Um olhar atento ao tempo que flui


Victor Bandeira*

A paróquia de Santa Marinha de Avanca tem um forte vínculo com Fátima desde muito cedo, com a fundação dos Servitas de Fátima, cuja primeira presidente foi uma religiosa dominicana com ascendência nesta paróquia, a Madre Maria Amada da Virgem Santíssima de Lima e Lemos, “alma e nervo da Associação durante 16 anos”, sucedendo-a mais tarde, como terceira presidente, uma sua irmã de sangue, a Irmã Maria Madalena de Pazzi, também natural de Avanca.

Mais tarde, quando a Irmã Lúcia, a última vidente das Aparições de Fátima, viveu no Carmelo de Coimbra, partilhou o quotidiano com a Irmã Margarida Teresa de Jesus Crucificado, com a Irmã Ângela do Menino Jesus, e com a Irmã Maria da Paz de Cristo, todas religiosas Carmelitas Descalças, também naturais de Avanca.

Em Fátima, celebrou a sua Missa Nova o Padre Vítor Hugo de Bastos Pereira, um sacerdote avancanense. Alguns sacerdotes naturais de Avanca também estudaram, viveram e foram ordenados no “altar do mundo”, como o Padre Doutor Frei Raimundo e o Padre Doutor Frei Armindo José da Costa Carvalho, ambos da Ordem dos Dominicanos.

Além destes, várias religiosas viveram e desempenharam as suas missões naquele lugar onde decorreram as aparições marianas de 1917, como a Irmã Cândida da Eucaristia (religiosa Missionária Reparadora do Sagrado Coração de Jesus), e a Irmã Ludgarda (religiosa Franciscana de Nossa Senhora das Vitórias).

A própria imagem peregrina de Fátima visitou a Paróquia de Avanca em 1951.

Actualmente, as Irmãs da Aliança de Santa Maria (Congregação Religiosa de Direito Diocesano inspirada na Mensagem de Fátima) vivem entre os Avancanenses e, no passado mês de Maio, entronizaram as imagens dos Pastorinhos de Fátima na igreja paroquial de Avanca.

Para além de tudo, Fátima está intrinsecamente ligada a vários milagres e a inúmeras peregrinações dos mais variados âmbitos, o que já vem acontecendo desde os seus primórdios.

Avanca, foi testemunha de um desses milagres, através de um dos seus mais proeminentes sacerdotes, o Padre António Augusto Tavares Martins, sobrinho das duas religiosas dominicanas acima mencionadas (presidentes dos Servitas de Fátima). Este sacerdote exerceu o múnus de pároco em Vila Nova da Telha (concelho da Maia) (de 1931 a 1934), Fânzeres (concelho de Gondomar) (de 1934 a 1944) e Campanhã em plena cidade do Porto (de 1944 a 1966), onde executou um “apostolado verdadeiramente modelar” durante mais de duas décadas, passando quatro meses como Capelão do Hospital da Lapa (Porto), e terminando o seu serviço paroquial como reitor de Válega (Ovar) (de 1966 a 1971). Faleceu no lugar da Valada, onde vivia, em Avanca, aos 74 anos, no dia 2 de Outubro de 1982, e foi sepultado no cemitério de Avanca, na sepultura da família, juntamente com um seu irmão sacerdote.

O Padre António Augusto Tavares Martins visitou Fátima por diversas vezes e fotografou vários desses momentos, em anos diferentes, tendo privado até com os pais de Jacinta e de Francisco Marto, dois dos videntes de Fátima. A acompanhar este artigo, partilham-se fotografias inéditas de algumas das peregrinações que fez a Fátima, como por exemplo, em 1943, onde se vislumbra o andor com a escultura de Nossa Senhora de Fátima da Capelinha das Aparições a atravessar o recinto do santuário.

No dia 13 de Junho de 1948, quando tinha 39 anos de idade, o Padre António Augusto Tavares Martins conduziu uma peregrinação ao Santuário de Fátima com um numeroso grupo de peregrinos da sua paróquia de Campanhã, à qual levou mais de 20 autocarros alugados. Presidiu à “Missa dos doentes” no altar instalado frente ao portão central da igreja do Rosário, durante a qual deu a Bênção Eucarística aos mais de 200 doentes inscritos. Durante a passagem da custódia pelos doentes, deu-se a cura milagrosa de uma rapariga de 19 anos, chamada Deolinda Gomes, proveniente da paróquia de S. Miguel das Aves (Santo Tirso), que sofria de peritonite tuberculosa há mais de cinco anos, com paralisia nas pernas e nos órgãos da cavidade abdominal, encontrando-se em estado muito grave. A sua condição tinha exigido um internamento hospitalar de 11 meses, quando foi radiografada por diversas vezes, operada ao apêndice, e alvo de vários tratamentos que nunca tinham surtido o efeito desejado. Era um caso clínico considerado incurável, estando já algo moribunda. Mas, naquele dia dedicado a Santo António, a 13 de Junho de 1948, foi levada à Cova da Iria, de automóvel, acompanhada por familiares e por uma religiosa Franciscana Hospitaleira. Ao receber a bênção, saltou num estremecimento da maca onde se encontrava deitada e foi conduzida ao hospital, onde já entrou pelo próprio pé. Este relato encontra-se publicado no “Comércio do Porto” de 14 de Junho de 1948 e na “Voz da Fátima” de 13 de Julho de 1948, nesta última publicação com fotografias da miraculada na capa.

A busca pela cura, os pedidos de um milagre como última solução para um familiar ou para um amigo doente, são o mote, para muitas vezes, o cristão se colocar a caminho rumo a Fátima, das mais diversas maneiras (ex: a pé, de bicicleta) e dos mais diversos modos (ex: a pão e água). É desejo que os passos dados e que o sacrifício a que o peregrino se submete, se transformem num milagre, numa cura. O peregrino pede que Nossa Senhora de Fátima seja sua intercessora junto de Deus e que interceda pelo motivo que o conduz ali, qualquer que ele seja.

A peregrinação a Fátima, com sacrifício, sofrimento, dor, para que se transforme numa melhoria luminosa, milagrosa e transformadora na vida de alguém, vem desde a época dos Pastorinhos. Eles próprios peregrinaram a favor de alguém, como Lúcia, que a mando de seu pai, correu até à Cova da Iria, prostrando-se depois de joelhos desde o lugar em que avistava a azinheira onde apareceu Nossa Senhora, para continuar essa peregrinação, de joelhos, até essa árvore, a fim de pedir a cura de sua mãe, que se encontrava muito enferma no leito. Daqui nasceu o passadiço em pedra desde o início da esplanada do santuário até à Capelinha das Aparições.

De facto, “Não há grito que Deus não ouça” clamava o Papa Leão XIV na mais recente audiência geral, de 11 de Junho de 2025, apelando a que continuássemos a pedir ao Senhor “com confiança que ouça o nosso clamor e que nos cure”. Em Portugal, temos o privilégio de poder pedir a intercessão de Nossa Senhora, em Fátima, aos nossos insistentes e sentidos pedidos, por isso aproveitemos este recurso com que fomos presenteados. A Paróquia de Santa Marinha de Avanca, desta nossa Diocese de Aveiro, tem tido esse privilégio desde o início das Aparições de Fátima, e que por acção divina assim continua a sua vida paroquial com uma ligação muito intensa àquele lugar sagrado, um dos mais visitados santuários marianos do mundo.


*Victor Bandeira, PhD
Departamento de Biologia e CESAM – Centro de Estudos do Ambiente e do Mar

Universidade de Aveiro


Referências bibliográficas

Bandeira V. (2022). Memorial Eclesiástico de Santa Marinha de Avanca. Paróquia de Avanca. Avanca. 496 pp. [Depósito legal: 501749/22].

Carmelo de Santa Teresa – Coimbra (2013). Um caminho sob o olhar de Maria – Biografia da Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado O.C.D. Edições Carmelo. Coimbra. 496 pp. [ISBN: 978-972-640-137-7].

Tavares Martins, Pe. António (1981). Memórias familiares e pastorais da minha vida. Edição de Autor. Avanca.


Referências online

A Santa Sé (sitio online https://www.vatican.va/content/vatican/pt.html) https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/audiences/2025/documents/20250611-udienza-generale.html


Fontes hemerográficas

Voz da Fátima (Jornal do Santuário de Fátima) n.º 310. 13 de Julho de 1948. (https://www.fatima.pt/en/documentacao/vf0310-voz-da-fatima-1948-07-13)


Fontes manuscritas

Tavares Martins, Pe. A. A. (1975). Arquivo jornalístico.


Legendas das Figuras

Figura 1. Padre António Augusto Tavares Martins na década de 40 – 50 do século XX

(Fotografia de Padre António Augusto Tavares Martins)

Figura 2. Padre António Augusto Tavares Martins (à direita) em Fátima, com os pais de Jacinta e Francisco (no meio), no dia 12 de Maio de 1938

(Fotografia de Padre António Augusto Tavares Martins)

Figura 3. Padre António Augusto Tavares Martins (com a custódia com o Santíssimo Sacramento) no Santuário de Fátima, no dia 13 de Junho de 1948, aquando do milagre da cura de Deolinda Gomes

(Fotografia de Padre António Augusto Tavares Martins)

Figura 4. Padre António Augusto Tavares Martins (com a custódia com o Santíssimo Sacramento) no Santuário de Fátima, no dia 13 de Junho de 1948, aquando do milagre da cura de Deolinda Gomes

(Fotografia de Padre António Augusto Tavares Martins)

Figura 5. Notícia do milagre da cura de Deolinda Gomes no Santuário de Fátima a 13 de Junho de 1948, no Comércio do Porto de 14 de Junho de 1948

(Arquivo jornalístico do Padre António Augusto Tavares Martins)

Figura 6. Notícia do milagre da cura de Deolinda Gomes no Santuário de Fátima a 13 de Junho de 1948, na Voz da Fátima de 13 de Julho de 1948

(In https://www.fatima.pt/en/documentacao/vf0310-voz-da-fatima-1948-07-13)

Figura 7. Procissão com o andor de Nossa Senhora de Fátima no seu santuário

(Fotografia do Padre António Augusto Tavares Martins)

Figura 8. Procissão com o andor de Nossa Senhora de Fátima no seu santuário a 13 de Outubro de 1943

(Fotografia do Padre António Augusto Tavares Martins)

Figura 9. Peregrinação de 13 de Outubro de 1943 ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima, com o bispo de Leiria (D. José Alves Correia da Silva)

(Fotografia do Padre António Augusto Tavares Martins)

Figura 10. Peregrinação de 13 de Outubro de 1943 ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima

(Fotografia do Padre António Augusto Tavares Martins)

Figura 11. Procissão com o andor de Nossa Senhora de Fátima no seu santuário a 13 de Outubro de 1943, com o bispo de Leiria (D. José Alves Correia da Silva)

(Fotografia do Padre António Augusto Tavares Martins)