Metamorfoses | Mudanças interiores que transformam a realidade
Miguel Oliveira Panão*
Fará sentido a expressão “casa comum” tantas vezes usada no contexto do Tempo da Criação? Se o planeta não for a nossa “casa”, o que é? Se o nosso planeta estiver vivo, o que significa cuidar dele?
A vida identifica-se pelo movimento. Graças ao movimento, temos a percepção de um mundo em evolução. E, como na Terra tudo se move, não poderá isso querer dizer que a Terra está viva? E se a Terra fosse uma criatura de Deus? Que tipo de criatura seria? Talvez a melhor forma de encontrar caminhos para responder a estas questões seja pensar na experiência pessoal que todos fazemos, começando pela consciência da tri-dimensionalidade que caracteriza o nosso ser.
O ser humano existe a três dimensões: corpo—mente—espírito. Por isso, se a Terra fosse um organismo vivo, como considerado há muito por cientistas como James Lovelock e a sua Teoria Gaia, deveria ter uma dimensão corporal, uma mental e uma espiritual.
Em relação ao corpo, é inegável que a Terra o possui. Em relação à mente, se pensarmos em nós próprios, sem cérebro, não pensamos. E sem neurónios, não há cérebro que pense. Porém, cada neurónio por si só, pouco faz, sendo necessário todo o tecido relacional que misteriosamente se traduz num pensamento. Quando penso no reconhecimento feito há décadas pelo paleontólogo e jesuíta Teilhard de Chardin da consciência humana como uma camada pensante (acima da biosfera) que chamou de noosfera, poderemos pensar que somos os neurónios que constituem o cérebro noosférico da Terra. E quanto à dimensão espiritual da Terra?
Existem muitas formas humanas de viver esta dimensão espiritual que nos constitui. Mas a espiritualidade cristã leva-nos à experiência de que a dimensão espiritual está na percepção que temos da possibilidade de estabelecer uma relação profunda com Deus-Trindade. E não é essa a experiência que fazemos quando contemplamos a natureza? Isto é a experiência da presença de Deus sob todas as coisas? Penso que a possibilidade de fazermos, através do planeta, uma experiência da presença de Deus seja o que lhe confere uma dimensão espiritual. Muitos poderão ser tentados a limitar a compreensão do infinito alcance da criação de Deus à primazia do ser humano, mas colocar limites à amplitude da acção de Deus nunca me pareceu uma boa ideia.
Biologicamente, somos parte do género humano, mas o planeta Terra pertence necessariamente a outro género. Sugiro que a criatura Terra seja do género família e daí a importância da noção de família da criação. Se acredito que Deus criou o ser-humano, talvez pudesse reconhecer a Terra viva como um ser-família onde todos os seres animados e inanimados compõem a família da criação. Por isso, qual o nosso papel como parte do corpo—mente—espírito da Terra? Se a Terra se mantém viva pelos relacionamentos que dinamizam o seu interior, cuidar da Terra implica cuidar desses relacionamentos. Como podemos fazer isso? Talvez saindo das quatro paredes e pisar o caminho de terra batida, tocar na árvore, contemplar por um tempo a flor e quantas outras coisas. E a que nos impede? A vida frenética.
Ninguém parece ter tempo para reflectir sobre as coisas profundas porque todos os dias somos permanentemente bombardeados com responsabilidades e um mar de informação que mantém presa a nossa atenção, experimentando a vida como frenética. Proponho uma possibilidade de sair da vida frenética em três fases: (I) Preparação; (II) Maturação; (III) Missão.
(I) Preparação
A preparação para sair de uma vida frenética implica uma moeda com duas faces: perdoar-se e desacelerar. Ao pensar naquilo que precisaríamos de fazer para mudar os nossos estilos de vida, podemo-nos sentir culpados por ser muito difícil sair das rotinas que a cultura humana hodierna imprimiu fortemente em nós, sobretudo com a intensificação da vivência em ambientes digitais. Por isso, precisamos de nos perdoarmos cientes de que podemos sempre recomeçar. E a segunda face reconhece quanta aceleração existe para atender a tudo e mais alguma coisa. É como se a facilidade com que podemos fazer uma coisa, que antes era difícil, nos impulsionasse a fazer mais vezes essa coisa. Se queria comunicar com alguém escrevia uma carta. Essa leva tempo e custa um selo, por isso, pensava bem na carta a escrever e não enviava tantas assim. Com os emails, SMS ou mensagens WhatsApp, a fricção na comunicação diminuiu substancialmente. Por isso, aceleramos a nossa comunicação e, curiosamente, superficializámos o conteúdo daquilo que comunicamos. Desacelerar é retomar a experiência da comunicação profunda que leva tempo.
(II) Maturação
Depois de nos perdoarmos e desacelerarmos, à preparação segue-se um período de amadurecimento abraçando uma cultura do DAR:
Desaprender
Aprender
Reaprender
Desaprender o que é falso e obsoleto para abrir a mente e mantê-la aberta, abrir o coração à novidade que os outros e a natureza são para nós, abrir as mãos para construir a unidade que desejamos experimentar no mundo.
Aprender coisas novas, sabendo que este é o nosso superpoder: o de estar sempre a aprender.
Reaprender a contactar fisicamente com a realidade, sem a necessidade de mediação da virtualidade de um ecrã.
(III) Missão
O processo de amadurecimento é algo que fazemos ao longo da vida com esta cultura de DAR, mas não chega se a mantivermos fechada em nós. Daí o valor do acto missionário IDE:
Incomodar
Desacomodar
Encomendar-se
Incomodar com a verdade e o amor da experiência, não para perturbar, mas intrigar, despertar e estimular o exame de consciência.
Desacomodar saindo das nossas zonas de conforto. É a forma de nos mantermos em transformação e desenvolver a capacidade de mudar o nosso estilo de vida.
Encomendar-se a Deus em tudo e em todos, de modo a sensibilizar a mente, o coração e as mãos para aquilo que Deus quer.
Cuidar da CASA Comum
Comecei por questionar se esta Terra viva seria ou não uma casa comum. E se acolhermos esta ideia da Terra como uma criatura de Deus, um ser-família, acabei por me aperceber de que cuidar da casa faria sentido. Porquê? Porque estaria a cuidar da
Comunidade de
Amor que está
Sempre a
Aprender.
A nossa CASA.
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