Forma, espaço, cor e luz: a beleza que transcende | Notas em torno de questões de arquitetura e espiritualidade
Rosa Isabel Lopes*
O que é belo e sublime introduz o Homem na profundidade e Mistério de Deus. A Beleza permite aceder ao santuário interior da Oração e através dela uma maior proximidade ao coração de Deus, ao espaço íntimo da procura e do encontro, ao lugar do silêncio e da contemplação das coisas de Deus.
Ao colocarmo-nos diante de uma criação artística – uma pintura, escultura ou arquitetura – em atitude orante, somos projetados para este insondável Mistério, vislumbrando uma entrada de luz e uma fonte de cor que permitem sentir e tocar o invisível e eterno, entrar em comunhão e fazer a profunda experiência de Deus.
Atrevo-me agora a pedir a quem me lê, que pare diante desta pintura – Cristo Pantocrátor – fixe os olhos n’Aquele que o olha e se deixe tocar pelos movimentos que Deus lhe quiser dar a conhecer e a experimentar.

A palavra Pantocrátor, de origem grega (Παντοκράτωρ), significa Todo-Poderoso, Omnipotente, o que tudo pode, Senhor de tudo e Soberano Senhor.
Eu sou o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim, diz o Senhor,
Aquele que é, e que era, e que há-de vir, o Todo-Poderoso. (Ap 1,8)
A pintura representa Cristo Pantocrátor na Sua majestade com atributos de soberania demonstrando as suas duas naturezas – humana e divina – encarnadas na pessoa de Jesus Cristo, Filho de Deus e próprio Deus. Ele apresenta-se-nos com uma suave expressão de veneração, com uma auréola crucífera, sentado no trono em atitude de poder/autoridade, abençoando com a mão direita e mostrando com a mão esquerda um livro aberto.
Eu vi também, na mão direita do que estava sentado no trono,
um livro escrito por dentro e por fora, selado com sete selos. (Ap 5,1)
O rosto de Cristo é representado frontalmente contemplando quem O observa, somos olhados por quem está de rosto sereno e lábios muito suaves, doces, finos e calados, pousado um sobre a outro. Coroado por uma auréola dourada e em forma de cruz, do Seu rosto irradiam fios dourados, símbolo da divindade e santidade, símbolo desta Luz que é Vida e Deus.
Na cruz está inscrito o sagrado trigrama do nome de Deus – OWN (HO ÔN) – tradução do tetragrama sagrado hebraico hwhy (YHWH – Yahweh) revelado a Moisés no Monte Sinai. São as três letras gregas (ómicron, ómega e ny) e que significam «AQUELE QUE É». Jesus Cristo é o «EU SOU», é Yahweh, é o próprio Deus que Se revela no mais íntimo de cada um.
Deus respondeu a Moisés:
«EU SOU AQUELE QUE SOU». (Ex 3,14)
Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo:
antes que Abraão existisse, EU SOU. (Jo 8,58)
Sobre a estola estão inscritas as letras do alfabeto grego, A W(alfa e ómega), aplicando-se a Cristo, Princípio e Fim de todas as coisas. Este conjunto simboliza a eternidade de Jesus Cristo e assim nos mostra que Ele participa da divindade – Ele é o Verbo de Deus.
No princípio era o Verbo,
e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. (Jo 1,1)
A Sua mão direita dirige-nos a bênção. Num gesto simples e, em sinal de cruz, Cristo faz descer a Sua bênção e Graça sobre os fiéis que O escutam e contemplam. Sobretudo, é a bênção que o sacerdote transmite na Eucaristia em nome do próprio Jesus Cristo. É denominada a bênção «à maneira grega», na qual os dedos aparecem em posições com um significado simbólico. Apenas na união do polegar ao anelar permite que o dedo indicador e o médio formem o nome de IC (o dedo indicador forma o I e o dedo médio curvado forma o C = S) e o polegar e o anelar ao unirem-se obliquamente e o mínimo que está ao lado, formam o nome XC (a obliquidade do mínimo estando ao lado do anelar formam a letra X e o mínimo que tem a forma curva indica o C = S). IC XC é o monograma grego do nome Jesus Cristo «Iesous Christós».
A Sua mão esquerda sustenta o livro aberto do Evangelho, que contém o «alegre anúncio», a «Boa Nova» que é o próprio Jesus Cristo e a Sua mensagem salvífica. Nele está inscrita a passagem do Evangelho «Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14,6). Jesus Cristo é realmente o único caminho para contemplarmos o rosto de Deus. É a verdade e a vida, pois precisamos de colocar Jesus Cristo no nosso coração e na nossa vida para que tenhamos a grande dádiva de Deus, a vida eterna.
O fundo dourado que envolve toda a composição representa a luz de Deus. Jesus Cristo é a manifestação da eterna glória de Deus. Os seus olhos são extremamente doces e misericordiosos, penetram serenamente o mais profundo da alma de quem O contempla. É um olhar firme e doce que nos convida a entrar em íntima comunhão com Deus.
Ninguém jamais viu Deus.
O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem O revelou. (Jo 1,18)
Os restantes traços do rosto são bem definidos, sobrancelhas arqueadas, nariz longo e delicado que inunda todo o ser, a boca é a parte mais sensual do corpo e dela brotam a Palavra e o silêncio da oração. O pescoço é forte, simbolizando o alento vivificador do Seu Espírito.
O Manto que cobre o ombro esquerdo e cinge o peito é símbolo de uma força própria reveladora da dignidade e nobreza da Sua condição de Filho unigénito de Deus, de Rei e Senhor do Universo.
Tu o dizes: eu sou rei. Para isso nasci e para isto vim ao mundo:
para dar testemunho da verdade. (Jo 18,37)
O vermelho é a cor das vestes da realeza, do amor e da vida. É simultaneamente a cor do sacrifício pois, Jesus Cristo é o «Filho do Homem», o «Messias», o «Ungido», o «Justo», o «Rei» preparado para sofrer e salvar a humanidade. Ele é a própria salvação presente no hoje de cada um de nós.
A cor azul da túnica que envolve todo o corpo de Cristo atribui-se à natureza divina do Verbo, ao facto de, ser Filho de Deus. Na sua profundidade, para os homens, esta cor é símbolo de santidade e de caminho de fé.
Sobre o ombro direito de Cristo desce uma faixa vertical com detalhes dourados, ela é símbolo do sacerdócio eterno de Jesus Cristo, único e verdadeiro sacerdote, como o foi na oferta da Sua própria vida e hoje, continua a ser no ministério de Sacrifício ao Pai, através do sacerdote que em Seu nome preside à Eucaristia. É Jesus Cristo o sumo-sacerdote eterno.
Este [Jesus Cristo], porque vive para sempre
possui um sacerdócio eterno. (Hb 7,24)
Todo este conjunto simboliza a eternidade de Jesus Cristo e mostra-nos que Ele participa da natureza divina – Ele é o Verbo de Deus. O seu silêncio é a Palavra levada à profundidade máxima da sua significação, é a possibilidade de um verdadeiro – espaço de encontro com Deus!
*Rosa Isabel Lopes, 37 anos, Arquitecta e Catequista.
Imagem, «Cristo Pantocrátor»,
Igreja de São Bartolomeu do Roxico, 2010
autor Padre Franclim Pacheco, pintor José de Oliveira.