Dom. Jun 13th, 2021

Acredito que a ciência de Hawking é insuperável, mas a sua filosofia era fraquinha

Jorge Pires Ferreira

Admiro Stephen Hawking. É uma mente científica brilhante a que nos deixou no dia 14 de março de 2018. Digo-o sem alcançar quase nada da matéria científica que estudou, a física cosmológica, nomeadamente no que diz respeito à origem do tempo e do espaço, que, por ser altamente matematizada, deixa de lado quem quer que tenha apenas o conhecimento básico e secundário da matemática. Digamos que tenho fé na sabedoria de Stephen Hawking. Mas só na parte em que eu não compreendo, a física-matemática. Tal como apreciava o seu humor e a sua alegria de viver. Quanto às suas afirmações filosóficas e religiosas… parecem desconhecedoras dos conceitos básicos, dos debates da história, das grandes correntes filosóficas e teológicas.

Embora não se realcem os seus feitos com os factos de estar numa cadeira de rodas, só poder mexer uns dedos e falar por meio de um processador de voz – julgo que por causa do pudor socialmente correto em dizer que “ele é doente” ou “ele é deficiente” –, essas circunstâncias não só contribuem para a aura do cientista frágil por fora mas iluminado por dentro (o mesmo se aplica ao genial mas despenteado e distraído Einstein), como são um bom exemplo de que as limitações exteriores não são impeditivas de façanhas brilhantes. Um exemplo de catequese, se Hawking fosse crente. Na realidade, até é crente, – já lá chegarei – , mas não em Deus, seja Ele qual for, suponho, nem da teologia ou em qualquer igreja.

No programa «Larry King Live», na CNN, emitido no dia 10 de setembro de 2010, como em variadas outras ocasiões, afirmou que a “teologia é desnecessária” e que “a ciência está cada vez mais a responder a questões que eram um território da religião”. Não sei se disse quais as questões que “eram” da religião. O resumo que saiu na imprensa não esclarece. Mas a grande questão, tendo em conta anteriores tomadas de posição, é: porque é que existe o universo em vez do nada?

Não sendo eu cientista de formação, nem por lá perto, ainda que tenha lido uns bons livros da coleção “Ciência Aberta”, da Gradiva, incluindo a “Breve História do Tempo”, de Hawking, logo que saiu, no início dos anos 90, considero, no entanto, que as grandes questões devem ser do alcance de todos. É uma espécie de dogma em que acredito.

A origem e o fim do universo, o sentido da vida, os porquês e para quês últimos devem estar ao alcance de todos, porque somos feitos da matéria do universo mas temos consciência, que é quando a materialidade se ultrapassa. Se um cientista me faz como Euler fez a Diderot, sinto-me defraudado em vez de derrotado. Discutindo a existência de Deus, Euler escreveu uma fórmula matemática e concluiu: “Logo, Deus existe”. Diderot sentiu-se derrotado. E suponho que frustrado. Euler sabia bem que Deus não se provava, mas aquilo era para dar uma lição ao iluminista, grande humanista e anticlerical, mas pouco dado às ciências positivas. Por vezes, Hawking parece ser um novo Euler, mas ao contrário, ao dar a entender, no meio de teorias de que já ouvimos o nome, mas que não percebemos realmente, que Deus não existe, que é desnecessário, que não pode ter criado o mundo.

É que, mesmo que alguém informado diga que compreende que a energia é igual à massa vezes a velocidade da luz ao quadrado (equivalência massa-energia), por exemplo, o mais certo é que saiba que é assim, mas não compreenda realmente como pode ser assim. Compreender é outra coisa. Felizmente, não precisamos de compreender a mecânica para conduzir um automóvel. Temos de confiar nos mecânicos e nos construtores de automóveis.

Se Hawking junta meia dúzia de teorias, a relatividade, mais a quântica, mais a Teoria-M e as supercordas, e diz que isso explica o como e o porquê do universo e dispensa Deus, se confiarmos nele como confiamos nos mecânicos, dispensamos Deus. Mas, no geral, os mecânicos da ciência dizem que a ciência não trata de Deus. Como os mecânicos da teologia dizem que a teologia não trata do como do mundo. E, logo, aqui há uma dissonância.

Mas o pior é que, apesar de não compreendermos as tais teorias, não podemos deixar de questionar o que o cientista nos diz. Afirma, por exemplo: “Dada a existência da gravidade, o universo pode criar-se a si mesmo do nada”. “Dada?” Como “dada”? Se é no sentido de “observada”, ou “já que existe”, a questão que logo se impõe é porque é que existe a gravidade em vez do nada? E quanto ao nada, para Hawking e outros cientistas, é um nada que é tudo. Na filosofia, dizia-se que, do nada, nada pode vir. Os cientistas, ou Hawking, andam a dizer que do nada tudo pode vir. Até compreendo – ou penso que compreendo – o que querem dizer. Se o cosmos é uma soma de energia zero, o universo que existe é uma flutuação de energia, é uma separação da matéria (onde nós estamos e somos; curiosa essa ideia de separação, como nas primeiras páginas da Bíblia) e da antimatéria (que andará escondida algures no universo, ou noutro universo, e que é matéria de best-sellers). Por isso dizem que há o universo e o multiverso. E porque não inverso?

Mas se matéria mais antimatéria dá nada, zero, equilíbrio, convém notar que é um nada muito especial. Um nada que é tudo. Ora, se me dizem que há ou houve lá muito no princípio, ou antes do princípio, um nada que não é bem nada, um nada que é a soma de tudo, que é tudo, isto soa-me a algo incongruente e, em certo sentido, quase dogmático.

Para superar o nada radical (e não o nada científico, que esse, sendo tudo, não o compreendo), só concebo um não-nada superior a tudo. A isso chamo Deus, embora o da fé, sendo esse, é mais do que isso. Aqui, entra a filosofia e, na minha perspetiva, a religião. E não se confunde com a ciência. Que a ciência explique a origem do universo, ainda que me pareça uma explicação que não explica realmente, pelo menos no ponto em que nos encontramos, até poderei aceitar, mas terei de compreender o básico, ao contrário dos motores de automóveis ou dos computadores, que não respondem às questões do sentido, ainda que respondam a algumas necessidades básicas. Não basta dizer: “Nós, cientistas, sabemos como é. Acreditem em nós, pois é demasiado complicado para vocês perceberem”. Parece-me que é o que acontecia com Hawking e outros cientistas que extrapolavam o seu campo sem as ferramentas adequadas.

Tudo indica que Hawking, que era membro da Academia Pontifícia das Ciências (não é preciso ser crente, “basta” ser grande cientista), tinha uma conceção de Deus como “o grande tapador de buracos”. A este propósito, recordemos uma história com mais de meio século, contada por Paul Schweitzer, padre jesuíta e membro da Academia Brasileira de Ciências, em “O Globo” de 13-09-2010:

“Convém lembrar que o físico e padre belga Georges Lemaître, que inventou o conceito do big bang (mas com outro nome, “átomo primevo”), disse que não se deve identificá-lo com a criação do Universo por Deus. Quando soube que o Papa Pio XII iria fazer um discurso para a oitava Assembleia Geral da União Astronómica Internacional em Roma, em 1952, viajou à capital italiana para pedir ao Papa que não apresentasse o big bang como o ato de criação do Universo por Deus. O Papa seguiu a orientação do Pe. Lemaître. O facto de Hawking não reconhecer o big bang como criação por Deus foi antecipado mais de meio século pelo Papa Pio XII”.

Para Hawking, à medida que a ciência avança, Deus recua, até ser a “hipótese desnecessária”, como disse outro grande cientista. Não é certamente o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, o Deus Pai e Mãe de Jesus, o Deus que nos faz irmãos, por amor, e que nos impele eticamente ao encontro do irmão, sendo também o Criador e Sustentador do Universo, porque, sendo Deus, é Deus de tudo, por amor.