GLOSAS – Espaço de comentário a obras que interpelam o tempo presente
Tiago Azevedo Ramalho
Depois de, ao longo de trinta glosas (1 a 30), se ter acompanhado o retrato oferecido por Charles Taylor da formação da Idade Secular, apresentam-se agora as primeiras reflexões finais.
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– 108. Limites da Idade Secular. – Olhando o conjunto da obra de Taylor, vemos que o plano em que se afirmou primariamente a Idade Secular foi o da ordem social. Não se trata, por conseguinte, de uma passagem em absoluto de um tempo em que os referentes religiosos são fortes e omnipresentes para um outro em que perdem toda a sua pretensão de verdade, mas, em primeira linha, de uma reconfiguração do espaço de presença social da religião, colocando termo à identificação «durkheimiana» (ou «paleo-durkheimiana», ou «neodurkheimiana»,…: cf. os nn.º 84 e 88) entre religião e ordem social. Em lugar daquela identificação, eis que, agora, se defrontam diferentes alternativas mundividenciais num mesmo espaço público, que, precisamente por disputarem esse espaço, se desafiam umas às outras, sem a aparente autoridade de que gozariam acaso não houvesse alternativas disponíveis.
O ingresso numa Idade Secular, longe de conduzir a uma superação do fenómeno religioso, deve ser interpretado – o que já é muito – como uma reconfiguração do quadro contextual em que a religião se manifesta. Tal reconfiguração pode por alguns ser confundida como um desaparecimento puro e simples da religião, apenas por deixar de aparecer nos termos que até há pouco eram usuais; mas uma leitura mais atenta permite divisar a sua perduração em lugares que se supunham inabituais, bem como, sobretudo, a pervivência do específico fenómeno com que Taylor sela a sua obra: o da conversão. Não agora de uma conversão entre religiões, mas de conversão de leituras ou mundividências ateísticas ou indiferentistas para uma postura convictamente teística.
O tempo da Idade Secular está longe de ser linear. Desconhece a homogeneidade do fenómeno religioso em dada sociedade; mas também lhe é estranha uma monocromia de sinal inverso, de hegemonia não crente, mesmo se esta se pode afirmar em dados círculos sociais mais restritos (cf. por ex. o n.º 106). Perante isto, pode perguntar-se: de que modo poderão os diferentes agentes religiosos agir num semelhante quadro, com vista a cumprirem a missão para que se entendem convocados? Tal é o objecto destas reflexões finais, tidas a partir de uma perspectiva católica.
– 109. A relevância do contexto de vivência da fé. – Se a mudança de contexto em que manifesta o fenómeno religioso não impede necessariamente, enquanto tal, que este perdure enquanto realidade social cultivada e feita viver pela e na comunidade de crentes – é sempre de admitir um resto que sobrevive a estas turbulências –, também não se pode dizer totalmente indiferente na determinação de qual o alcance da presença pública, mas também privada, da religião. De facto, e muito embora a confissão de fé cristã pressuponha actos pessoais de adesão, é grandemente influenciada por factores de índole cultural: há-de ao menos haver a possibilidade de veiculação cultural desse mínimo de conteúdos (fides quae) que possam determinar a aquiescência existencial da pessoa ao respectivo conteúdo (fides qua). Se, em termos teológicos, se pode realmente admitir que todos, em todas as circunstâncias, estão por misteriosas formas em relação imediata com o próprio Deus («unmittelbar zu Gott», conforme aliás passagem de Ranke citada por Taylor à p. 745), ao nível da compreensão puramente humana a consciência dessa relação está sujeita a factores de índole ambiental.
Sob este ponto de vista, é de perguntar se a passagem de uma Idade Pré-Secular para uma Idade Secular – passagem que, porque naquele primeiro momento a Idade de então era entendida como «cristã», pode ser treslida enquanto passagem de uma Idade cristã para uma Idade pós-cristã – não representa em si uma perda (a partir de uma leitura cristã), precisamente por conduzir ao desaparecimento de muitos elementos integrantes do espaço público, de índole «ambiental», que davam a efectiva possibilidade à pessoa de, deles se apropriando e com eles se conformando, assumir pessoalmente a fé crista.
Mas a resposta não é clara.
Com efeito, não é líquido, nem sequer desde este ponto de vista «ambiental», que a Idade Secular constitua enquanto tal uma perda. Talvez seja ainda muito cedo para fazer um juízo global. Algumas perdas existem certamente, mas nem todos os aspectos são negativos. Para o compreender, bastará colocar em evidência a forma de abuso que constitui identificar de modo pleno a Idade Pré-Secular com uma Idade (plenamente) cristã, que o não foi. E, se o não foi, as condições que a Idade Pré-Secular disponibilizou para a possibilidade de acesso à fé cristã, se, em parte, podem ter sido mais favoráveis dos que a da Idade Secular, em parte podem igualmente ter constituído um obstáculo a essa mesma opção – e vice-versa.
– 110. Cristianismo e sociedade. Primeiro reducionismo: o declínio da fé cristã. – Não resta dúvida de que a sociedade pré-secular, em contexto europeu, se legitimava a si própria como cristã, o que constituía um seu factor de delimitação identitária. Importa, porém, distinguir entre o modo de legitimação da sociedade e a sua efectiva realidade. Se não há dúvidas quanto àquela tentativa de identificação, já parece altamente abusivo procurar identificar a Idade pré-secular como um exemplo perfeito do que seria uma cultura cristã no mundo.
Factores interiores e exteriores à religião cristã conduziam a que essa identificação não pudesse ser plena.
Por um lado, aquilo a que se chamava religião cristã era o resultado de um certo equilíbrio entre as exigências que se podem dizer realmente específicas da fé cristã e formas tradicionais («pagãs») de vivência religiosa, nalguns casos em oposição à ortodoxia ou à ortopraxis da fé supostamente professada. Tais formas sincréticas de religião, ainda que sob – por sinédoque – uma redução à fórmula geral de «cristianismo», constituíram, não raro, factores de resistência à própria fé cristã, quando compreendida nos seus próprios termos «ortodoxos».
Por outro, por razões exteriores à própria religião cristã. Ao menos em termos gerais, o cristianismo, e as respectivas instituições, nunca constituíram o motor único da sociedade, e quase nunca o mais determinante: olhe-se o cesaropapismo; a doutrina das duas espadas; o padroado; o regalismo; o josefismo.
Ante tais dados, há certo abuso de linguagem onde se pretenda fazer uma identificação entre uma tal sociedade e um exemplo acabado de cristianismo. A sociedade era, como sempre ocorre, profundamente complexa, em que o factor cristão era um de entre muitos fermentos sociais, determinante nuns aspectos, não determinante noutros, e muitas vezes transigindo, a nível institucional, em colocar a seu coberto o que afinal o contraria, na expectativa de vantagens ulteriores.
Mas se é um abuso histórico identificar uma sociedade pré-secular como um exemplo acabado de sociedade cristã, semelhante identificação é igualmente – o que é bem mais grave – um abuso teológico. Porque confunde um determinado tempo histórico com a «plenitude dos tempos».
O mesmo se pode dizer, com as necessárias adaptações de outras realidades nossas contemporâneas: seria correcto identificar a formação escolar geral (e não especificamente religiosa) ministrada em instituições católicas, ou as organizações caritativas e assistenciais católicas, como um espelho pleno do que é a proposta cristã para o ser humano e para o mundo? Só com certo, e não pequeno, abuso de linguagem, que não deixa, porém, de ser cometido.
Não passámos, por conseguinte, de uma sociedade com perfeita presença cristã para uma outra em que o elemento cristão se esvazia. Mas de uma sociedade com condições imperfeitas para a afirmação do cristianismo para uma outra com condições igualmente imperfeitas para a afirmação do cristianismo. A diferença na «imperfeição de condições» está em que ontem a sociedade se pensava como cristã, apesar de o não ser perfeitamente, e, assim, se enganar a respeito da sua identidade; e hoje se pensar supletivamente como secular, mesmo se tal não tem de implicar, enquanto tal, qualquer hostilidade necessária aos elementos centrais do cristianismo.
Precisamente a tomada de consciência de que o contexto de experiência da fé cristã é sempre imperfeito para a respectiva afirmação permite matizar as apreensões possivelmente resultantes de uma passagem para a Idade Secular – e superar uma redutora interpretação histórica de «perda» do espaço do cristianismo. Que de perda de presença social se fale, é certo; que de perda de «poder institucional» exercido em nome da fé cristã, igualmente; que tal seja necessariamente uma real perda para o cristianismo, merece decerto uma diferente resposta.
Perdeu-se presença pública, e com ela a facilidade de apresentar aos contemporâneos os elementos fundamentais da fé cristã. Mas ganhou-se, com o fim dessa identificação, a enorme vantagem de não mais se apresentar como cristão o que, vindo sob esse nome, é somente uma sua plena negação, e que aliás contribuiu para criar autênticas legiões de adversários à fé cristã por razões que, em verdade, a ultrapassam. Pois é certo, como não se pode deixar de reconhecer, que a identificação institucional entre religião e ordem social propicia tal tipo de «solidariedade» entre os males de uma e de outra.
Justamente o fim dessa identificação institucional, com a simultânea perduração, na esfera pública, dos males que se assacavam à religião, sem que a esta última possam continuar a ser imputados, será – como observa Taylor (n.º 107) – um dos factores que facilitarão o recobro da presença da religião na sociedade.
– 111. Cont. Segundo reducionismo: a ascensão da fé cristã. – De onde não se deve cair no reducionismo inverso – o de saudar a Idade Secular como uma Era «excelente» para a afirmação da fé cristã.
Cai-se agora no reducionismo rigorosamente inverso. Onde ontem – com quanto abuso… – se legitimava por ex. o «direito divino dos monarcas», hoje – com não menor abuso… – é a «ordem liberal democrática», ou «plural e diversificada», a ser justificada como uma tradução política da fé cristã.
A tendência de identificação anterior entre religião e ordem social repete-se, somente as cores são diversas. De facto, a absolutização do tempo de ontem ou do tempo de hoje, o tradicionalismo ou o modernismo, constituem apenas duas variações sobre um mesmo erro: o de exaltar um certo momento histórico meramente humano a servir de parâmetro de leitura de toda a história. Por isso, aliás, conseguem essas duas variações defrontar-se de modo tão confortável uma à outra, por arrancaram de uma leitura da história muito semelhante.
É certo que a Idade Secular traz consigo inegáveis vantagens: como não saborear uma vivência prática da fé que doravante será alimentada por efectivas decisões pessoais, e não enquanto meio de acesso a outras esferas da realidade social? E como não ver com alegria a perda de «poder mundano» por parte das instâncias eclesiais, podendo enfim concentrar-se na sua fundamental missão: a do o anúncio do Evangelho, a do sustento à vivência da fé por parte da comunidade de baptizados, a do serviço da caridade?
Mas não se podem igualmente calar os inúmeros inconvenientes a que já se assiste. Não se pode olhar senão com enorme apreensão para as reconfigurações de uma sociedade que, na sua cultura comum, deixa de ser salgada por valores fortemente promovidos pela cultura cristã. Veja-se o conjunto de modificações no âmbito do «biodireito», em que se redefine o estatuto do ser humano em termos que ainda há pouco se supunham impensáveis, e que se recuperam soluções de uma antiguidade clássica pré-cristã. Quem não se conforme com a sorte a que vê remetidos os seus contemporâneos não poderá encontrar, diante destes fenómenos, ocasião de satisfação.
Tudo ponderado, parece que não se poderá celebrar esta passagem para a Idade Secular com efusividade (embora não entusiástico, diferente parece ser o sentir de Taylor, que, porém, não chega a tratar dos efeitos sobre a «moralidade comum» do apagamento da presença social do cristianismo). Mas, como antes igualmente vimos (n.º 110), também não seria necessariamente uma ocasião de felicidade a permanência no quadro anterior.
Ainda é muito cedo, conforme se escreveu há pouco, para fazer um juízo global.
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Continuamos as presentes reflexões no próximo texto.
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