GLOSASEspaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente

Glosas a Brève apologie pour un moment catholique

– Catholique et français –

(pp. 15-47)

(Cont.)

 [Primeiro texto: aqui.]

Tiago Azevedo Ramalho

 

– 13. Dois exemplos. A «laïcité».O segundo exemplo é constituído pela laïcité, fórmula característica da configuração identitária do poder político em França. Introduz Marion o tema com uma referência incómoda: «a fraqueza actual da laicidade resulta de irrupção na sociedade francesa de um inimigo antigo, mas recentemente revitalizado, o Islão» (p. 42), que, num certo tipo de sua presença pública, vem abalando o sentido de laicidade instituído em 1905 (Lei da Separação), sentido esse que, de uma forma ou outra, é reconhecido pelas instituições religiosas tradicionais. Perante este novo quadro, duas são as conclusões proposta por Marion.

            A primeira é a essencialidade de, num contexto de pluralidade de formas de crença, distinguir entre o Estado, que deve permanecer neutro, e a sociedade, como espaço «não neutro nem laicizado», renunciando prontamente à pretensão daquele primeiro em neutralizar esta última (mas também à de qualquer movimento desta última no sentido de tomar aquele primeiro). Quer dizer, deverá reconhecer-se que a «questão de Deus sobreviveu à “morte de Deus”», que, se o teísmo é sucedido pelo ateísmo, a este segue-se um anateísmo que não é um simples regresso ao passado, mas uma abordagem da questão de Deus tomando em consideração, e superando, a radical crítica ateia (pp. 43-44; a fórmula anateísmo é, conforme se observa na nota da p. 43, tomada de R. Kearney, Anatheism: Returning to God After God, Columbia U.P., 2009). Deverá ser um Estado neutral a deixar a sociedade enfrentar as questões fundamentais que se coloca.

            A segunda é que uma tal compreensão do poder político poderá encontrar nos católicos vigorosos e assumidos defensores. Deles deve ser próprio o movimento de negação qualquer tipo de legitimação religiosa ao poder político (a recusa, podemos dizer, de uma «teologia política» secular):

            «Uma tal dessacralização do político não pode ser assegurada por nenhuma sociedade política, uma vez que todas (incluindo aí as democracias contemporâneas) aspiram irresistivelmente a fazer-se sacralizar, ou mesmo a tornar as coisas sagradas. É preciso que os cristãos (e de formas muito variáveis) se esforcem com toda a sua energia para contrariar estas pretensões e instaurar eles mesmos, pelo seu próprio interesse, a separação de poderes. A ponto de que hoje a laicidade (mais exactamente, a separação) não se impõe no vasto mundo senão na medida em que cada nação foi, ou não, cristianizada.» (p. 45)

            Claro que não é esta o único modo de presença pública do que se apresenta como catolicismo; mas corresponde decerto ao único que com ele se identifica intimamente.

-14. Un moment catholique. – Deste modo se consegue – e assim se conclui o primeiro capítulo – identificar un moment catholique da sociedade francesa: «a única opção razoável que nos resta, ao mesmo tempo que nos aproximamos do coração do niilismo» (p. 47). Numa belíssima formulação, cabe aos católicos, num mundo em desagregação, «dar uma comunhão a uma comunidade que, sem eles, não seria mais una e indivisível» (p. 47).

            A cruz sem o estandarte, lia-se na introdução a este livro de Marion (cf. n.º 5). Ao fim deste primeiro capítulo, já se vê que não é o espírito triunfalista, ou de velha cruzada, ou de remontada, que anima esta reflexão, não é a colocação sob a bandeira cristã dos modismos que fazem o sucesso de cada época, mas a pura e simples colocação da vida como liturgia e kénosis.

(Continua a 18 de Abril.)


Imagem de Josh Batchelor por Pixabay