Dom. Nov 28th, 2021

Aveirenses notáveis

António e Vasco Leónidas na “primavera” marcelista

Cardoso Ferreira (textos)

António Carlos Rodrigues de Pinho Leónidas e Vasco Rodrigues de Pinho Leónidas foram dois aveirenses que se notabilizaram na designada “primavera” marcelista. O primeiro como pedagogo e “pai” da Telescola e o segundo como secretário de Estado da Agricultura que assinou o decreto da criação do Parque Nacional da Peneda-Gerês.

 

António Leónidas, “Pai” da Telescola

António Leónidas nasceu em Aveiro, no dia 8 de maio de 1916, e faleceu em Martigny (Suíça), no dia 11 de setembro de 1980.

Enquanto estudante na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde se licenciou, foi dirigente do Centro Académico de Democracia Cristã (CACD) e redator da revista “Estudos”.

Entre os cargos que desempenhou, destacam-se o de diretor da Escola do Magistério Primário de Viseu, de diretor dos serviços de educação da Casa Pia de Lisboa, de chefe de repartição da Direcção-Geral do Ensino Primário, de Inspetor-Geral da Junta Nacional de Educação, de presidente da Direção do Instituto de Tecnologia Educativa, de presidente do conselho geral da Caixa de Previdência do Ministério da Educação, de presidente da Comissão de Televisão Escolar e Educativa, fundador e presidente do Instituto de Meios Audiovisuais de Ensino.

Entre 1958 e 1974, António Leónidas representou Portugal no Conselho Internacional dos Meios de Educação. Durante cerca de uma década, até 1974, foi diretor do Teatro Nacional D. Maria II.

António Leónidas, presidente da Comissão de Televisão Escolar e Educativa, foi considerado como o verdadeiro fundador da Telescola, uma vez que liderou o grupo de trabalho responsável pela criação da Telescola, o qual era constituído por representantes do Ministério da Educação Nacional, da Rádio Televisão Portuguesa (RTP) e da Fundação Calouste Gulbenkian.

O projeto oficial da Telescola foi apresentado pelo então ministro da Educação, Inocêncio Galvão Teles, no dia 12 de dezembro de 1963. O início regular das transmissões da TV Escola e Educativa ocorreu uns dias mais tarde, no dia 6 de janeiro de 1964.

Para o presidente da Comissão de Televisão Escolar e Educativa, entidade que, na prática, era responsável pelo que viria a ser a Telescola, “desejável seria que dos elementos que participam na realização de programas de TV Educativa, o pessoal técnico tivesse completa formação pedagógica e o pessoal pedagógico completa formação técnica. Como tal não é possível, deveremos contentar-nos com que uns e outros se compenetrem dos objetivos dos programas, realizem trabalho autêntico de equipa e encontrem, por mútuas sugestões e recíprocas cedências, os termos de maior eficácia do trabalho que realizam. Tenho como norma fundamental que um programa de TV Educativa é, sobretudo, uma lição.”

Anos mais tarde, Inocêncio Galvão Teles, realçou que “a Telescola levou o ensino aos mais recônditos lugares, evitando que muitas crianças ficassem sem ensino ou tivessem de se sujeitar a longas e penosas caminhadas. Para evitar o marasmo, a Telescola foi sendo adaptada às novas circunstâncias. Constituiu grave erro a sua extinção. É devida aqui uma palavra de justiça à memória do Dr. António Carlos Leónidas, que nomeei Presidente do IMAVE. A Telescola era como que uma grande sala de aula que tinha como paredes as fronteiras de Portugal”.

A deputada Maria Raquel Ribeiro, na sessão parlamentar do dia 31 de janeiro de 1973, enalteceu a Telescola, ao dizer que “ao Instituto de Meios Áudio-Visuais de Ensino (I.M.A.V.E.), criado pelo Decreto-Lei n.º 46135, de 31 de dezembro de 1964, em condições de flexibilidade e maleabilidade como a inovação requeria – contando, desde a primeira hora, com o seu atual presidente e grande impulsionador, Dr. António Carlos Leónidas –, muito se deve no domínio do ensino, da educação e da cultura”.

Esta mesma deputada apresentou dados que comprovavam a importância pedagógica da Telescola, dizendo que “em 1965 iniciou-se o funcionamento de 82 postos de receção da Telescola, no presente ano letivo (1973/74) contam-se 1072 unidades de receção: 639 oficiais, com 13 870 alunos, criadas especialmente no passado ano letivo, e 433 particulares, com a frequência de 7887 alunos. Logo, cerca de 22000 alunos fazem o seu ciclo preparatório através de toda uma montagem técnica e pedagógica rigorosamente preparada e vigiada pelo I.M.A.V.E., que, por força da recente reforma, será o Instituto da Tecnologia Educativa”.

Vasco Leónidas, secretário de Estado da Agricultura

Vasco Rodrigues de Pinho Leónidas nasceu em Aveiro, no ano de 1919, e faleceu em Cascais, no ano de 2005.

Licenciado em Engenharia Agrónoma pelo Instituto Superior de Agronomia, de Lisboa, Vasco Leónidas entrou para os quadros da Junta de Colonização Interna, no ano de 1945, entidade de que foi presidente durante o período compreendido entre 1959 e 1969. Enquanto presidente da JCI, e para além da criação de projetos como a Colónia Agrícola da Gafanha, foi responsável pelo lançamento das primeiras operações de reparcelamento rural. Incrementou também o acesso à propriedade de antigos rendeiros e colonos e esteve na génese dos primeiros centros especializados em formação profissional agrícola.

Em março de 1969, e até ao dia 11 de agosto de 1972, exerceu o cargo de secretário de Estado da Agricultura, tendo sido um grande defensor da formação profissional na área do setor agrícola, nomeadamente através da “tele-formação rural”, uma iniciativa que envolveu também o Ministério da Educação Nacional e a RTP.

Foi durante o seu mandato na Secretaria de Estado da Agricultura que foi criado o Serviço Nacional de Combate a Incêndios Florestais.

Para além da atenção que deu ao desenvolvimento rural, Vasco Leónidas foi o secretário de Estado que, conjuntamente com o então Primeiro Ministro, Marcelo Caetano, assinou os decretos que criaram o Parque Nacional da Peneda – Gerês e a então Reserva Natural da Serra da Arrábida, estando também ligado à criação da Lei de Defesa e Proteção da Natureza.

No dia 12 de outubro de 1970, o então presidente da República, Américo Tomás, numa visita que efetuou ao Minho, inaugurou um monumento em homenagem a Vasco Leónidas, integrado no emparcelamento da Cooperativa Agrícola do Vale do Rio de Estorãos.

Com a revolução de 25 de abril de 1974, Vasco Leónidas deixou as funções governativas e, no ano seguinte, partiu para o exílio no Brasil, país onde viveu durante alguns anos, e onde, entre outras atividades, coordenou diversos estudos de desenvolvimento do Estado de Roraima.

Homenageado na antiga Colónia Agrícola da Gafanha

No dia 31 de março de 2007, Vasco Leónidas foi homenageado, a título póstumo, numa cerimónia realizada na antiga Colónia Agrícola da Gafanha. O evento que contou com uma celebração litúrgica, presidida pelo então Bispo de Aveiro, D. António Marcelino. A homenagem foi promovida por funcionários da extinta Junta de Colonização Interna e pela Associação de Moradores de Nossa Senhora dos Campos (Colónia Agrícola das Gafanha), com o apoio da Câmara Municipal de Ílhavo e da Ordem dos Engenheiros.