Dom. Jun 13th, 2021
‘Vestigia Dei ‘- Rubrica dedicada à reflexão sobre o lugar de Deus na poesia portuguesa
(Parceria com o projeto Teotopias)

ANTECÂMERA

POR MUITOS ROSTOS GESTOS LONGES DISPERSADO[1]

José Rui Teixeira

Admitamos – mesmo que se trate de um exercício inútil – que desejamos estabelecer os rudimentos da teotopologia literária. Não basta, com efeito, resistir à tentação do teologismo, é preciso evitar uma certa tendência reducionista que enferma a história e a teoria da literatura, denunciada por María Negroni em El arte del error:

Uno de los malentendidos más viejos en materia literaria es el que se empeña en clasificar las obras en categorías, géneros, escuelas, allí donde, en sentido estricto, no hay más que autores, es decir, aventuras espirituales, asaltos y expediciones dificilísimas que se dirigen a un núcleo imperioso y siempre elusivo.[2]

Isto permite-nos a afirmação de um primeiro pressuposto: no âmbito da teotopologia literária, o lugar não é um compartimento e nenhuma categoria geral se sobrepõe à experiência dialógica e comunial – idiossincraticamente considerada – que ocorre no texto-lugar: o encontro entre o autor e o leitor. A teotopologia literária não pode enfermar da tendência para a compartimentação e catalogação obsessivas, causa e efeito do exercício academista de esquadrinhar, redutoramente, até ao limite da exaltação do catálogo e da ininteligibilidade (ilegibilidade) do conteúdo catalogado.

Prescindindo hermenêuticamente da comoção estésica e da intuição (enquanto pressentimento da verdade), o texto-lugar será pouco mais do que um cadáver dissecado ou autopsiado; e o compartimento e o catálogo tornar-se-ão fins em si mesmos, tendo já perdido o seu importante múnus instrumental.

Ocorre-me – já o escrevi antes[3] – a irrepreensível organização e arrumação de uma biblioteca escolar que conheci há uns anos, obstinadamente guardada pela sua zelosa bibliotecária. Um observador distraído julgaria que aqueles livros estavam arrumados por força de não serem lidos, mas – na verdade – os livros não eram lidos apenas por força de estarem arrumados.

Com efeito, na sequência de circunstâncias como estas, o maior dano que uma certa hermenêutica academista e escolar pode infligir à literatura é precisamente a pretensão de ser autossuficiente, a pretensão de deixar no leitor a consciência de que a hermenêutica literária pode substituir-se à literatura.

Nesse sentido, o ponto de partida do exegeta deveria ser a consciência de que, com o tempo, ninguém trocará a leitura hermenêutica, por muita acuidade e pertinência que lhe assistam, por um parágrafo do texto interpretado. É isso que nos lembra Ramón Ribeyro nas suas Prosas apátridas:

A crítica não se opõe necessariamente à criação e são conhecidos casos de criadores que foram excelentes críticos e vice-versa. Mas geralmente as duas atividades não se dão bem juntas, pois o que as separa é uma maneira diferente de operar sobre a realidade. Depois de ler as atas de um colóquio sobre Flaubert fiquei assombrado com o saber, a inteligência, a argúcia, a subtileza e até com a elegância dos conferencistas, mas ao mesmo tempo dizia para comigo: «Dentro de cinco ou dez anos ninguém lerá estes homens que desconstruíram tão lucidamente a obra de Flaubert. Um só parágrafo dele, eu diria mesmo uma única das suas metáforas, tem mais longevidade do que estes trabalhos laboriosos.» Porque será? Só consigo encontrar uma explicação: os críticos trabalham com conceitos, e os criadores com formas. Os conceitos passam, as formas ficam.[4]

Afirma-se, assim, um segundo pressuposto: no âmbito da teotopologia literária, os conceitos não se sobrepõem às formas e a exegese não se sobrepõe nem se substitui ao texto. O mistério íntimo que habita cada teotopia – enquanto lugar de encontro, mas também de desencontro – não se esquadrinha desde o exterior, ao modo da dissecação de um cadáver. No âmbito da teotopologia literária, o exegeta tem de adentrar-se no mistério e só alumiará na medida em que se deixar alumiar, sendo o seu ofício, tantas vezes, apenas o de perscrutar essa lâmpada apagada «cujo ouro brilha no escuro pela memória da extinta luz»[5], como escreveu Pessoa.

É ainda Ramón Ribeyro quem nos lembra que «a existência de um grande escritor é um milagre»[6]. E talvez não seja despropositado afirmar que, na sequência desse milagre, o exegeta pode bem não ser mais do que uma contingência.

Importa, finalmente, para a afirmação de um terceiro pressuposto, convocar Walter Benjamin e o seu Das passagen-werk: «“A verdade não há de escapar-nos”, lê-se numa passagem do epigrama de Keller. Fica assim formulado o conceito de verdade com que se rompe nestas exposições»[7]. É ainda Benjamin quem nos adverte: «A história que apresentou as coisas “como elas realmente foram” foi o mais potente narcótico do século»[8].

O terceiro pressuposto pode bem ser este: no âmbito da teotopologia literária, é muito provável que a verdade nos escape. Mais: na teotopologia literária a verdade é tanto mais referencial, quanto mais despossuída. Aí se escora a intuição como pressentimento da verdade. Fernando Pessoa escreveu que «não há verdade senão no supô-la»[9]; seria o mesmo que dizer que não há verdade senão no pressenti-la: verdade que se pressente e que, por isso, ocasionalmente escapa e que – mesmo quando não escapa – não se chega a possuir. Sem prescindir – e precisamente por não prescindir – da acuidade da inteligência, a teotopologia literária não tem a presunção de apresentar as coisas como elas realmente são.

[1] Ruy Belo, Todos os poemas, p. 109.

[2] María Negroni, El arte del error, Madrid, Vaso Roto Ediciones, 2016, p. 9.

[3] Cf. «A vida é um simulacro. Leituras de Húmus de Raul Brandão e de Grito de Rui Nunes», in Raul Brandão: 150 anos, Porto, Câmara Municipal do Porto, 2018, pp. 90-102.

[4] Julio Ramón Ribeyro, Prosas apátridas, Porto, Edições Ahab, 2011, p. 99.

[5] Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013, p. 156.

[6] Julio Ramón Ribeyro, Prosas apátridas, p. 23.

[7] Walter Benjamin, Libro de los pasajes (N 3 a, 1), Madrid, Ediciones Akal, 2017, p. 466.

[8] Ibid. (N 3, 4), p. 465.

[9] Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, p. 239.

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Textos recolhidos de TEIXEIRA, José Rui – Vestigia Dei: Uma leitura teotopológica da literatura portuguesa. Maia: Cosmorama Edições, 2019, 78pp.