Sáb. Out 23rd, 2021
‘Vestigia Dei ‘- Rubrica dedicada à reflexão sobre o lugar de Deus na poesia portuguesa
(Parceria com o projeto Teotopias)

PÓRTICO

A POUCO E POUCO VEMOS ONDE MORA[1]

José Rui Teixeira

Data de 2014 a antologia Verbo – Deus como interrogação na poesia portuguesa[2], organizada e prefaciada por José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia. Não se trata, com efeito, de uma antologia de poesia religiosa portuguesa; e mesmo que a sua leitura possa convocar e provocar interrogações sobre Deus, o seu propósito – explicitamente expresso – é o de perscrutar «Deus como interrogação na poesia portuguesa», convocando para isso treze poetas nascidos no século xx[3]. Terei essa antologia presente ao longo desta reflexão sobre o «lugar de Deus» na poesia, particularmente no contexto da poesia portuguesa. E tê-la-ei presente na medida em que a interrogação teoliterária – ou especificamente teopoética – pode ser um «lugar»: lugar de interseções e interações, convergências e dispersões, encontros e desencontros; e o poema «onde» essa interrogação assoma pode ser concebido como uma «teotopia» da qual nos abeiramos até se tornar uma estância. Para topografar os lugares de Deus na poesia talvez tivéssemos de dispor dos rudimentos de uma ciência como a teotopologia literária.

Com efeito, se a teotopologia literária existisse, não seria apenas uma espécie de topografia de teologemas. Nem teria a pretensão de resultar num estudo sobre a colocação ou disposição, num texto, de teologemas ou de semantemas análogos ao semantema «Deus». Se existisse uma teotopologia literária, e se alguma pragmática lhe assistisse, serviria certamente para estabelecer sistemas de coordenadas multidimensionais que, nos vastos territórios da literatura, permitissem situar a teoliterária, analisar a sua organicidade paradoxalmente eutópica e distópica, e documentar a diversidade topológica de teotopias, esses lugares que Deus (como interrogação) habita, mesmo quando parece habitar apenas o sentimento da sua ausência.

Se a teotopologia literária existisse, creio que o teologismo seria a sua primeira e mais perigosa tentação. Outras tentações – benevolamente mais ingénuas – seriam inevitáveis, como a de sobrepor simplisticamente teotopia e teofania, ou a de supor uma relação de inerência entre teoliterária e teopneustia.

Se a teotopologia literária existisse, creio que não poderia prescindir de ferramentas como a comoção estésica e a intuição (enquanto pressentimento da verdade). Tratar-se-ia de uma heurística e tornar-se-ia uma importante ferramenta para perscrutar Deus como interrogação na literatura. Na literatura em geral e concretamente na poesia, sendo que a poesia não é apenas um género literário, mas – mais profundamente – uma condição essencial que perpassa e qualifica todas as formas de arte[4]. E, aqui, importa esclarecer que o deslocamento do objeto não diminui o alcance dessa teotopologia que, em última análise, não prescindiria dos seus pressupostos nem da sua metodologia quando incidisse sobre sistemas mais vastos, galáxias como a da teoestética.

[1] Ibid., p. 36.

[2] José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia (org.), Verbo – Deus como interrogação na poesia portuguesa, Porto, Assírio & Alvim, 2014.

[3] Vitorino Nemésio (1901-1978), Ruy Cinatti (1915-1986), Jorge de Sena (1919-1978), Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), Fernando Echevarría (1929), José Bento (1932), Ruy Belo (1933-1978), Cristovam Pavia (1933-1968), Pedro Tamen (1934), Armando Silva Carvalho (1938), Carlos Poças Falcão (1951), Adília Lopes (1960) e Daniel Faria (1971-1999).

[4] Entre tantas referências que me ocorrem, gostaria de destacar a de Borges (Arte poética, Barcelona, Editorial Crítica, 2001) e a de Derrida (Che cos’è la poesia?, Coimbra, Angelus Novus, 2003).

 

Textos recolhidos de TEIXEIRA, José Rui – Vestigia Dei: Uma leitura teotopológica da literatura portuguesa. Maia: Cosmorama Edições, 2019, 78pp.