Sinais | Leitura de ‘sinais’ inquietantes | Rubrica promovida em parceria com o Correio do Vouga

Einstein sentado ao meu lado

António Jorge Pires Ferreira

Ninguém pode dizer ao certo o que vai acontecer com a Inteligência Artificial. Uns dizem que vai mudar tudo. Outros dizem que é apenas um instrumento, como o martelo, a calculadora ou um Google um pouco mais sofisticado. Parece-me que o Papa está entre os primeiros, os que dizem que vai mudar tudo. Ou pelo menos muito. Correndo o risco de estragar “o humano”.

A “Magnifica Humanitas” não é alarmista. Os papas nunca são alarmistas, mesmo quando sabem que surgem coisas novas (“res novae”). Mas Leão XIV ouviu os especialistas. “Ouvi relatos muito preocupantes de algoritmos que podem bloquear o acesso à saúde, ao emprego e à segurança com base em dados contaminados por preconceitos e injustiça”. E no n.º 102, explica:  “O uso da IA nunca é uma questão puramente técnica: ao interferir em processos que afetam a vida das pessoas, ela incide sobre direitos, oportunidades, reputação e liberdade”.

Leão XIV usa dez vezes a palavra “revolução”, nove delas acompanhada por “digital” (e outra por “industrial”) e aqui está o essencial da questão. A IA faz parte da revolução digital. Ou antes, com a IA chegamos à velocidade cruzeiro da revolução digital. E embora alguns tenham a tendência para pensar que qualquer novidade muda tudo, quando não muda, desta vez parece diferente. Estou a pensar em quem viu em cada esquina uma nova era, como a “era atómica” ou a “era espacial”, ou a segunda, terceira, quarta e quinta revolução industrial (a primeira foi a do carvão, depois veio o petróleo, a eletricidade, os computadores, as energias renováveis…), quando foi só continuidade dentro da revolução industrial.

Desta vez, com a IA, é mesmo uma revolução ou só continuidade? As duas grandes revoluções da humanidade foram a da agricultura e a industrial. Na primeira, quando aprendemos a produzir alimentos, em vez de os colher da natureza, deixamos de ser nómadas (e caçadores), apareceram as cidades, apareceu a escrita, começou a história. Na segunda, a revolução industrial, mudámos os modos de produzir e consumir, basicamente com as fábricas e a máquina, e o modo como nos relacionamos (por exemplo, o casamento passou a ser uma opção pessoal, baseada no amor, e não das famílias, baseada na vontade).

E agora, com a IA? A IA não é apenas um Google mais aperfeiçoado a quem fazemos perguntas – embora seja esse o uso que muita gente dela faz. Em muitas empresas é a IA que atende telefones, faz análises de dados, elabora relatórios, responde a mails… Aplicada a robôs, dá-lhes finalmente uma autonomia que assusta. E vai surgir em todas as máquinas. E já está nas relações de muitas pessoas, como se fosse um ser humano. Mexe com a mente.

Há tempos, numa conferência sobre este assunto, o conferencista sugeria: usem a IA como se tivessem um Einstein, um Leonardo da Vinci ou um Aristóteles ao vosso lado. Nunca tivemos tanta inteligência à mão. E Etham Mollick, no livro “Co-inteligência” repete frequentemente: a atual IA é a pior IA que temos. Pior no sentido de menos desenvolvida. Estamos só no início. E o que aí vem tanto pode ser admirável como assustador.

Por estas e outras razões, dizem que estamos na verdadeira terceira revolução, a revolução cognitiva, a que afeta direta e profundamente a mente.

Parece-me que é neste contexto da revolução da mente, revolução cognitiva, que devemos ler a encíclica de Leão XIV, para “salvaguarda da pessoa humana”.


Imagem de Seanbatty por Pixabay