Qui. Dez 11th, 2025

Aveirenses Ilustres

Carolina Homem Cristo – A “alma” da revista “Eva”

Cardoso Ferreira (textos)

Parceria com o Correio do Vouga

Carolina Homem Cristo (1895-1980) iniciou a sua ligação à imprensa com apenas 14 anos de idade, mas ficou para a história do jornalismo português por ter dirigido, durante décadas, a revista “Eva” – Jornal da Mulher e do Lar”.

Filha do ilustre aveirense Francisco Homem Cristo, Carolina Homem Cristo nasceu em Lisboa, no dia 13 de março de 1895, e faleceu na cidade de Aveiro, em 27 de janeiro de 1980.

Foi precisamente no jornal “O Povo de Aveiro”, fundado e dirigido pelo seu pai, que Carolina Homem Cristo, então com apenas 14 anos de idade, iniciou longa atividade ligada à imprensa, tendo-se distinguido como diretora e editora da revista “Eva. Jornal da Mulher e do Lar”, cargo que exerceu durante cerca de quatro décadas.

Ainda muito jovem, Carolina também colaborou com o “Jornal das Senhoras”, sob o pseudónimo de “Alfacinha”. Depois passou a colaborar com o “Notícias Ilustrado” e com o suplemento feminino de “O Século”, intitulado “Modas & Bordados”, revista de que foi diretora entre abril de 1925 e outubro de 1926.

 Entre 1928 e 1935, Carolina Homem Cristo teve o seu nome ligado a “O Notícias Ilustrado”, um jornal publicado semanalmente pelo “Diário de Notícias” e propriedade da Empresa do Diário de Notícias, que tinha como diretor, editor e diretora gerente, o cineasta Leitão de Barros, António das Neves Carneiro e Carolina Homem Cristo, respetivamente.

No período em que esteve ligada ao “Diário de Notícias”, em 1930, organizou a excursão dos funcionários superiores desse jornal, com a duração de três dias, a qual passou por Aveiro (com um passeio pela Ria), Curia, Luso, Bussaco, S. Pedro do Sul e Vouzela.

Revista “Eva. Jornal da Mulher e do Lar”

Fundada em 1935, a revisa “Eva. Jornal da Mulher e do Lar” publicou-se até 1989, longevidade que muito se ficou a dever a Carolina Homem Cristo, que foi sua diretora e proprietária durante cerca de quatro décadas.

A primeira diretora da revista foi Helena Aragão. Em 1930 e 1931, a direção esteve a cargo das irmãs Helena e Mamia Roque Gameiro, ambas artistas plásticas, filha do também artista plástico Roque Gameiro. No ano de 1933, Carolina assumiu a direção da revista, dirigindo-a praticamente até à sua morte, em 1980, ainda que o seu nome tenha sido omitido do público no primeiro ano da sua direção, o qual apareceu pela primeira vez no cabeçalho da revista com a publicação da edição de Natal de 1932. Este primeiro grande número de Natal só foi possível realizar graças à resistência da diretora, que decidiu empenhar os próprios haveres como garantia do êxito desse número.

A partir daí a revista teve tiragens maiores e promoveu relevantes iniciativas, entre as quais, a Escola Técnica das Donas de Casa, as festas de caridade, os Bailes de Alta Costura, os “Réveillons”.

No entanto, em 26 de maio de 1939, é comunicado o fim da “Eva”, que terminaria no último dia desse mês, devido a uma alteração dos acionistas da empresa proprietária, levando ao despedimento dos corpos dirigentes, entre os quais, Carolina Homem Cristo. Como a empresa proprietária da revista pretendia encerrá-la, e também como Carolina não tinha profissão alternativa, esta decidiu adquirir a totalidade das quotas da empresa, passando a ser a sua proprietária.

Para ultrapassar alguns obstáculos, financeiros e burocráticos, surgidos nesses primeiros anos em que foi proprietária da revista, Carolina recorreu a Bissaya Barreto, o qual, para além de ser seu médico e amigo, tinha grande influência junto do governo. Colaborou em algumas iniciativas deste médico de Coimbra, como na organização das festas de inauguração do Hospital Sanatório da Colónia Portuguesa do Brasil (atual Hospital dos Covões) e do Parque Infantil de Coimbra, tendo também enviado casaquinhos para os meninos do Ninho dos Pequeninos.

No âmbito do vigésimo aniversário da revista, Joaquim Manso, então diretor do “Diário de Lisboa”, referiu que Carolina Homem Christo conseguiu revolucionar o jornalismo feminino com a sua revista.

Apesar da amizade com Bissaya Barreto, o certo é que a revista “Eva” teve alguns problemas com a censura e com o Estado Novo, o que inviabilizou a concretização de alguns projetos que Carolina Homem Cristo tinha para a revista.

O pai como professor primário

Referindo-se ao seu pai, na revista EVA, de abril de 1943, Carolina Homem Cristo escreveu: “Com os seus exageros, ensinou-me a ler tinha eu três anos. Todos os filhos o tiveram como professor primário. Aprendi o nome de João de Deus nas suas lições, diante da Cartilha Maternal”. E, mais adiante, relata: “Quando dava aulas aos soldados do Regimento de Infantaria n.º 14, em Viseu, onde era capitão, e eles esbarravam numa palavra, se me tinha por perto, pegava-me ao colo, punha-me em cima da mesa, diante da Cartilha que era do meu tamanho, e mandava-me ler a mim. Eu lia, eles pasmavam, e ele estimulava-os com o meu exemplo”.

 

Suplemento de 24 páginas dedicado a Aveiro
A edição de novembro de 1965 inseriu um suplemento de 24 páginas sobre Aveiro, sendo a capa da revista totalmente dedicada à Igreja de Jesus, no Museu de Aveiro/ Santa Joana. “Aveiro, uma das regiões mais belas e coloridas de Portugal” era o título desse suplemento ilustrado e a cores, o qual era uma “edição da revista EVA realizada com o patrocínio do Governo Civil, e a colaboração da Câmara Municipal, Junta Distrital, Comissão de Turismo, Grémio do Comércio da cidade de Aveiro”. As fotos eram de António Homem Cristo e de Eduardo Gageiro.

 

Colaboração de Carolina Homem Cristo na revista dos Bombeiros Velhos

Excertos do texto de Carolina Homem Cristo, escrito em Lisboa, no mês de janeiro de 1957, e publicado na revista comemorativa dos 75 anos Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários – Bombeiros Velhos de Aveiro.

“Chamam-me de Aveiro, minha terra espiritual, para que colabore com meia dúzia de linhas neste festivo número de aniversário”

“Que saberei eu dizer que possa interessar ao público Aveirense, ou à simpática Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários que comemora os seus 75 anos de altruísta actividade? [Posso] falar-lhes da minha saudade profunda da recuada época em que Aveiro não tinha réclames a «néon» nem cafés, e só íamos ao cinema uma vez por semana ver fitas em 2, 3, e 4 episódios, que levavam um mês a correr e reuniam no Salão Nobre do antigo Teatro a fina flor da sociedade da terra em simpática e alegre cavaqueira?”

“A minha saudade, bem entendido, não é das ruas escalavradas de então, do silêncio sepulcral que se observava às 11 da noite quase de uma ponta à outra da cidade, da escuridão em que os nossos olhos mergulhavam e os nossos passos faziam eco ao sair de restrito serão familiar, ou das «bichas» de caneca à cabeça em redor das fontes que haveriam de enchê-los num enervante «pingue pingue», que consumiu horas de vida a muita mãe de família! Não, gosto de luz, do movimento, do Progresso, e respiro fundo, em verdadeira satisfação, sempre que chego a Aveiro e descubro uma nova rua, o esboço de um futuro bairro ou um bairro novo já a caminho, de bonito traçado, no qual predominam as casas elegantes, de boa arquitectura, sobretudo de bom gosto, como sucede, por exemplo, na nova zona do Liceu. Sigo a evolução de Aveiro de olhos enternecidos como se seguem os passos de um filho que começa a andar, primeiro cambaleante, depois firmando bem os pés no chão, já consciente e senhor de si. E a cidade faz tal diferença nos últimos 15 anos, que por vezes dou comigo a querer reconstituir na minha memória, um ângulo duma rua, ou tal e tal sítio, sem conseguir, já, fazê-lo com nitidez. Depois de uma paralisação quase total de mais de 30 anos, ei-la ressurgida, caminhando na vanguarda da maioria das terras de província, em profundo movimento de renovação que enche de alegria e orgulho quantos, pelo nascimento ou sentimento, podem considerar-se aveirenses, como eu. Não é, pois, desse transposto período de decadência que tenho saudades, não. É desses grupos que já se não reúnem no salão do teatro, das pessoas que conheci, dos rostos que me eram familiares e desapareceram para sempre, da saborosa intimidade que encontrava por todos os lados, das pedras da Costeira que conheciam os meus passos, das áleas do Jardim Público onde passeei, vaidosa, os meus primeiros vestidos compridos, dos rapazes e raparigas desse tempo, da mocidade que se foi e não volta mais”.

“A minha juventude e primeira mocidade passaram-se em Aveiro. Aí desabrochei da adolescência, aí me fiz mulher, aí aprendi a trabalhar, lutar e sofrer. Na rude escola da vida que era a convivência com meu Pai, formei o espírito, e moldei o carácter. A Ele devo tudo o que sou, e no seu exemplo de entranhado amor à terra em que nasceu, embora nem sempre compreendido, frutificaram as raízes que me prendem a Aveiro e me levam a responder Presente! — neste momento, como sempre, ao apelo que me fazem, mesmo sem saber se correspondo ao que de mim se espera. «Presente» agora, na festa da benemérita Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Aveiro a que desejaria ainda prestar homenagem daqui a 25 anos, e «Presente» sempre que Aveiro de mim necessite”.