Qui. Jun 24th, 2021

70 ANOS DUDH | REFLEXÕES

O Drama da Integração

Diác. Francisco Santos*

“Não oprimirás o estrangeiro que vier viver contigo na tua terra; amá-lo-ás como a ti mesmo, porque fostes estrangeiro na terra do Egipto” (Lev. 19,34).

Nos nossos dias muito se tem falado da vaga migratória que parece cada dia aumentar de volume. Chegam à nossa região grande número de migrantes oriundos, principalmente, da Venezuela e que vão fazendo abertura de noticiários e enchendo páginas de jornais.

O caso obriga a reflexão apurada e implica conhecimento profundo desta realidade.

O migrante é forçado a modificar certos aspectos que definem a sua pessoa e, mesmo sem querer, obriga também a mudar quem o acolhe. É necessário viver estas mudanças de modo que não se tornem obstáculo ao verdadeiro desenvolvimento, mas sejam ocasião para um autêntico crescimento humano, social e espiritual, respeitando e promovendo aqueles valores que tornam o homem cada vez mais homem no justo relacionamento com Deus, com os outros e com a criação.

Devemos reaprender a riqueza da diversidade, reconhecer o outro como igual, aquele que vem de fora que não tem a mesma língua, os mesmos costumes ou até a mesma religião, educar as comunidades para a interculturalidade e valores vão ajudar a desenvolver uma melhor compreensão das culturas e a cultivar uma atitude de maior abertura e uma capacidade de comunicar entre pessoas de culturas diferentes. Urge desenvolver um sentimento de segurança e confiança no outro que só pelo Amor e afectividade humana de proximidade se consegue.

É papel de cada um sensibilizar para o princípio da hospitalidade através da criação de acções que promovam o acolhimento de quem se vê em situação migratória. Somos co-responsáveis pelos nossos irmãos e como cristãos somos chamados à participação na sua promoção, pela criação de uma sociedade inclusiva e pelo respeito do outro como cidadão com os mesmos direitos e deveres (ainda que isso não seja reconhecido!).

Penso que pouco temos feito para informar e sensibilizar para o acolhimento de pessoas com culturas diferentes, uma sociedade informada depressa recusa a política do medo que paralisa. São muitos os chavões que ouvimos quando se fala em acolhimento aos migrantes e poucas as vozes que se levantam em sua defesa.

Precisamos de acções concretas, debates nas comunidades, testemunhos de quem acolhe e foi acolhido, material informativo que dê a conhecer as estruturas existentes e que podem apoiar.

A vinda de migrantes interpela seriamente as diferentes sociedades que os acolhem. Estas enfrentam factos novos que podem aparecer imprudentes se não forem adequadamente motivados, geridos e regulados. A integração deve ser um enriquecimento mútuo, deve abrir percursos positivos para as comunidades e não dar lugar à discriminação, ao racismo, ao nacionalismo extremo e xenofobia.

Os migrantes, mais do que números, são pessoas. Somente esta visão qualitativa desafia a sociedade para uma cultura do encontro e da valorização de relacionamentos positivos entre os vários intervenientes no acolhimento, respeito e participação rumo a mundo melhor.

*Responsável pelo Departamento da Mobilidade Humana e Turismo da Diocese de Aveiro

(Artigo que se insere no âmbito das comemorações do 70º Aniversário da proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos – Plataforma “Aveiro Direitos Humanos” / Diário de Aveiro)