforço solitário para sermos “perfeitos” e passa a ser um caminho acompanhado.
- A ética cristã fala de consciência, de oração, de discernimento, que são formas de alinhar a nossa vida com algo maior do que o momento presente. No fundo, colocar Deus na equação é isto: não viver apenas para não errar, mas viver com direção e sentido. Não escolher só o que parece certo, mas escolher o que nos torna mais verdadeiros.
- Neste caminho sempre intransitivo – nunca termina – há uma pergunta simples que devemos colocar, mas que pode ser, sempre, desconfortável: se Deus faz mesmo parte da nossa vida, onde é que Ele se nota nas nossas escolhas que fazemos e nas ações que realizamos?
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* Presidente do Centro de Estudos de Bioética | Pós-Doc e PhD em Bioética
Imagem de Pete Linforth por Pixabay