Dom. Nov 28th, 2021

Aveirenses notáveis

Anselmo Morais Sarmento e filhas

Cardoso Ferreira (textos)


Anselmo Evaristo de Morais Sarmento (Aveiro, 1847 – Buçaco, 1900) notabilizou-se como editor e empresário ligado à comunicação social. Uma das filhas foi a primeira portuguesa licenciada em Engenharia Civil, três filhas tiraram o curso de Medicina, e o filho licenciou-se em Direito.

Filho de Bento Augusto de Morais Sarmento e de Guilhermina Carlota de Almeida Morais, Anselmo Evaristo de Morais Sarmento nasceu em Aveiro, no dia 5 de julho de 1847. Do seu casamento com a portuense Rita de Cássia Oliveira Morais, nasceram quatro filhas e um filho.

A família Morais, à qual Anselmo Evaristo de Morais Sarmento pertencia, era uma destacada família de liberais aveirenses que assumiram papel relevante nas lutas entre liberais e miguelistas. O seu tio, Clemente de Morais Sarmento foi um dos aveirenses que ficaram na história como os “mártires da liberdade”, devido à sua participação na revolta de 16 de maio de 1828, pelo que foi enforcado e decapitado na cidade do Porto, no dia 9 de outubro de 1829, tendo a sua cabeça sido exposta ao público, suspensa de alto poste, em frente à casa onde vivera sua mãe, em Aveiro.

Também o pai, então ainda de menor idade, e os restantes tios foram perseguidos pelos miguelistas, o mesmo acontecendo à sua avó, na altura já viúva, que esteve encarcerada, durante meses, por ser mãe daqueles liberais.

Anselmo de Morais Sarmento fixou residência na cidade do Porto, sendo considerado como uma figura de grande prestígio social naquela cidade, “onde se evidenciou pela sua inconfundível personalidade, pelas excelsas qualidades de caráter e pelos seus invulgares sentimentos altruístas”, sendo conhecido por repartir, com os mais necessitados, parte dos lucros obtidos com o seu trabalho.

Devido à sua atividade profissional, como editor de prestígio, fundador e proprietário de diversos jornais, Anselmo de Morais Sarmento tinha no seu círculo de amigos homens como Teófilo Braga, Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão, Antero de Quental, Oliveira Martins e Eça de Queirós, com destaque para o primeiro, cuja amizade entre as respetivas famílias perdurou para além da sua morte.

Em termos políticos, assumiu frontalmente a defesa dos ideais republicanos.

No dia 9 de junho de 1900, ao noticiar a morte de Anselmo de Morais Sarmento, ocorrida no dia anterior, no Buçaco, terra onde tinha casa, o jornal “A Voz Pública”, referia que ele tinha sido “editor de várias obras de invenção e de crítica, tais como a «História da Literatura Portuguesa», de Teófilo Braga, «Primaveras Românticas», de Antero de Quental”, entre outras, e que “fundou vários periódicos, tanto políticos como artísticos”, nos quais “escreveram muitos dos mais distintos jornalistas portugueses contemporâneos”. Para além disso, realçava o facto de ter sido “dotado de ânimo bondoso e esmoler”, pelo que “a notícia da sua morte causou ontem grande impressão de tristeza nas classes populares”.

Foi sepultado no cemitério de Agramonte.

Editor, jornalista e empresário de jornais

No ano de 1864, Anselmo de Morais Sarmento fundou, na cidade do Porto, a tipografia “Imprensa Portuguesa”, a qual, apesar de estar conotada com as forças liberais e republicanas, teve uma relevante atividade editorial.

Entre os jornais que fundou e dirigiu, destacam-se: “A Actualidade”, o qual tinha como redator Camilo Castelo Branco, “Gazeta Literária do Porto”, “Ideia Nova – Diário Democrático”.

Entre abril d 1877 e maio de 1878, Eça de Queirós colaborou no “A Actualidade”, tendo publicado quinze cartas, ou textos epistolares, as quais, em 1940, deram origem ao livro “Cartas de Londres”. Curiosamente, Anselmo de Morais Sarmento e Eça de Queirós, que quase tinham a mesma idade, faleceram no mesmo ano de 1900, o primeiro, no mês de junho, e o segundo, em agosto.

Filhas Laurinda, Aurélia, Guilhermina e Rita

As três filhas mais velhas de Anselmo Evaristo de Morais Sarmento – Laurinda, Aurélia e Guilhermina – licenciaram-se em Medicina, na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, enquanto a mais nova – Rita – foi a primeira portuguesa a obter a licenciatura em Engenharia Civil, curso que tirou na Academia Politécnica do Porto. O filho – Joaquim – formou-se na Universidade de Coimbra, em Direito.

Laurinda

Laurinda nasceu no dia 28 de outubro de 1867. Aos 18 anos, na Academia Politécnica do Porto, frequentou as cadeiras de Física Geral, Química Inorgânica Geral, Química Orgânica Geral e Biológica. Mais tarde, na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, foi admitida às cadeiras de Patologia e Terapêutica Externas, Medicina Operatória e Patologia Interna. Distinguiu-se na disciplina de Obstetrícia ou Partos, na qual foi “aprovadas com louvor”. No dia 9 de novembro de 1891, defendeu o seu “Ato Grande”, tornando-se a seguir à sua irmã Aurélia, na segunda mulher a obter a licenciatura de Medicina na Escola Médico-Cirúrgica do Porto.

Aurélia

Aurélia de Morais Sarmento nasceu no dia 4 de junho de 1869. Com 16 anos de idade, matriculou-se na Academia Politécnica do Porto, nas cadeiras que faziam parte do plano de estudos como sendo obrigatórias para o ingresso na Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Durante o ano letivo de 1885-1886 frequentou e obteve a aprovação às disciplinas de Física Geral, Química Inorgânica Geral e Química Orgânica Geral e Biológica. No dia 30 de setembro de 1886 inscreveu-se na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, realizando em julho do ano seguinte os últimos exames preparatórios de Botânica e de Zoologia na Academia Politécnica. No ano letivo de 1890-1891, juntamente com a irmã Laurinda, conclui o curso. Ambas foram bem-sucedidas nos exames de Clínica Médica, Clínica Cirúrgica, Higiene e Medicina Legal e de Obstetrícia ou Partos. Neste último exame. ambas obtiveram a distinção de “aprovada com louvor”. Em 1891, Aurélia defendeu o “Ato Grande” na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, o que lhe granjeou o mérito de ter sido a primeira mulher a fazê-lo.

Aurélia casou com Júlio Gustavo Romanoff Salvini, cantor lírico e professor de música radicado no Porto, filho do polaco Gustavo Romanoff Salvini, que tinha ligações com a família imperial russa dos Romanov.

Guilhermina

Guilhermina de Morais Sarmento nasceu no dia 4 de julho de 1870. Teve por padrinho de batismo Teófilo Braga, que mais tarde viria a ser Presidente da República. Com 17 anos de idade, Guilhermina matriculou-se na Academia Politécnica do Porto, para frequentar as cadeiras obrigatórias para o ingresso na Escola Médico-Cirúrgica do Porto. No primeiro ano letivo (1887-1888), concluiu, com distinção, as disciplinas de Química Inorgânica Geral, Botânica e Física Geral, tendo, até, merecido uma menção de louvor referente a esta última cadeira, a qual foi concedida pelo Conselho Escolar. No ano seguinte, concluiu as cadeiras de Química Orgânica e Analítica e de Zoologia, obtendo a classificação de 15 valores em ambas, obtendo uma nova distinção escolar. No dia 15 de outubro de 1889, matriculou-se na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, onde as irmãs mais velhas se preparavam para concluir os respetivos cursos. Durante o primeiro ano, ficou aprovada nas cadeiras de Anatomia, de Fisiologia, de Farmacologia ou Matéria Médica, de Anatomia Patológica e Patologia Geral. Apesar do falecimento da Mãe em novembro de 1892, quando Guilhermina frequentava o 4.º ano do curso, apresentou-se com sucesso aos exames de Patologia e Terapêutica Externas, Patologia Interna e Medicina Operatória. No último ano letivo, realizou com êxito as cadeiras de Clínica Médica, Clínica Cirúrgica, Obstetrícia ou Partos, assim como a de Higiene e Medicina Legal. Era a única mulher entre os 28 diplomados quando realizou o último exame, em 11 de julho de 1894. Apresentou-se para o “Ato Grande” no dia 6 de outubro de 1894. Foi a quarta médica formada pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto.

Rita

Rita de Morais Sarmento nasceu no dia 11 de fevereiro de 1872. No ano letivo de 1887-1888, matriculou-se na Academia Politécnica do Porto, onde frequentou as cadeiras de Geometria Analítica, Desenho de Figura, Paisagem e Ornato e Química Inorgânica Geral, que integravam o plano curricular do 1.º ano do curso de Engenheiros Civis de Obras Públicas. Concluiu a frequência desse ano aprovada a todas as disciplinas e com a menção de distinção na cadeira de Química Inorgânica. No ano seguinte. frequentou as cadeiras de Cálculo Diferencial e Integral, Física Geral e Desenho de Arquitectura e Aguadas. O resultado obtido nesta última disciplina valeu-lhe uma menção de distinção. Nos anos letivos de 1890-1891 e 1891-1892, era a única senhora entre os estudantes da Academia Politécnica, o mesmo voltando a acontecer no 5º ano do curso. No dia 30 de junho de 1894, fez o seu último exame do curso, o que fez dela a primeira senhora a conquistar um diploma em Engenharia Civil, em Portugal.

No dia 25 de setembro de 1898, casou com António dos Santos Lucas, doutorado em Matemática, professor catedrático e diretor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e ainda, no ano de 1914, Ministro das Finanças.