Sáb. Out 23rd, 2021

70 ANOS DUDH | REFLEXÕES

“No Caminho dos Direitos Humanos”

Pe. João Gonçalves

 

Este ano trazemos à memória, e à conversa, a celebração dos setenta anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O dia 10 de Dezembro de 1948 é data que ficou no registo de Povos e Nações, marcante, pela aprovação, na Assembleia Geral das Nações Unidas, de uma solene Declaração, que viria a promover uma verdadeira revolução, no modo de conceber a igualdade de direitos para todas as Pessoas.

Trata-se de uma Declaração, de um documento que, só por si, mesmo com a força e a clareza da letra, infelizmente, não resolve as desigualdades que ainda hoje são um pesado fardo, para milhões e milhões de cidadãos espalhados pelo mundo!

É por isso que a recordação do DIA nos faz voltar a falar, e cada vez com força maior, a sua aplicação em todos os Países, e concretizada em todas as Pessoas. Muito caminho se percorreu, nestes setenta anos, mas estamos longe de poder dizer que os Direitos Humanos são uma realidade aplicada, vivida e sentida, universalmente, em todos os cantos, onde quer que exista uma Pessoa…

O grito de Povos inteiros, e nem sequer se fala de minorias, é uma realidade, a pedir a aplicação de uma tão excelente como urgente Declaração! Há países e, dentro de certos países, em que o caminho dos Direitos Humanos ainda está no começo ou, porventura, ainda em ponto, que se pode verdadeiramente chamar de “ponto morto”, para não dizer de “ponto que mata” direitos, dignidades, garantias, liberdades! Não podemos silenciar o que “vemos, ouvimos e lemos”; há gritos a que não podemos fechar ouvidos, nem coração, nem actuação, nem mobilização em direcção à Paz.

A Pessoa, com a sua dignidade de Pessoa, e por ser Pessoa, está acima de tudo o que possam ser conceitos os preconceitos, de qualquer espécie, venham de donde vierem; mesmo que nasçam da força ou do poder das armas, do dinheiro ou da cátedra: o Ser Humano tem de ser a razão de tudo, e a todos devem ser reconhecidos iguais direitos, deveres e respeito.

Há instituições que nasceram precisamente para obviar e resolver ou, ao menos, minorar ofensas e faltas de respeito por direitos fundamentais, como sejam a vida, a família, a alimentação, a habitação, a pátria, a liberdade, a instrução, o trabalho…

Há cerca de oitenta anos nasceu, em Aveiro, pelas mãos bondosas e o coração atento e sensível de um Bispo Aveirense – D. João Evangelista de Lima Vidal – uma dessas instituições de solidariedade social, a que ele mesmo quis chamar de FLORINHAS DO VOUGA: “Florinhas” eram as Pessoas, frágeis, que precisavam de especiais cuidados e atenções. O nome já era cópia das que deixara criadas em Angola, em Lisboa e em Vila Real.

Em Aveiro, as Florinhas do Vouga –IPSS – são uma Instituição Diocesana de Solidariedade, de Superior Interesse Social, ao serviço das Pessoas a quem ainda não chegaram todos os direitos fundamentais.

Famílias, Jovens, Crianças ou Idosos, Pessoas em situação de Sem-Abrigo, ou com dependências, ocupam o primeiro lugar nas tarefas de tentar as melhores respostas, quer as que são exigidas no imediato, quer na adopção de medidas que ajudem as Pessoas a sair de situações, nem sempre próprias da dignidade humana.

Com possibilidade de acolhimento e de atendimento, disponibilizamos à Comunidade um Refeitório Social, Balneário, Rouparia, Apoios vários a Idosos – Serviço de Apoio Domiciliário, Centro de Convívio Intergeracional, Lar Residencial – Serviços de Educação, visitas na via pública para a área das toxicodependências e da prostituição, ajuda e apoio nos estudos, animamos actividades lúdicas e desportivas junto da população…atentos sempre ao aparecimento de novas e antigas formas de pobreza e da percepção da ausência do respeito pelos Direitos Humanos das Pessoas…

Todavia, a pobreza – como grave ofensa a um dos direitos fundamentais! – não terá fim à vista, enquanto a falta de atenção a todos, a má nutrição, o desperdício alimentar forem uma triste realidade!

A paz, como uma urgência, é insustentável e não será realidade próxima, enquanto em terra e no mar, milhões e milhões de Seres Humanos vaguearem, no meio de sustos e de perigos, reais, como Pessoas indesejadas, não queridas e perseguidas, pelo simples facto de não poderem residir em segurança na terra que as viu nascer; e têm de ousar ultrapassar fronteiras, para encontrarem um lugar, que lhes é puramente negado!

Às Instituições de proximidade, como as Florinhas do Vouga e tantos Centros Sociais, Associações de Solidariedade, e outras, fica o encargo, e a carga social de fazerem a sua parte, e de não deixarem adormecer as organizações governamentais, nacionais e internacionais, para que os Direitos Humanos sejam aplicados e respeitados em todos os HUMANOS…

Aceitar ser a voz, e ser ampliador da voz dos milhões de silenciados, é missão nossa: os gritos de dor, de sofrimento ou de revolta de tantos e tantos Homens e Mulheres, Crianças e Adultos, desrespeitados nos seus Direitos Fundamentais, têm de dar lugar à escuta e ao esforço de tentar as respostas que, de mãos dadas, é urgente encontrar!

Neste contexto, não posso deixar de citar o Papa Francisco, na sua recente Mensagem para o Dia Mundial dos Pobres (18 de Novembro de 2018):

“É do silêncio da escuta que precisamos, para reconhecer a voz deles. Se falamos demasiado, não conseguiremos escutá-los”.

Escutar a voz dos Pobres, e torná-la ainda mais forte, juntando a nossa voz à de todos os sofredores, é dar já um forte contributo para uma eficaz comemoração da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Damos as mãos aos Parceiros da “Plataforma Aveiro Direitos Humanos”, para que a voz seja mais forte e os resultados visíveis e eficazes; e duradouros!

 

*“Florinhas do Vouga”

(Artigo que se insere no âmbito das comemorações do 70º Aniversário da proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos – Plataforma “Aveiro Direitos Humanos” / Diário de Aveiro)