Directo ao contraditório | Uma rubrica dedicada à reflexão crítica sobre as certezas de sociedade tidas como insofismáveis
Tiago Azevedo Ramalho
Perante um conflito como o que neste momento se assinala em Gaza, não é difícil, a um cristão, decidir-se por que lado tomar partido: há-de tomar o lado das pessoas atingidas pelo conflito, o lado da paz. Decisão nada fácil, porém, pois as pessoas não são tabulae rasae, mas apresentam-se com as suas bandeiras, ou sob bandeiras, ou contra bandeiras. Pode estar-se com a pessoa e não com a causa que diz sua? Ou recusar receber a causa é já trair a pessoa? Ou deve jurar-se fidelidade à causa mesmo em sacrifício da pessoa?
Não é cómoda, não é confortável, a posição que um cristão é chamado a assumir neste estado de coisas. «Envio-vos como ovelhas para o meio dos lobos; sede, pois, prudentes como as serpentes e simples como as pombas» (Mt 10, 16). Por um lado, a prudência reclamará que se observe a realidade com os olhos bem abertos, medindo e sopesando, julgando e discernindo. Exigirá também que se conserve certa suspeita em relação ao próprio juízo, recusando sacrificar a complexidade da realidade ao crudelíssimo altar da simplicidade da ideia. Mas, por outro, há-de o cristão manter-se manso, decidindo-se por esse sinal de contradição de uma vida de paz mesmo num mundo inflamado.
Mas quem arrisca esta radicalidade? «Ide! Envio-vos como cordeiros para o meio de lobos. Não leveis bolsa, nem alforge, nem sandálias (…)» (Lc 10, 3-4a). Dá-se uma distância entre a condição actual – não só, mas também, com violência, com rivalidades, com inseguranças – e a plena realização de uma escatologia de paz, distância que só a muito custo pode ser estreitada. E por isso se erigem estruturas temporais, que condescendem no exercício daquilo – o poder, a violência – que na plenitude da paz messiânica será superado.
Há-de o cristão exercer a virtude que lhe vem da fé para justificar as opções que se hajam de tomar neste tempo intermédio? Há-de substituir a confiança na escatologia da paz em favor de uma novel teologia política, ressacralizando o poder que na fé fora denunciado como simples produto do século? A tentação – a de colocar a fé ao serviço de realidades meramente penúltimas – está à porta. Tentação em que, aliás, a Igreja já caiu por demasiadas vezes nos seus dois mil anos de peregrinação – e uma só vez já seria muito. Por mais piedosas que sejam as intenções, ao Evangelho não interessa ser mais uma bandeira ao serviço dos que se digladiam violentamente entre si: o Evangelho apenas combate com as forças do Evangelho, pois quaisquer outras, mesmo que em seu nome, mesmo que com aparente sucesso, são já a sua perversão. Corruptio optimi quae est pessima.
Olha-se para o conflito de Gaza e não há dúvidas: é do lado das pessoas que se há-de estar. Mas o que implica semelhante posição? E se estar com as pessoas, e se estar pela paz, significar o fim da ocupação de Gaza? E se, pelo contrário, significar o fim da Palestina enquanto unidade política? Dirão muitos: tal hipótese (a primeira ou a segunda: que importa!) é intolerável. Mas não equivale essa recusa da hipótese à confissão de que a fidelidade fundamental está a ser dada a ideias, e não a pessoas?
Estou bem longe de saber qual a melhor saída para o conflito de Gaza. É muita a distância geográfica, religiosa, vivencial. Não sei o que é ter fome. Ou viver em vigilância e humilhação contínuas. Ou sentir-se sob cerco. Não sei o que é – ao contrário das raposas, que têm tocas, e das aves do céu, que têm ninhos – não ter onde reclinar a cabeça. Também não sei o que é sentir-se profundamente odiado apenas por causa da mãe de que se nasceu. Estou por isso distante de Gaza, muito distante. Mas vejo de perto muitos outros que, tão distantes de Gaza como eu, contudo não hesitam em não perdoar a um Estado, apenas a um só Estado, muitas das precisas práticas que consentem, defendem, exigem até, que qualquer outro respeitável Estado do mundo adopte. Vem-me uma certa náusea ao reconhecer um capítulo mais de uma história que se prolonga por demasiado tempo.
E algures aqui no meio se descobre uma pequena e sofrida comunidade cristã, a de Gaza, frágil minoria entre gigantes contendores. De quando em vez temos dela notícia: vive padecendo todas as dores dos que são esmagados pelos grandes senhores da história; mas mantém-se de pé, com mansidão e paciência, abençoando e santificando. À sua cabeça encontra-se um prelado que, com aquela desconcertante loucura de São Francisco que se fez irmão de todos, chegou já a disponibilizar a sua vida para resgate de outros. Era para esta comunidade que um outro Francisco, agora da cadeira de São Pedro, ligava todos os dias em sinal de reconfortante presença paterna e de fraternidade partilhada. Ligava ao cair do dia, na hora em que o Sol declina e em que a noite se aproxima: a hora de Vésperas em que, como incenso, sobe esse agradecido e esperançoso Magnificat que glorifica Aquele que dispersa os soberbos, que derruba os poderosos dos seus tronos e exalta os humildes, que aos famintos enche de bens, que aos ricos despede de mãos vazias.
Foto recolhida da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre