Dom. Dez 5th, 2021

Aveirenses notáveis

Licínio Pinto e Francisco Pereira

A mais famosa dupla de ceramistas aveirenses

Cardoso Ferreira (textos)

Parceria com o Correio do Vouga

Licínio Pinto e Francisco Pereira é a dupla de pintores de azulejos mais famosa de Aveiro, com obras espalhadas por todo o país, com destaque para estações da CP, sendo autores das três primeiras estações portuguesas decoradas com painéis artísticos. 

Durante mais de duas décadas, Licínio Pinto da Silva (1882 – 1951) e Francisco Luís Pereira (1891 – 1961) formaram a mais conhecida e produtiva dupla aveirense de pintores de azulejos, autores de obras públicas espalhadas por todo o país, produzidas em empresas de referência no panorama da cerâmica nacional: Fábrica da Fonte Nova, Empresa de Louças e Azulejos de Aveiro (E.L.A.), Empresa Olarias de Aveiro, Lda. (E.O.A.L.) e Fábrica do Outeiro, esta última situada em Águeda.

O prestígio destes dois pintores cerâmicos começou na Fábrica da Fonte Nova, fundada em 1882 pelos irmãos Melo Guimarães, a qual se tornou na mais prestigiada produtora de azulejos do distrito, e da qual Licínio Pinto e Francisco Pereira se tornaram os principais pintores. Foi precisamente na Fonte Nova que esta dupla pintou os painéis artísticos das fachadas exteriores das estações da Granja, de Aveiro e de Ovar colocados em 1914, em 1916 e entre 1915 e 1919, respetivamente, e que foram as três primeiras estações em Portugal a serem exteriormente decoradas com painéis de azulejos.

O encerramento da Fonte Nova ocorreu em 1937, devido a um incêndio. No entanto, quase duas décadas antes, mais precisamente no ano de 1919, Licínio Pinto e Francisco Pereira, juntamente com Dr. André Reis (notário), João A. Paula Dias (industrial), José de Barros (modelador cerâmico), Manuel Tomás Vieira Júnior (negociante), Pompeu Alvarenga (bancário) e João da Cruz Bento (negociante), fundaram a Empresa de Loiças e Azulejo de Aveiro (E.L.A.), situada na zona do Cojo. Desta fábrica saíram os painéis que pintaram para a estação de Avanca (datados de 1929).

Também na E.L.A. os dois pintores cerâmicos saíram da empresa anos antes do seu encerramento, ocorrido em 1931, devido a falência.

Assim, em finais da década 1920-1930, Licínio Pinto e Francisco Pereira colaboraram com a Empresa Olarias Aveirense, Lda. (E.O.A.L.), fábrica que existiu em Aveiro entre 1922 e 1942), como o provam alguns painéis seus colocados no Parque Infante D. Pedro. Aliás, o parque citadino de Aveiro tem a particularidade de possuir painéis destes dois artistas executados em três fábricas distintas: E.L.A., E.O.A.L. e na Fábrica do Outeiro.

Quando, no início da década de 1930, Licínio Pinto e o seu filho Carlos Pinto integram o grupo fundador da Fábrica do Outeiro, uma unidade de produção de faiança regional e de azulejaria que obteve grande sucesso em Águeda, entre 1932 e 1960, os dois artistas aveirenses passaram a trabalhar com esta empresa. Nesta fábrica aguedense, Licínio Pinto e Francisco Pereira executaram os painéis colocados nas estações de Canas-Felgueira e de Nelas (datados de 1941), ambas da Linha da Beira Alta.

Para o historiador de arte aveirense, Amaro Neves (livro “Azulejaria antiga em Aveiro”) Licínio Pinto salientava-se “mais no tratamento das molduras assimétricas, enquanto Francisco Pereira era mais cuidadoso no tratamento das ‘cenas’ ou vistas”

Autores do sexto conjunto de painéis mais bonito de Portugal

De acordo com a página eletrónica https://www.vortexmag.net/os-7-paineis-de-azulejos-mais-bonitos-de-portugal/, os painéis da Estação da CP, em Aveiro, da autoria de Licínio Pinto e Francisco Pereira, foram considerados como sendo o sexto conjunto mais bonito do país.

Como curiosidade, há a registar que os conjuntos de painéis classificados em segundo e em terceiro lugar – Estação da CP do Pinhão e Igreja de Válega – foram executados em Aveiro, na Fábrica Aleluia. O primeiro conjunto é da autoria de J. Oliveira, enquanto o segundo é um trabalho coletivo.

 

Poucos dados biográficos

Apesar da imensa quantidade de obras de qualidade que executaram, são quase desconhecidos os dados biográficos destes dois importantes artistas aveirenses: Licínio Pinto da Silva (1882 – 1951) e Francisco Luís Pereira (1891 – 1961).

Licínio Pinto da Silva nasceu próximo da igreja da Glória (Sé), em Aveiro. Casou com Rosa da Graça Silva. O casal teve três filhos: Carlos, Marília e Ondina.

Olga Sotto, bisneta de Licínio Pinto e neta de Carlos Pinto, artista plástica, música, compositora, autora de livros e diretora do projeto Educação. Arte e Património – EAP – Palácio Nacional da Ajuda, refere na sua página oficial: “o avô, Carlos Pinto da Silva, homem de grande sensibilidade e cultura, era ceramista e a sua generosidade levava-o a dar aulas de pintura a presidiários; a avó gostava de pintura, teatro, música, sendo uma mulher de ideias bastante avançadas para a época. O bisavô, Licínio Pinto, também ceramista tinha referências em Almada Negreiros, Santa Rita pintor e Fernando Pessoa. Foi o autor do painel de azulejos da estação dos Caminhos de Ferro e do jardim de Aveiro”.

 

Autores de 96 painéis colocados em seis estações

 

Entre 1914 e 1919, na Fábrica da Fonte Nova, Francisco Pereira e Licínio Pinto pintaram “os 70 painéis com temas ornamentais, monumentos, paisagens e costumes, destinados às estações de Aveiro (28), da Granja (19) e de Ovar (23). Em 1929, pintaram na Empresa de Louças e Azulejos, painéis, com o mesmo tipo de assuntos, para a estação de Avanca (18) e em 1941, na Fábrica do Outeiro – Águeda, oito painéis para as estações de Nelas (quatro) e de Canas – Felgueira (quatro)”, pode ler-se no livro “Aspectos Azulejares na Arquitectura Ferroviária Portuguesa”, da autoria de Rafael Salinas Calado e de Pedro Vieira de Almeida, editado pela CP.

Para além das estações, esta dupla de artistas tem dezenas de painéis instalados numa diversidade de localidades, com destaque para a cidade de Aveiro, em que Licínio Pinto assina os painéis exteriores da Casa de Santa Zita, na Praça Marquês de Pombal.

Já Francisco Luís Pereira assina os painéis da antiga Igreja do Carvalhido, no Porto, e alguns dos painéis colocados no parque “Portugal dos Pequeninos”, em Coimbra. Nos dois casos, são obras executadas da Fábrica do Outeiro, na década de 1940.