GLOSAS – Espaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente
Tiago Azevedo Ramalho
– Marcos da vida de Ivan Illich (cont.) –
– 7. Universitário itinerante. – Mas também o CIDOC teve um fim, em 1976. E à fase de intensa participação pública seguiu-se um novo período no qual a aura de estrelato se começou a esbater, até se tornar somente um fio na memória desde um tempo já consumado.
Figura de proa daquelas décadas de 60 e 70, Ivan Illich não se deixou reduzir à caricatura que dele se procurou fazer. Escreve Peter L. Berger (First Things, Março 2003): «É fácil de ver porque é que as ideias de Illich ressoavam bem no clima cultural do tempo. Mas desapontou, um por um, a maioria dos grupos que começaram por acreditar que era um deles. Os católicos irritaram-se quando criticou missionários na América Latina como imperialistas culturais. A contracultura descobriu que ele achava repugnantes muitas, quando não a maioria, das suas tendências, das drogas à sexualidade promíscua. Importunou a esquerda quando, após visita a Cuba, descreveu o regime de Castro como uma odiosa tirania. E as feministas ficaram profundamente ofendidas quando sustentou, alguns anos após “Shadow-Work”, que as mulheres estavam melhor em sociedades tradicionais nas quais se dedicavam à vida familiar. Illich era um génio que não pode ser colocado em nenhuma caixinha [bottle, no original].» Pela sua recusa a reduzir-se a um qualquer grupo tornou-se um alvo de todos.
É esta uma fase na qual Ivan Illich começa por viajar para novas geografias, como a Índia, o Japão ou o Sudeste Asiático. Mas será essencialmente o papel de uma espécie de universitário itinerante que assumirá, leccionando sobretudo nos EUA e na Alemanha, e continuando a fazer estadias em Cuarnavaca (já sem o CIDOC). A sua obra já não tem, nesta fase, índole polémica, adquirindo um tom mais histórico, hermenêutico, compreensivo. Entendendo esgotadas as chances de intervenção imediata sobre o tempo em que viveu, dedica-se ao esforço de compreensão da transição histórica do mundo a que assistiu na sua própria carne.
No plano pessoal, chega-nos agora a imagem de um Ivan Illich a viver desde as relações de amizade, dando e recebendo hospitalidade de um grupo de próximos que se foram escolhendo. O que permitiu que nesta última fase surgissem duas obras que ajudaram especialmente a desocultar o horizonte mais vasto de toda a sua actividade e reflexão, ambas editadas pelo radialista David Cayley: o ciclo de entrevistas reunido em Ivan Illich in Conversation; e os testemunhos/ diálogos reunidos em The Rivers North of the Future. The Testament of Ivan Illich as told to David Cayley. São obras singulares, uma vez que Ivan Illich resistira ao longo da vida a ser entrevistado (cf. Journey, p. 3), com o que a gravação de uma entrevista significa de perpetuação, e portanto perversão, de um momento que se desejava presencial, dialogal, único. Mas a amizade venceu essas legítimas resistências, e permitiu que se produzissem semelhantes frutos. Permitiram estas obras descobrir como, por detrás da significativa actividade publicística em temas de actualidade, se encontrou em Ivan Illich um esforço muito profundo de pensar a Igreja e o Mundo; e, sobretudo, qual o melhor modo de o Evangelho se apresentar, pela Igreja, ao Mundo a que se dirige.
Ivan Illich morreu em 2002, na cidade alemã de Bremen, à mesa de trabalho.
Foto: https://br.atsit.in/archives/165081