Sáb. Out 23rd, 2021
‘Vestigia Dei ‘- Rubrica dedicada à reflexão sobre o lugar de Deus na poesia portuguesa
(Parceria com o projeto Teotopias)

[8.] O DESASSOSSEGO DA SALVAÇÃO

AQUI SÓ PODE SER A CASA DE DEUS[1]

José Rui Teixeira

Parece certo que a literatura – sem um compromisso especificamente soteriológico – gosta de conduzir o homem para o desassossego da salvação[2], desde os grandes poetas e tragediógrafos gregos a Virgílio – essa «antena inquieta» do mundo antigo[3] –, de Dante e de Hölderlin a Dostoievski, de Antero de Quental a Daniel Faria. Como afirma Jorge Coutinho,

a literatura percorre os labirintos da vida, remexe as profundezas do psiquismo humano, põe de manifesto o que passa ao lado da observação vulgar, denuncia as iniquidades da ordem estabelecida, questiona as certezas demasiado certas, abala as verdades petrificadas, levanta interrogações, provoca dúvidas, abre novos horizontes […]. Onde tudo é normal suscita espanto. Torna-se antecipadora das grandes questões de que irão ocupar-se os filósofos e os teólogos.[4]

E isso não é menos verdade hoje do que foi no passado. Esse grande silêncio sobre Deus que nos provoca o sentimento da ausência de Deus pela constatação da ausência explícita do semantema, nem corresponde ao silêncio de Deus, nem é um verdadeiro silêncio sobre Deus. Com Gadamer, diremos que a literatura, como forma específica do dizer humano, «não é apenas o lugar ou o meio onde Deus, como quer que seja (nomeado ou silenciado, afirmado ou combatido, adorado ou vilipendiado), anda dito. Ela é também um meio ou instrumento privilegiado do nosso dizê-lo»[5].

Em «A primitiva labareda», Tolentino Mendonça – evocando Ossip Mandelstam – lembra que «a poesia é a charrua que opera sobre o tempo para fazer emergir o que, nele, repousa no profundo». E conclui:

Se, de facto, uma relação se pode ainda estabelecer entre a poesia moderna e alguma coisa da ordem do sagrado, isso passa pelo relato dos sulcos que, pacientemente, revolvem as devastações da terra em busca de um brilho, de uma razão, de uma palavra ou transtornam as escuridões planetárias que nos habitam, na esperança de um não sei quê agitado de esplendor. De que forma? Tanto pelo despertar do encantamento que religa a palavra ao silêncio, o visível ao invisível, por uma espécie de integridade inseparável que se descobre em nós e nas coisas, como pelo desencanto face ao inaceitável do mundo, à repetição sonâmbula do mal, à violência desmedida da banalidade que contamina tudo.[6]

Estamos no âmago daquilo que seria – acaso existisse – o exercício da teotopologia literária. A «charrua que opera sobre o tempo», nas palavras de Ossip Mandelstam, ou a «clareira da verdade», numa hermenêutica inspirada por Heidegger: a clareira que se abre no dizer poético, «enquanto dizer metaforizante e simbolizante»[7], dizer que diz e silencia, desvela e encobre, enuncia o mistério não como quem exibe, mas como quem se adentra no mistério.

Talvez Deus – a ideia de Deus, o mistério de Deus, Deus como interrogação – esteja mais encoberto neste nosso tempo, vivamos a pós-modernidade ou a hipermodernidade, ou nem uma coisa nem a outra. Sob tantos escombros, talvez Deus esteja mais omisso neste mundo «largamente desdivinizado», essa «coisa sem transcendência», como denunciou Ortega y Gasset,

distraído que está da profundidade dos grandes símbolos, dos códigos matriciais das linguagens que rondam o mistério que se consuma em nós, enquanto dispersa a sua fortuna no raso comércio de sinais que se pretendem diretos e imediatos, longe, muito longe, da preocupação pelo fulgor íntimo de um sentido.[8]

Ou talvez o mundo tenha sido sempre essa «coisa sem transcendência», esse tempo de indigência que depende dos poetas para uma centelha de espanto, mesmo que já não ergam cidades nem civilizem povos. Talvez as cordas solenes e soberanas da lira de Orfeu não tenham emudecido para sempre.

A poesia – a literatura, a arte – torna-se «antecipadora das grandes questões de que irão ocupar-se os filósofos e os teólogos», porque é intuitiva, criativa, problematizante. Arrisca dizer Deus nos limites da sua própria inteligibilidade, como um funâmbulo que caminha sobre uma corda esticada, tensa; um funâmbulo sem rede, numa certa suspensão ensimesmada, abstraída. E talvez seja essa a única forma de dizer Deus em tempos de indigência: uma espécie de funambulismo sonâmbulo, no limite da inteligibilidade da realidade, por dentro da ininteligibilidade em que Deus – a ideia de Deus, o mistério de Deus, Deus como interrogação – é ainda inteligível, no limite da consciência do risco assumido em cada movimento, no instante frágil de cada equilíbrio, de cada silêncio recolhido pela «mão trémula/ pobre/ assinalada pela escassez extrema dos nomes»[9], como se lê num poema de Tolentino Mendonça.

O lugar de Deus na poesia – na literatura, na arte – contemporânea é ainda um lugar que se pressente, que se intui. Pode ser menos explícito do que nas formulações de outros contextos histórico-culturais, mas nem por isso é menos autêntico. Com efeito, talvez seja legitimamente mais interrogativo, mais fraturante, mais coerente com um certo sentido de implicitude sem o qual Deus se torna um dado adquirido, uma mera construção, o produto de uma racionalidade redutora: um deus à imagem e semelhança de um homem que já não sabe conceber-se – intuir-se – à imagem e semelhança de Deus.

Não se trata de uma atitude refratária ao discurso teológico e filosófico sobre Deus, mas a consciência de que, no caso concreto do cristianismo, a teologia tende muitas vezes a ser o meio de legitimação dos processos de subversão da poética do Evangelho. Como lembra Paul Tillich:

Não é fácil pregar cada domingo sem se elevar a pretensão de possuir Deus e de poder dispor dele. Não é fácil pregar Deus às crianças e aos pagãos, aos céticos e aos ateus, e ter de lhes explicar, ao mesmo tempo, que nós próprios não possuímos Deus, mas que o esperamos. Eu estou convencido de que a resistência ao cristianismo vem em grande parte do facto dos cristãos, abertamente ou não, erguerem a pretensão de possuir Deus e terem assim perdido o elemento de expectativa.[10]

E nesse sentido, mesmo com a erosão de tanta inocência perdida, mesmo com uma vaga melancolia dispersa em desgastes e desgostos muitos, talvez este nosso indefinido tempo de indigência nos permita perceber que Deus não é de possuir; talvez os teólogos e filósofos cristãos tenham de (re)aprender com os poetas a esperar Deus sem a pretensão de possuí-lo; talvez a poesia – a literatura, a arte – seja hoje uma espécie de sacrário sem a pretensão de conter (um)a «presença real»: uma teotopia.

Com efeito, não sei se Deus está mais presente na poesia – na literatura, na arte – contemporânea do que em outros modos de presença (e pertença), em outros contextos histórico-culturais. Mas estou certo de que Deus não está mais presente numa poesia que o enuncia explicitamente, do que numa poesia que implicitamente o pressente. E creio que o sentimento de ausência é, muitas vezes, expressão de uma «presença mais pura»[11], mesmo que não saiba exatamente o que isso signifique – penso ainda na lâmpada apagada «cujo ouro brilha no escuro pela memória da extinta luz»[12].

E creio que o Deus implícito – e ocasionalmente explícito[13] – na obra de tantos poetas contemporâneos é aquele no qual uma profissão de fé continua a ser um horizonte de possibilidade de abertura à transcendência, a verdade íntima do mistério do homem que se coloca diante do mistério de Deus, a inteligibilidade do homem que percebe – na sua intrínseca ininteligibilidade – a ininteligibilidade em que Deus se torna poeticamente inteligível.

E creio que a poesia é um lugar onde Deus é – ainda – um nome possível, essa charrua que opera sobre o tempo para fazer emergir o que, nele, repousa no profundo; pode ser essa clareira da verdade, de uma verdade que escapa. Talvez já não erga cidades nem civilize povos, mas creio que persiste onde realmente importa: nesse íntimo «fundo informulado de uma vida»[14] – como se lê num poema de Herberto Helder –, que não nem da ordem do profano, nem da ordem do sagrado: mas uma dessas estâncias transimanentes que Deus habita como interrogação – uma teotopia.

E para que servem poetas em tempos de indigência? Servem para redescobrir esse espaço em que a imanência e a transcendência se intersetam. O poeta a que se refere Hölderlin desdobra a área de interseção transimanente – lugar coabitado, teotopia poética. O poeta desdobra a área de interseção transimanente é um mediador, agente de intercessão ao modo do santo, mas em sentido inverso: o santo intercede pelos homens junto de Deus, o poeta intercede por Deus junto dos homens[15].

Para que servem poetas em tempos de indigência? Servem ainda para perscrutar o que move a mão escrevente. E o que move a mão escrevente? É

uma qualquer compaixão pela vida, nua, pobre, passada, inocente, esquecida, sussurrante, amante, quase nada. Uma compaixão que ordena a mão na procura disso que, numa novela de Henry James, se explicita assim: E a ti, o que te salva? Oh, os que não sabem que a mão escrevente é a mão que salva![16]

[1] Ruy Belo, Todos os poemas, p. 210.

[2] Expressão de Paul Poupard – cf. O Cristianismo no limiar do iii milénio, Porto, Livros do Brasil, 2001, pp. 35-52.

[3] Expressão de Charles Moeller – cf. Umanesimo e santità, Brescia, Morcelliana, 1950, p. 53.

[4] Jorge Coutinho, «Deus na Literatura», in Communio 6, Ano xix, 2002, p. 495.

[5] Ibid., p. 497.

[6] José Tolentino Mendonça, «A primitiva labareda», p. 10.

[7] Jorge Coutinho, «Deus na Literatura», p. 498.

[8] José Tolentino Mendonça, «A primitiva labareda», p. 10.

[9] José Tolentino Mendonça, A noite abre meus olhos, p. 42.

[10] Paul Tillich, The shaking of the foundations, Londres, Pelican Books, 1963, p. 152.

[11] Expressão de José Tolentino Mendonça – cf. A noite abre os meus olhos, p. 94.

[12] Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, p. 156.

[13] É o caso de «Animal litúrgico», inédito com que Valter Hugo Mãe abre a recente edição da sua poesia reunida – cf. Publicação da mortalidade, Porto, Assírio & Alvim, 2018, pp. 13-30.

[14] Herberto Helder, Ofício Cantante – poesia completa, Lisboa, Assírio & Alvim, 2009, p. 109.

[15] Ocorrem-me as palavras de Jaime Cortesão em Portugal, a Terra e o Homem: «Depois atinge-se Amarante debruçada sobre o rio, vila antiga e solarenga dum santo e dum poeta, de São Gonçalo e de Teixeira de Pascoaes. Poetas como este, por vezes mais que os santos, santificam a vida» – Lisboa, Artis, 1966, p. 86.

[16] José Tolentino Mendonça, «A primitiva labareda», p. 10.

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Textos recolhidos de TEIXEIRA, José Rui – Vestigia Dei: Uma leitura teotopológica da literatura portuguesa. Maia: Cosmorama Edições, 2019, 78pp.